quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Woody Allen em boa forma


"Whatever Works", o último filme de Woody Allen, é o regresso à grande forma artística do realizador nova-iorquino. Depois da pujança dramática do díptico "Match Point" (2005) e "Cassandra's Dream" (2007) e do decepcionante "Vicky Cristina Barcelona", eis que Woody Allen volta a revelar todo o seu enorme talento de realizador e argumentista. Talvez não seja por acaso que o argumento deste filme seja já de 1977, altura em que o realizador o escreveu - porventura uma das fases de maior criatividade cómica do cineasta. Entretanto, o argumento ficou na gaveta durante três década. Até agora.
"Whatever Works" revela-se um verdadeiro tratado de escrita para cinema, com acutilantes e inteligentes diálogos, ritmo minucioso da progressão narrativa, notável criatividade de recursos cómicos. É Allen no seu terreno de eleição - a "comédia intelectual" sobre temas como o amor, a morte, o desejo, as relações humanas, a angústia existencial, com Nova Iorque como cenário de fundo, à semelhança de "Manhattan" ou "Hanna e Suas Irmãs".
A interpretação de Larry David como o arrogante, misantropo, fóbico, hipocondríaco, intelectual e "genial" professor Boris Yellnikoff - claro alter-ego de Woody Allen - é notável, com diálogos hilariantes sobre os problemas da vida humana. Boris conhece uma jovem e ingénua rapariga (actriz Evan Rachel Wood) que irá mudar para sempre a sua obstinada visão pessimista das mulheres. Tenta suicidar-se duas vezes, duas vezes falhando a intenção de matar-se, abrindo oportunidade para um recomeço de vida de consequências irresistíveis. Aliás, o desenlace da história é dos mais surpreendentes e divertidos finais dos últimos anos de Woody Allen. Como é habitual nos filmes de Woody Allen, todos os papéis secundários são importantes no desenvolvimento da narrativa, e todos, sem excepção, são muito bem interpretados.
Decididamente, o regresso de Allen ao seu habitat natural (Nova Iorque), depois de uma desigual experiência europeia, só lhe fez bem.

Chaplin e as imitações


Não se sabe se este episódio é real ou fictício. Geraldine Chaplin, a filha do famoso realizador da comédia burlesca muda, disse recentemente numa entrevista que também desconhece a veracidade deste episódio. O que se conta é que, no auge da popularidade de Charlie Chaplin, havia frequentemente concursos de imitação do personagem Charlot (tal como hoje existem os programas televisivos de imitações de celebridades).
Um dia, por brincadeira, o próprio actor e realizador resolveu participar, anonimamente, num desses concursos. O objectivo era imitar o mais possível, em termos físicos e expressivos, o célebre vagabundo de bigode, chapéu e bengala. Chaplin terá dado o seu melhor a interpretar-se a si mesmo e, surpresa das surpresas, ficou em terceiro lugar no ranking das melhores imitações. E nunca terá revelado a sua verdadeira identidade...

"Shoah" em DVD... espanhol


É o documentário definitivo sobre o Holocausto nazi: "Shoah" de Claude Lanzmann (essencialmente jornalista, director da revista "Les Temps Modernes", fundada por Jean-Paul Sartre). "Shoah", palavra judaica para descrever o Holocausto, foi estreado em 1985 e é um monumental trabalho de recolha de informação (mais de 350 horas de filmagem ao longo de 11 anos de pesquisa e de entrevistas a sobreviventes), que resultou em 9 horas de filme. Um documentário (já vi pelo menos metade) que não deixa ninguém indiferente perante os horrores dos campos de extermínio como o de Treblinka e que agora é lançado comercialmente no mercado DVD espanhol pela editora Filmax.
Agora pergunta-se: para quando a urgente edição portuguesa?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Momentos e Imagens - 45


Orson Welles sentado de frente para o horizonte.

Serge Gainsbourg ensina Jane Birkin como seduzir Joe Dallesandro na rodagem do filme "Je t'aime Moi Non Plus" (1976).

100 álbuns da década

Está a chegar o fim do 2009 e a consequente febre do balanço dos melhores discos, livros & etc do ano. Alguns jornais até já são mais ambiciosos e antecipam as listas dos "melhores" da década. É o caso do New Musical Express, que acaba de publicar uma especial reportagem dedicada aos 100 melhores álbuns da última década. Como o NME é um jornal musical praticamente vocacionado para a divulgação da música pop-rock, não é de admirar o sentido das escolhas. Sobretudo as que dizem respeito aos 10 primeiros lugares:
1- "Is This it" - The Strokes
2- "Up the Bracket" - The Libertines
3- "XTRMNTR" - Primal Scream
4- "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" - Arctic Monkeys
5- "Fever to Tell" - Yeah, Yeah, Yeahs
6- "Stories from the City, Stories from the Sea" - PJ Harvey
7- "Funeral" - Arcade Fire
8- "Turn On The Bright Lights"- Interpol
9- "Original Pirate Material" - The Streets
10- "In Rainbows"- Radiohead
Depois de ver esta lista nem tive vontade de ver os outros 90 álbuns (é que pessoalmente só colocaria o álbum dos Arcade Fire ou dos Radiohead neste top 10).

Perguntas indiscretas - 11


Quantos livros conseguimos/devemos ler numa vida?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Actividade Paranormal"


De dez em dez anos há um hype assim. Há dez anos aconteceu o fenómeno "Blair Witch Project", um filme independente feito com meia dúzia de tostões que rendou milhões à custa de informação viral sobre a alegada veracidade dos factos que o filme abordava. Agora, o novo hype é o filme "Actividade Paranormal" que, à semelhança do título citado, também foi feito com escassos recursos, em apenas 15 dias de filmagem (na própria casa do realizador), com uma câmara de filmar digital doméstica (de qualidade) e unicamente com dois actores. Pretendia passar como documentário verdadeiro (a captação, em vídeo doméstico, de fenómenos estranhos ocorridos numa casa durante a noite), mas tal como "Blair Witch Project", rapidamente se percebeu que mais não era do que um "bluff" comercial.
Um filme assumidamente amador, que aborda o fenómeno paranormal durante a noite (ruídos, objectos que caem, portas que se abrem, etc), mas que foi suficientemente forte para impressionar gente experimentada como Steven Spielberg (que sugeriu um novo final para o filme). E claro, as receitas subiram na ordem dos milhões de dólares...
"Actividade Paranormal" é uma fita de terror mas não mostra sangue, nem monstros, nem violência "gore". Afinal, socorre-se da exploração da emoção humana primordial: o medo. O medo do desconhecido, do imprevisível. E parece que tem surtido efeito, com plateias aterrorizadas por todo o lado (como se pode constatar aqui), clubes de fãs criados a nível mundial, pesadelos registados, filas para comprar bilhetes e críticas de jornais que classificam o filme como o "mais assustador de sempre". Exagero ou não, veremos qual será a reacção quando estrear por cá (e se o "hype" se confirma), no próximo dia 10 de Dezembro.

O universo de Tim Burton em exposição

Já havia 1489 razões para visitar Nova Iorque. Mas agora há mais uma e de peso: a monumental exposição retrospectiva do trabalho criativo do realizador Tim Burton, patente no prestigiado Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA). A exposição apresenta um impressionante número de 700 obras - desenhos, fotografias, livros, pinturas, filmes e objectos - que Tim Burton fez ao longo da sua já considerável carreira (desde os tempos em que trabalhou como simples animador da Disney, no início dos anos 80, até à actualidade).
Em suma: a fantasia e os pesadelos do visionário Tim Burton em exposição - 1490ª razão que faltava para visitar a "Grande Maçã".



Discos que mudam uma vida - 82


Underworld - "Second Toughest in the Infants" (1996)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Shh... Não digas quem é o assassino

A excelência de Tom Waits

Tom Waits editou em 1988 o filme "Big Time" (1988) que é, basicamente, a gravação de um concerto ao vivo dado pelo músico americano. É um fabuloso documento audiovisual de uma das melhores fases criativas de Tom Waits. Todos os temas são superiormente interpretados, naquele misto de atitude excessiva e de loucura genial que sempre caracterizou o talentoso trabalho de Waits ao longo dos anos.
Esta recriação do clássico "Rain Dogs" é de arrepiar. É Tom Waits no máximo esplendor das suas capacidades interpretativas (é preciso ver até ao fim para perceber). Teria doado um rim para poder assistir a este momento mágico (as hipérboles servem para dizer coisas destas).

domingo, 15 de novembro de 2009

Os maus-bons filmes


Música suína?


Em 2001, o músico britânico Matthew Herbert gravou um disco de música electrónica (bom, por sinal) chamado "Bodily Functions", baseado em samples de sons produzidos pelo corpo humano; em 2006, utilizou mais de 600 objectos que produziam sons de caixas de cereais no álbum "Scale". Agora, Herbert volta à carga com um novo disco que já está a causar controvérsia. Matthew Herbert quer criar um porco para o abater e depois construir flautas com os respectivos ossos do animal. Será que Herbert quer regressar ao primitivismo do homem pré-histórico, quando este fazia música com ossos de animais? Quererá Herbert criar um novo género musical - "música suína"? Se for essa a perspectiva, esta ideia do músico já nem sequer é inédita. Além do mais, nos anos 80, lembro-me de ouvir um disco experimental (creio que dos Zoviet France) que, constava-se, tinha sido feito com base em percussões e sons obtidos de... ossos humanos.
Seja como for, parece que as associações de defesa dos animais ainda não se pronunciaram sobre esta intenção de Herbert. E na página da revista Blitz onde li esta notícia, há um comentário de um leitor que resume aquilo que também passou pela minha mente: "Se ele (Herbert) fosse a Trás-os-Montes, na altura da matança, podia fazer uma ópera inteira."
Fica a sugestão.

sábado, 14 de novembro de 2009

Filmoterapia


Já li este livro há dois anos mas volta e meia regresso a ele com o mesmo prazer de descoberta. É um livro que trata o cinema de um forma bem diferente do habitual, que concebe a sétima arte como uma terapia. Aliás, o autor, Pedro Marta Santos, diz mesmo que se trata de uma filmoterapia: filmes clássicos e modernos, para todas as doenças e estados de espírito. Escrito de forma divertida (mas explorando o cinema como matéria bem séria), "Guia Terapêutico de Cinema" está talhado para curar doenças, indisposições ou estados de alma, receitando filmes como terapia para os mais variados sintomas e maleitas. Seja para curar insónias, para enfrentar problemas psíquicos, para usar como fonte de relaxamento, o guia sugere o uso de filmes (e indica o DVD certo) para - em doses bem medidas - enfrentar com sucesso as mais diversas eventualidades.
Jacques Tati está na categoria dos antidepressivos; Vincent Minelli na classe dos ansiolíticos (como antídotos estão Bergman ou Antonioni). É uma espécie de livro de auto-ajuda com recurso a uma estrutura que mima a literatura médica (receita, genéricos, subtância activa, dispensário…), é um guia imprescindível para todos os amantes de cinema. O autor sugere filmes para curar insónias, excessos, traumas de infância, dúvidas existenciais, problemas morais, depressões, ansiedade... E divulga listas improváveis como "Os dez Melhores Filmes com freiras", "Os dez Piores Filmes com padres e Transsexuais", "Filmes Para Ver na Cama em Noite Chuvosa de Inverno", "Filmes Que os Homens Gostam e Elas Fingem Que Gostam Para Lhes Agradar", etc
Cataloga mais de 2000 filmes - indicando a sua disponibilidade em DVD - em temas bastante originais: "Puro Vómito", "O sexo e a Idade", "De Fazer Chorar as Pedrinhas da Calçada", "filmes Que Dão Vontade de Praticar Exercício Físico", entre outras abordagens pouco heterodoxas.
Em suma: seja qual for o seu problema, não vá ao médico: leia este livro e veja filmes, muitos filmes.

A voz de Lisa Gerrard em novo disco


"The Black Opal" é o mais recente disco a solo de Lisa Gerrard, a magnética ex-cantora dos essenciais Dead Cand Dance. Do pouco que ouvi até agora, gostei sobremaneira, mas vai exigir novas audições para formar uma opinião mais consistente.
Para ouvir excertos dos temas do álbum, aqui, para aceder ao álbum, aqui.

Momentos e Imagens - 44


'Apocalypse Now' não é sobre o Vietname, é o próprio Vietname"
Francis Ford Coppola

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sozinho na sala escura


Há dias um amigo meu foi ao cinema ver o filme “Estado de Guerra” e foi o único espectador na sala (relatou o caso neste post). Nunca passei por tal experiência. Mas julgo que deve ser interessante estar sozinho numa sala escura a ver um filme, ainda que considere que nem todos os filmes sejam adequados para se verem sozinhos. Mas é preferível ver um filme sozinho - seja ele qual for - do que ser constantemente incomodado por adolescentes faladores e inveterados comedores de pipocas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A música do Dia da Ira

Na globalidade, prefiro o "Requiem" de Mozart (como referi aqui), obra-prima absoluta da história da música (tão bem retratada num grande filme, "Amadeus", de Milos Forman). No entanto, empolgo-me muito mais a ouvir o "Dies Irae" do "Requiem" do compositor italiano Giuseppe Verdi.
"Dies Irae" significa "Dia da Ira" e é uma importante secção estrutural de qualquer "Requiem". Verdi compôs um extraordinário "Dies Irae", ritmicamente vibrante, com harmonias bem orquestradas e intervenções instrumentais que quase exalam fogo (timbales, sopros, cordas e um possante coro). É um trecho musical de uma intensidade avassaladora. O exemplo a seguir não faz justiça a essa tremenda intensidade (fraca qualidade de som). Mas imaginem ouvir isto ao vivo com uma orquestra de 100 músicos e outros tantos cantores de coro. Ah, e com a entrega total da direcção da orquestra por parte do grande maestro Claudio Abbado.
Deve ser uma experiência "extrema".

Scorsese vai receber um Cecil B. DeMille


Curiosa coincidência: ontem publiquei um post com um diálogo do "Goodfellas" de Martin Scorsese e hoje é anunciado que o realizador italo-americano vai receber o prémio honorífico Cecil B. DeMille na 67ª edição dos Globos de Ouro, a realizar no dia 17 de Janeiro em Los Angeles. Merecidíssima condecoração, mais a mais, no ano em que Scorsese estreará o muito aguardado "Shutter Island".

Um Warhol na parede da sala


Em tempos de crise financeira, nada como investir no negócio de arte para afirmar um poder de compra milionário. Um coleccionador comprou ontem uma tela de Andy Warhol - "200 One Dollar Bills" (na imagem) - no valor de 43,76 milhões de dólares (29 milhões de euros) num leilão de arte contemporânea que decorreu ontem. Se eu tivesse este dinheiro, apesar de gostar de Warhol, não compraria esta tela. É que na minha sala ficaria melhor uma serigrafia de Marilyn Monroe, de Elvis Presley ou uma tela com as latas de sopa Campbell's.