terça-feira, 13 de julho de 2010

O som no cinema de Tarkovski


"In the 'The Sacrifice' there is no music only the S:t Matthew Passion at the beginning and the end. There is this woman's voice and the Japanese flute. Which is why all the other sounds functioned as music instead. So it all grow into something quite natural."
Estas palavras pertencem a Owe Svensson, editor de som sueco que trabalhou com o realizador russo Andrei Tarkovski no seu último filme, "O Sacrifício" (1986). É sabido que Tarkovski era um perfeccionista a todos os níveis da arte cinematográfica: realização, fotografia, montagem, interpretação, som e música. Neste último capítulo, a edição de som e a música (banda sonora original ou adaptada), o cineasta dedicava uma atenção muito especial. Para os seus filmes alternou a composição original do compositor Eduard Artemiev (o primeiro músico a compor música electrónica para filmes russos, em 1963) e composições clássicas de Bach, Haendel, Beethoven, entre outros.
Na sua última obra, "O Sacrifício", que contou com o extraordinário trabalho de fotografia do já desaparecido director Sven Nykvist (colaborador de Ingmar Bergman), Tarkovski utilizou apenas excerto da obra "Paixão Segundo São Mateus" de Bach e uma melodia de uma flauta japonesa - sem contar com o sempre minucioso trabalho de sonoplastia.
Owe Svensson, citado no início, foi o responsável pelo som deste filme de Tarkovski e nesta interessante entrevista explica como foi trabalhar com o realizador russo, quais foram os critérios artísticos envolvidos e como Tarkovski interpretava a importância do som no (seu) cinema.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Na morte de Harvey Pekar


Morreu hoje Harvey Pekar, vítima de cancro da próstata. Tinha 70 anos. Era conhecido pela sua imagem de anti-social, rabugento e instável emocionalmente (teve várias depressões). E teve direito a um filme sobre a sua obra, o magnífico "American Splendor", que chegou a estar na linha da frente dos Óscares em 2004.
Ainda há tempos perguntava a um amigo, especialista em Banda Desenhada, se Harvey Pekar continuava a fazer BD ou, sequer, se ainda era vivo (visto que sofria de cancro). Pelos vistos, manteve-se bem activo... até hoje. Pekar era conhecido, há pelo menos três décadas, como um autor de BD alternativa e de culto (ou artista gráfico), e o jornal espanhol El País até o chamava, de forma ousada, como o "Marcel Proust da banda desenhada norte-americana".
A particularidade de Harvey Pekar é que ele não desenhava, apenas escrevia as desconcertantes histórias (quase sempre autobiográficas) sobre os seus problemas existenciais, as suas depressões recorrentes, as suas frustrações quotidianas, sempre ao som da sua música preferida, o jazz.
Essas histórias trágico-cómicas, tão perto das vivências da conturbada sociedade moderna, eram transpostas para banda desenhada por Robert Crumb, outra lenda viva da BD underground.
Há esse belo filme sobre este personagem tão peculiar - "American Splendour" (2003), de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, com um soberbo Paul Giamatti como Harvey Pekar.
Uma das últimas novidades interessantes é que Harvey Pekar lançou, em Setembro de 2009, um projecto inovador na internet, chamado "The Pekar Project". Tratava-se de um sítio onde Pekar e um grupo de colaboradores (artistas gráficos e não só) revelavam o universo criativo deste autor tão original, misturando tiras de BD, biografia, textos sobre os mais diversos assuntos, livros e listas de preferências pessoais de Pekar, como a lista dos "10 músicos de jazz mais inovadores". Um sítio repleto de boas surpresas que agora, com a morte do seu irreverente autor, ganha outra magnitude.

O regresso de Shrek


"Shrek 4 - o Capítulo Final" revelou-se uma boa surpresa.
A seguir ao primeiro e revolucionário filme da série (2001), este é bem capaz de ser o melhor dos quatros títulos da Dreamworks, sobretudo depois do terceiro tomo, "Shrek The Third", ter sido uma desilusão pela previsibilidade do argumento e o aparente esgotar da paródia aos clássicos contos de fadas. Daí que a expectativa em relação ao quarto capítulo estava num alto patamar de exigência. Sem deslumbrar ou revelar elementos de genial inspiração, a verdade é que "Shrek 4" cumpre as premissas que se esperavam, muito por força do argumento engenhoso (para além de ser sempre um belo entretenimento).
Como disse o crítico do Público, Jorge Mourinha, este é talvez o Shrek com um argumento mais dirigido para o público adulto (o filme do ogre verde contém muitos gags que só os adultos compreendem). A história gira à volta de mundos paralelos e alternativo - como saber o que aconteceria ao Shrek caso não tivesse nascido (inspiração no clássico "Do Céu Caiu Uma Estrela" de Frank Capra?).
A animação continua apuradíssima, e o 3D veio salientar pormenores visuais e dar intensidade e ritmo à acção. A dobragem portuguesa, como nos anteriores capítulos, mantém a qualidade.

Coppola e a "lavagem cerebral"


Francis F. Coppola sempre se assumiu, ao longo da sua já longa carreira, como um orgulhoso outsider face ao sistema de Hollywood, ainda que, de alguma forma e nalgum momento, tenha feito parte dele (como quando esse sistema lhe financiou alguns dos seus filmes).
Por isso Coppola criou a sua própria produtora independente, a Zoetrope, apesar de ter ido à falência após o fracasso comercial (mas não artístico) decorrente do filme “Do Fundo do Coração” (1982).
Há tempos o autor da trilogia “O Padrinho” deu mais uma aferroada ao dizer que Hollywood não tem feito mais do que uma “lavagem cerebral” aos espectadores, com filmes que são todos idênticos, que não ousam nem arriscam, não trazem ideias novas e originais. Tirando algum exagero nesta crítica, Coppola não deixa de mexer na ferida com o que diz. Foi por isso que o seu último filme, "Tetro", foi realizado com o seu próprio dinheiro e num registo estético independente.
Pensando bem, pegando na expressão de Coppola, "lavagem cerebral no cinema" seria um promissor e interessante tema para um dissertação académica...

domingo, 11 de julho de 2010

O intelectual na praia

A propósito das leituras na praia (ver post mais abaixo), não posso deixar de mencionar algumas (divertidas) regras que a revista LER de há um ano aconselhou para o "intelectual na praia". E conta assim:

"Antes de pisar os escaldantes areais com o Rorty debaixo do braço, o intelectual deve saber comportar-se entre gente que adopta o topless como regra e não faz a mínima ideia de quem é o Rorty. Vamos ensinar o intelectual a ir à praia:

Regra 1 – É importante tirar as calças e as meias. O intelectual tem de defender a postura.
Regra 2 – Não saber nadar é um pormenor. Nem no mar podemos ser todos o Camões.
Regra 3 – Em caso de esquecimento do guarda-sol, há sempre a hipótese de usar um catalogo da Gulbenkian.
Regra 4 – O factor 50 normalmente não é suficiente. É preciso ir mais longe na protecção. O intelectual copo de leite deve inclusive pedir uma burka emprestada ao Chomsky.
Regra 5 – A ser perturbado por um prurido ou um ataque de pânico, é favor recordar Hemingway, que ia à caça. Ou Saramago, que foi viver para Lanzarote. E Lobo Antunes que, por pirraça, um dia vai viver para Ibiza."

sábado, 10 de julho de 2010

Spike Jonze e o amor robótico


Parece que o grande filme do festival de curtas-metragens de Vila do Conde é a mais recente obra de Spike Jonze: "I'm Here".
Uma curta-metragem (30 minutos) cuja história se centra na relação amorosa entre duas personagens semi-robôs, semi-humanos, na Los Angeles actual. As emoções e sentimentos nos robôs já não cosntituem matéria inédita na ficção científica (cinema ou literatura), mas quem já viu o filme "I'm Here", garante que o universo surreal e bizarro de Spike Jonze continua a revelar criatividade e ousadia formal:

Há mais excertos deste filme aqui.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Hal 9000 premonitório?


Arthur C. Clarke sabia bem o o que estava a fazer quando escreveu o livro "2001 - Odisseia no Espaço". Por seu lado, o realizador que adaptou a referida obra de Ficção Científica, o grande Stanley Kubrick, sabia igualmente o que estava a filmar.
O filme, magna obra de arte de Kubrick, retrata duas viagens: a espacial, pelo espaço sideral, e a interior, pela mente do homem e da Humanidade (suas memórias e desejos). Uma viagem maior do que a vida.
Em "2001 - Odisseia no Espaço", a personagem principal acaba por ser um... computador. Estávamos em 1969, muito longe ainda da erupção tecnológica e informática da era actual. HAL 9000, de seu nome, esse computador central de avançada inteligência artificial, representado por uma brilhante luzinha vermelha e pela voz fria do actor Douglas Rain, tinha a capacidade de falar naturalmente, interpretar a informação sobre os acontecimentos, monitorizar tudo o que se passava na nave espacial, detectar as emoções humanas e a fala labial, apreciar diversas manifestações artísticas e tomar decisões consideradas como racionais, justas e correctas à luz da lei do homem.
Apesar de programado para obedecer à voz humana, HAL 9000 acaba por ganhar vontade própria e, de forma maquiavélica, aniquilar a vida humana que resta na nave...
Este computador acaba por constituir uma medonha metáfora premonitória da realidade contemporânea: todos os dias ouvimos notícias que informam sobre a videovigilância do cidadão comum, nas ruas e locais públicos. Câmaras, computadores, satélites, tecnologias a rodos, maquinaria dotada de inteligência artificial, tudo para controlar (quase) todas as actividades da sociedade. Uma sociedade globalizada e altamente tecnológica, manietada pela paranóia da segurança, pela crescente dependência dos mecanismos electrónicos e digitais para tudo e para nada.
No filme de Kubrick, HAL 9000 tornou-se a dada altura - não se sabe bem porquê - dotado de vontade própria, ameaçador e letal. Os pessimistas indicam que a robótica (supostamente ao serviço do homem), poderá um dia revoltar-se e dominar a Humanidade. Delírio de ficção científica ou possível realidade?

Discos que mudam uma vida - 111


The Cure - "Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me" (1987)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Quando Dalí colaborou com Hitchcock e Buñuel


Que relações teve o excêntrico pintor Salvador Dalí com o cinema? De que forma a arte do cinema influenciou a sua pintura ou vice-versa? Sabe-se que houve um projecto abortado entre Walt Disney e Dalí para a realização conjunta de um filme de animação surrealista ("Destino"). E sabe-se da colaboração de Dalí com Luís Buñuel no filme "Un Chien Andalou" (1928). E sabe-se também que Hitchcock encomendou a sequência do sonho a Dalí para o magnífico filme "Spellbound" (1945), na imagem.
São estas e outras relações que surgem no livro "Dalí y el Cine", editado unicamente no mercado espanhol. Contém textos, fotografias, argumentos e desenhos do pintor sobre o mundo da Sétima Arte, e ainda conta com ensaios de diversos estudiosos sobre o fascínio do pintor e o cinema. Uma relação por certo tão fascinante e inusitada quanto a sua própria vida (e obra).

Perguntas indiscretas - 34

Does the body rule the mind or does the mind rule the body?


quarta-feira, 7 de julho de 2010

Momentos e Imagens - 67


Um encontro histórico - em data desconhecida - entre dois génios (tão distintos) da história do cinema: Charlie Chaplin e Ingmar Bergman. O que terão dito um ao outro?

terça-feira, 6 de julho de 2010

O dia do futuro é hoje


Eu sou do tempo em que vi na sala de cinema a trilogia "Back to the Future" (1985 - 1990), uma fantástica aventura de puro entretenimento (de qualidade): um argumento cativante, surpreendente e complexo, boas interpretações de Michael J. Fox e de Christopher Lloyd, e uma realização seguríssima de Robert Zemeckis.
As peripécias do adolescente rebelde Marty McFly (Michael J. Fox) que ouvia ZZ Top e Van Halen e que tinha fama de cobarde, levaram-no ao futuro (e depois ao passado) por intermédio do fantástico carro-que-viajava-no-tempo do "louco" cientista Emmett Brown.
Ora, o dia do futuro para o qual Marty McFly viajou no filme é a data de... hoje (ver quadro em baixo que surgia no filme)! Na película - realizada em 1985 - surgiam invenções que se concretizaram, como as centenas de canais de televisão por cabo, os jogos de consola ou a videoconferência.
No entanto, muitas outras coisas que Marty presenciou no "futuro" de 2010 continuam do domínio da ficção: carros voadores, roupas de neon, skate flutuantes, homens de negócio com duas gravatas, são ainda pura miragem nos tempos que correm. Talvez se houver um "Back to the Future 4" e Marty McFly viaje até 2025 consiga testemunhar estas inovações...
Visto aqui.

O prazer e a preguiça segundo Albert Cossery


Lembro-me do momento em que um amigo mais velho me deu a conhecer a obra do escritor Albert Cossery (morreu aos 93 anos em 2008). Foi em meados dos anos 90. Dizia-me esse amigo que Cossery era um escritor invulgar e original, capaz de escrever sobre assuntos mundanos de forma extremamente polida, que se interessava pelos "vencidos da vida" e não por heróis romanceados de forma épica.
Nasceu no Egipto mas toda a vida escreveu em francês. Metódico e solitário (viveu décadas no mesmo quarto de hotel), Albert Cossery tinha por hábito escrever apenas uma frase em cada dia, durante quase sessenta anos de carreira literária, produção que equivaleu a uns escassos oito livros publicados.
Albert Cossery fazia, na esteira da filosofia epicurista (o prazer e o hedonismo como valores primordiais para a vida), a apologia da preguiça e do ócio, vendo nestas atitudes o espelho de uma rebuscada actividade interior, como métodos valiosos de reflexão sobre a vida e o mundo. O próprio Cossery viveu praticamente toda a vida de forma desprendida e despojada, segundo o próprio, veículos para a felicidade e para o bem-estar existencial. Cossery foi amigo de grandes figuras da literatura como Boris Vian, Jean Genet, Henry Miller e Albert Camus, mas ainda assim é o autor menos conhecido de todos.
Apenas li três dos seus oitos livros: "Mendigos e Altivos", "A Violência e o Escárnio" e "Conversas Com Albert Cossery". Este último título, um conjunto de entrevistas ao escritor egípcio, é particularmente interessante para compreender o pensamento e a escrita de Albert Cossery:
Jornalista: "Nunca pensou que as sociedades podem progredir?"
Albert Cossery: "Um progresso espiritual, sim, mas não no sentido religioso. Espiritual, quer dizer no espírito. É muito difícil e é por esse facto que a humanidade não avançou nem um centímetro desde há milénios. Hoje vemo-lo um pouco por todo o mundo: as pessoas odeiam-se, entram em guerra, matam-se".
- "Qual é a arte de viver?"
- "Desprender-se de tudo o que nos ensinam, de todos os valores e dogmas".
- "O que é que caracteriza a arte de viver das personagens que criou?"
- "Em primeiro lugar, a falta de ambição. O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo para mim próprio: podem apresentar-me isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe. Não é a posse de bens materiais que pode satisfazer um homem inteligente, que compreendeu o mundo em que vive".
- "O que lhe dizem os seus leitores mais frequentemente?"
- "Os meus leitores nunca me dizem: escreveu um belo romance, como acontece com muitos escritores; dizem-me: salvou-me a vida. Muitos jovens vão para o Egipto - Cairo - porque leram os meus livros. E muitos ficaram por lá".

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Livros para férias


Se há assunto que vem à baila sempre que se fala de férias, é o do "livros para férias." Inquéritos a personalidades mais diversas (desde o jet-set até ao intelectual empedernido), referem sempre os livros que vão ler nas férias. Os nossos amigos e familiares têm a mesma mania. A verdade é que nunca percebi muito bem porque é que nas férias de Verão se deva - ou se consiga ler - mais do que nas restantes estações do ano. É uma falácia. Eu já tentei. E acabei quase sempre por trazer para casa os livros que queria ler e que não consegui (ou não me deu vontade) ler uma página. Ler na praia é uma actividade que raramente levo a bom porto. Os barulhos circundantes, o calor, o sol, os amigos e a família, acabam por me distrair. É mais interessante passear à beira-mar do que tentar ler duas páginas seguidas de um livro qualquer.
À partida será pela suposta disponibilidade e tempo para a leitura. Mas este facto não é válido para toda a gente. O culto do ócio e da preguiça (que ajuda a reflectir, dizia o escritor Albert Cossery) é uma premissa que deve presidir nas prioridades do tempo de férias. Logo, a leitura não se torna um recurso de primeira necessidade. Pelo menos para os que têm por hábito ler (com regularidade) o resto do ano (como eu).
Viajar, estar com os amigos e a família, passear até ao desconhecido, fazer desporto, beber copos até às tantas, olhar para o tecto sem fazer nada, ver todo o dia o canal História e Odisseia, ouvir música ininterruptamente, apanhar brisa do mar ao fim da tarde, visionar na íntegra as últimas séries do "Lost" são apenas algumas actividades que se podem fazer durante o (sempre curto) período de férias.
Para quê massacrar ainda mais o escasso e precioso tempo com leituras que se podem retomar no regresso à rotina habitual?

domingo, 4 de julho de 2010

Raymond Scott


Em Setembro próximo assinalam-se 102 anos do nascimento de Raymond Scott (1908 - 1994), um dos mestres musicais mais polivalentes do século XX. E quando me refiro a polivalente refiro-me ao facto de Scott ter sido, durante décadas (dos anos 50 aos 80): músico de jazz, orquestrador, inventor de instrumentos electrónicos (colaborou com Robert Moog), sonoplasta, engenheiro electrónico, pianista, percursor dos estúdios de música electrónica (nos anos 50!) e de música de computador (quando os computadores eram uma excentricidade cara que ocupavam o espaço de uma sala inteira).
Destacou-se, igualmente, como um inovador compositor de bandas sonoras para cartoons da Looney Tunes (Bugs Bunny, Daffy Duck...), juntamente com Carl Stalling e Spike Jones.
Em suma, Raymond Scott foi uma das figuras mais originais e influentes da música da segunda metade do século passado, um visionário possuidor de uma criatividade e engenho únicos. O seu génio fez-se (faz-se, ainda) sentir numa vastíssima legião de músicos, de bandas e de campos de criação musical muito diversificados: do rock ao jazz, da electrónica experimental à electro-acústica, da pop à vanguarda, do easy-listening à composição musical para cinema e audiovisual.
A música de Raymond Scott ajudou a desenvolver o imaginário de músicos tão diferentes como Hal Wilner, DJ Spooky, Henry Rollins ou David J, dos Bauhaus e Love and Rockets, que referem: "As for millions of other kids raised on Bugs and Daffy, Raymond Scott's wonderful idiosyncratic music seeped into my childhood subconscious and never left. It became the abstract soundtrack to my-dreams."
Há dois anos, no centenário do seu nascimento, o seu filho Stan Warnow (realizador) realizou um documentário sobre a vida e sobre o imenso legado de seu pai. Chama-se "Raymond Scott: On To Something" e vai trazer, com toda a certeza, mais visibilidade a um autor e a uma obra que merecem um reconhecimento mais alargado.

Óculos de massa pretos - 2

Na sequência deste post, eis a segunda ronda:
Peter Sellers (actor)

Tim Burton (realizador)

Sam Sparro (músico)

Mark Ronson (músico e produtor)

Kevin bacon (actor)

Katie Holmes (actriz)
Jay-Z (músico)
Damien Hirst (artista plástico)

Josh Weller (músico)

Alex de la Iglesia (realizador)
Robert Downey Jr. (actor)

sábado, 3 de julho de 2010

Pee-Wee de regresso


Talvez só os verdadeiros fãs do cinema de Tim Burton conheçam e apreciem a primeira longa-metragem do realizador - "A Grande Aventura de Pee-Wee" (1985).
Este filme foi também o início da fantástica colaboração com o compositor Danny Elfman. Esta obra, realizada pouco tempo do cineasta ter saído da Disney, conta a história de Pee-Wee Herman (interpretado pelo comediante Paul Reubens), um excêntrico homem que parece viver eternamente o mundo da infância, embarca na maior aventura de sua vida pelos EUA para encontrar a sua amada bicicleta, que fora roubada em plena luz do dia. "A Grande Aventura de Pee-Wee" é um maravilhoso e divertido filme de Tim Burton, repleto de um imaginário visual que Burton iria desenvolver no futuro.
Soube agora que este filme vai ter uma sequela intitulada "Pee-Wee's Playhouse: The Movie" (a estrear em 2011), realizada ainda não se sabe bem por quem; Tim Burton não é de certeza, e é pena...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O "Efeito Kuleshov"


Na linguagem cinematográfica a montagem é uma técnica absolutamente essencial para dar coerência estrutural ao filme. A interligação e relação entre planos num filme é determinante para o resultado estético do mesmo.
Depois do avanço dado em 1915 pelo percursor David Griffith com a montagem paralela ("Nascimento de Uma Nação"), seriam os russos a desenvolver a montagem de forma definitiva. Serguei Eisenstein, Dziga Vertov, Kuleshov ou Pudovkin foram cineastas que exploraram todas as dimensões expressivas e comunicacionais da montagem.
Kuleshov não ficou na história como um grande cineasta, pelo menos ao nível de um Eisenstein ou de um Vertov.
A experiência ou "Efeito Kuleshov" (na imagem) é que deixou marcas, sobretudo ao nível da teoria da montagem, quando no iníco dos anos 20 fez a seguinte experiência: montou um grande plano expressivo do rosto de um actor com outro mostrando um prato de sopa; de seguida montou o mesmo plano do rosto do actor com um outro mostrando um caixão de criança; montou ainda um terceiro conjunto com o mesmo plano da cara do actor e um outro de uma mulher seminua em pose provocante.
Projectou então o conjunto final perante uma audiência, sendo unânime a opinião de que o actor era um óptimo actor, dado que expressava de um modo magnífico os sentimentos de fome (plano do prato de sopa), dor (plano do caixão de criança) e de desejo (plano da mulher seminua). Kuleshov mostrou que o significado de uma sequência de planos pode depender apenas da relação subjectiva que cada espectador estabelece entre imagens ou planos que, isoladamente, não possuem qualquer significação.
Parece uma conclusão óbvia para o espectactor contemporâneo, mas naquele período histórico de sedimentação da linguagem cinematográfica, revelou ser uma experiência que outorgou princípios expressivos e estéticos à técnica da montagem.

Discos que mudam uma vida - 110


Gogol Bordello - "Gypsy Punks: Underdog World Strike" (2005)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Silêncio


Há um tema que raramente se discute, pensa, reflecte: o silêncio. É imperiosa a necessidade e a importância do silêncio numa sociedade onde o ruído e os sons nos rodeiam de forma omnipresente, e muitas vezes, de forma agressiva. Mas poucas vezes desfrutamos dele como seria desejável. O silêncio parece incomodar até nas relações humanas - como confessa John Travolta a Uma Thurman em "Pulp Fiction" sobre os "silêncios incómodos" num diálogo entre mulher e homem.
No mundo da música é inevitável falar da obra 4'33'' de John Cage, a tal peça "musical" que é apenas silêncio. A visão artística de Cage foi sintomática e visionária (nos anos 60) para dar a entender que o ruído aleatório e o seu contrário, o silêncio mais profundo, podem ser considerados música. Cage rompeu com as convenções estéticas da música contemporânea ao introduzir o elemento silêncio numa composição e abrir as portas à percepção sonora do nosso meio ambiente.
O silêncio no cinema também é fulcral: grandes cineastas como Antonioni, Bergman (deste realizador bastava citar o filme "O Silêncio") ou Tarkovski são autores que passaram quase uma vida artística a abordar o silêncio na vida contemporânea, de como ele interfere na comunicação humana, na percepção da religiosidade e da espiritualidade. E o que dizer do silêncio na poesia? No teatro? O silêncio é peça fundamental na expressividade de emoções e situações. Apesar de não ter palavras, o silêncio é pura comunicação. Sempre que vejo telas de Edward Hopper vislumbro o mais profundo silêncio.
Uma coisa é certa: sem a possibilidade de fruir o silêncio, a nossa vida fica insuportavelmente austera, enclausurada sob si própria, sem espaço para a reflexão, para a interioridade.
Como refere Aldous Huxley: "O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura".
Imagem do filme "Stalker" de Andrei Tarkovski