quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Acumular até rebentar


O que fazer quando a parede do escritório destinada a arquivar os CDs e DVDs atinge o limite da capacidade? Passar para outra parede? Não, porque as outras estão igualmente repletas até ao tecto. Hum, há sempre a alternativa de arquivar DVDs e livros em prateleiras improvisadas feitas de tijolo aplicadas pelos corredores da casa. Quando era miúdo e coleccionava cassetes áudio, a minha avó perguntava-me atónita: “mas para que queres mais cassetes? Não te servem as que tens?” De facto, agora as mil e tal cassetes áudio acumulam-se e apodrecem num canto da garagem. Snif…
Há sempre a possibilidade de doação a uma instituição de beneficência, mas não sei se este tipo de instituição acharia piada aos meus gostos musicais e cinéfilos. A solução passa por acumular, atafulhar até que a coisa rebente por algum lado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Discos que mudam uma vida - 7


The Jesus and Mary Chain - "Psychocandy" (1985)

Depp, Johnny Depp


Johnny Depp venceu ontem o Globo de Ouro para a categoria de Melhor Actor em Musical ou Comédia pelo (muito ansiado) filme "Sweeney Todd" de Tim Burton, a estrear no final de Janeiro em Portugal. Ao que consta, esta última colaboração entre Burton e Depp resultou, uma vez mais, num extraordinário trabalho artístico. Depp é um actor que tem conseguido transfigurar-se e revelar todo o seu talento versátil de filme para filme, seja em blockbusters como "Pirata das Caraíbas" ou em filmes mais independentes como em "Dead Man" de Jim Jarmusch. Mas Johnny Depp será sempre recordado pelos cinéfilos por duas inesquecíveis interpretações (que não podiam estar mais opostas): "Eduardo Mãos de Tesoura" (1990) e "Ed Wood" (1994), ambos realizados, claro está, por Tim Burton. No primeiro filme, Depp encarna uma das personagens mais memoráveis dos últimos 20 anos, o homem a quem lhe faltam as mãos, substituídas por tesouras após a morte repentina do seu criador. Em "Ed Wood" - foto do post - (filme estranhamente ainda sem edição DVD nacional), Johnny Depp interpreta aquele que é considerado o pior e mais excêntrico realizador da história do cinema, que nos anos 50 concebeu alguns dos mais inenarráveis filmes de sempre (com Bela Lugosi), mas que à custa de tão maus, resultam ser... bons ("Plan 9 From Outer Space" de 1959 é o ícone do "trash movie"). Brilhantemente filmado a preto e branco, Burton humaniza - com todos os defeitos e virtudes inerentes à figura - o cineasta que se tornou de culto, numa interpretação enérgica e segura de Depp. Quais os futuros caminhos para Depp?

Kubrick de olhos bem abertos

O último filme de Stanley Kubrick dividiu opiniões. É um filme complexo sobre os meandros da obsessão, do desejo sexual, da traição, da confiança. É um filme freudiano, com múltiplas leituras, ao mesmo tempo tenebroso e belo. Que o filme seja interpretado por um casal real, Cruise e Kidman (em 1999) é a prova da suprema ironia do realizador. É quase como que um filme "neo-realista", no sentido em que aquelas personagens são também seres humanos com vínculos emocionais reais, concretos. Esteticamente esplendoroso (como qualquer outro Kubrick), "De Olhos Bem Fechados" é uma obra de arte rigorosíssima e que denuncia a tremenda fragilidade das relações humanas. Fragilidades que podem desembocar no abismo mais penoso. Todo o filme é uma ferida aberta, em ebulição emocional, uma luta entre a pulsão da vida (Eros) e a pulsão da morte (Thanatos). Para a memória cinéfila Kubrick deixou-nos uma das suas melhores sequências filmadas em toda a sua carreira. Uma cena assombrosa em todo o seu formalismo plástico e que resume a genialidade de todo o filme: a sequência quando Bill assiste ao ritual no sumptuoso castelo. A música aterradora mas bela (faz lembrar Dead Can Dance), a câmara em travelling deslizante, os cenários surreais, o enigma das máscaras, os corpos femininos, as roupas insinuantes... Desconcertante e perturbador, como só Kubrick sabia fazer. Apenas "Shining" me deu estas sensações de puro desconforto emocional.

Podia ser Optimus mas é Pessimus


Já aqui tinha falado do que pode ser uma boa ideia em publicidade sem gastar dinheiro nem recorrer a grandes meios de produção. Não tenho nada contra a marca Optimus. Acontece que o último spot publicitário desta operadora de telecomunicações móveis (“de que é que precisas?”) me causa urticária. Não é só pelo facto de invadir massivamente o espectro visual do espectador em todo o lado: é na publicidade televisiva, que passa duas e três vezes no meio do noticiário; é nos banners de sites e jornais online; é na imprensa com páginas inteiras com aquelas bolas gelatinosas cor de laranja. Este é um claro exemplo de como os criativos publicitários se deslumbram com os meios financeiros ao dispor, explorando os efeitos especiais até á exaustão para esconder a ausência de ideias realmente criativas e fortes. Repare-se: o spot é todo ele convencional e previsível e já explorado até ao tutano noutras ocasiões e por outras marcas: caras jovens e bonitas em pretensa felicidade eterna (é saturante que a publicidade só use modelos profissionais e não “gente vulgar”), uma banda a tocar num concerto e o público aos saltos em delírio, e o recurso visual daquela espécie de gelatina bamboleante cor de laranja a passar de mão em mão. Por fim, a música. Uma canção pop alegrezinha para bater o pé de uns tais Shout Out Louds – imitação barata e descarada do tema “Friday I’m in Love” dos The Cure. É tudo irritante, redundante, falsamente grandiloquente, embrulhado em estética videoclip mais do que ultrapassada e previsível. Grandes meios de produção, muito dinheiro, mas conteúdo zero.

Jazz vibe radiofónico


Coisa rara. Numa rádio esclerosada pela obsessão das audiências e pela ditadura da playlist comercial, sabe bem, muito bem, ouvir jazz. Aconteceu-me ontem. Ia de carro a ouvir a Antena 2 quando de repente entra no ar o eterno José Duarte (na foto) com o programa "Jazz com Brancas" (todos os dias às 20h) a tocar o fantástico Sonny Rollins. O veterano divulgador de jazz em portugal é incansável na sua paixão pelo jazz. E os seus programas (com o incontornável e histórico "5 minutos de jazz") representam verdadeiro serviço público de rádio. Longa vida ao "Jazzé".

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Onedotzero - aventura na imagem animada


O mundo da criação audiovisual digital contemporânea é um mundo inesgotável de criatividade e de imaginação. A linguagem do cinema transmuta-se em estilhaços estéticos e formais impossíveis há apenas 10 anos atrás. A tecnologia digital impõe novas formas de olhar a imagem, promove a inovação radical, a fusão de linguagens e a mutação de expressões artísticas – sobretudo centradas na música e na animação computorizada. Há muitos festivais dedicados à exploração e divulgação do cinema digital, mas aquele que tem sido o mais reconhecido internacionalmente é o Onedotzero (em Inglaterra). Onedotzero é um misto de festival, de conceito artístico e de editora (já lançou 5 DVD com a melhor produção audiovisual dos últimos anos). De resto, o lema do festival é mesmo "Adventures in Moving Image". Nos 5 DVD (tenho dois) podemos conhecer algumas da melhor produção audiovisual e digital do mundo inteiro, a vanguarda da vanguarda estética, seja em formato do videoclip, seja em curta-metragem de animação 3D, seja num misto de tudo e mais alguma coisa. O certo é que o futuro da criação digital passa por aqui. Espreitemos uma fascinante amostra do que de melhor tem para oferecer o 5º DVD lançado pela onedotzero (reunida em 3 singelos minutos):

Livros que mudam uma vida - 2


Jack Kerouac - "Pela Estrada Fora" ("On the Road")

Almodóvar - de drag queen a cineasta


Nada como um artista ser honesto e frontal. O último número da revista Sábado traz uma entrevista com o realizador espanhol mais famoso e consagrado desde Luís Buñuel: Pedro Almodóvar. Na entrevista, o autor de "Volver" diz que Hollywood lhe ofereceu a realização do filme "Brokeback Moutnain", mas que recusou porque achava que ia perder a liberdade criativa. Ao fazer uma retrospectiva da sua vida e carreira, Almodóvar refere que trabalhou numa companhia de telefones, foi cantor rock e drag queen, ao mesmo tempo que fazia filmes experimentais ao fim-de-semana. Nunca estudou em escolas cinema porque a família não tinha dinheiro, por isso aprendeu o ofício de realizador sozinho, à custa da experiência acumulada e com o esforço pessoal. Algo que já se sabia: prefere retratar o universo feminino e os seus últimos filmes - "Tudo Sobre a Minha Mãe", "Fala com Ela", "Má Educação" e "Volver" são filmes que abordam a morte e o sentimento de perda (consequência da morte do cineasta em 1999). Prepara um novo filme intitulado "Los Abrazos Rotos", uma história dilacerante sobre um amor louco e contará, de novo, com a sua musa do momento, a actriz Penélope Cruz. Por fim, Almodóvar diz que é uma espécie de "padroeiro dos freaks". Melhor epíteto era impossível.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Hollywood ou Bollywood?



Já seria de prever. Uma vida tão atribulada (em termos políticos e humanos) como a da paquistanesa Benazir Bhutto, só podia dar em filme. Acontece que há duas indústrias cinematográficas interessadas em adquirir os direitos para levar à grande tela a vida da ex-presidente do Paquistão: Hollywood e... Bollywood. A primeira indústria é mundialmente conhecida e detém o monopólio global da criação, produção e distribuição de filmes. Bollywood, por seu lado, é a indústria do cinema indiano, capaz de gerar mais de 500 filmes por ano de série B (ou Z) - dramalhões folclóricos feitos a metro. Resta saber quem vai levar o troféu para o cinema: se um Oliver Stone da bem oleada e profissional Hollywood, se um qualquer realizador do cinema "pobre indiano". No que se refere à figura de Benazir Bhutto, é caso para dizer: "a minha vida dava um filme indiano".

DVD em saldo


Até ao dia 29 de Fevereiro, o site espanhol dvdgo.com promove um suculento programa de saldos de filmes em DVD. A diversidade e quantidade da oferta e a excelente qualidade do serviço de venda, são motivos mais do que suficientes para adquirir aqueles filmes para a nossa colecção que em Portugal são uma miragem.

Gus Van Sant metafísico

Ama-se ou odeia-se. Gus Van Sant não faz as coisas por meias medidas. Como ainda não vi "Paranoid Park", desforro-me a rever o belo e perturbante "Gerry", talvez o filme menos comercial da sua carreira, mas um dos mais fascinantes. Uma experiência visual sublime, servida por dois actores do mainstream de Hollywood (Matt Damon e Casey Affleck) que aceitaram empreender esta bizarra aventura cinematográfica. A influência notória para este filme foi Gus Van Sant buscá-la ao húngaro Béla Tarr, um austero e metafísico (na esteira de Tarkovski) realizador. A música mística e celestial de Arvo Pärt reitera o ambiente de profunda espiritualidade do filme, e Van Sant filma os dois corpos à deriva no deserto como se não houvesse amanhã. Avassalador.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Jerry Lewis - génio esquecido


Tem quase 82 anos de vida. Quando morrer, há-de ser alvo dos previsíveis elogios fúnebres. É sempre assim: na hora da morte é que os media se lembram e incensam determinados artistas (os unanimemente consagrados e os que estão à margem do sistema). Falo de Jerry Lewis, um notável actor e realizador que singrou no sempre exigente e difícil mundo da comédia de Hollywood. Não é exagerado considerar que estamos perante um autor claramente subvalorizado e esquecido, comparativamente a um Mel Brooks, Peter Sellers ou a um Jacques Tati (todos da mesma geração). Por outro lado, Jerry Lewis sempre teve maior reconhecimento por parte do público do que da crítica.
Juntamente com Dean Martin (nos anos 50), formou um duo de actores de sucesso popular. Após a dissolução do duo (por divergências artísticas e luta de egos), Jerry deu vazão a todo o seu talento na década de 60 com filmes onde derramou todo o seu talento e criatividade ("O Professor Chanfrado" é talvez o mais conhecido, mas há também "O Mandarete", "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" e "Jerry 8 3/4"). Desenvolveu uma linguagem humorística própria, marca clara de um autor que deixou herança artística (Jim Carrey é apenas um dos actores que reclama a influência de Jerry). Nos anos 70 deixou o cinema quase de lado para se dedicar à televisão (com igual sucesso público). em 1983, Martin Scorsese convida Jerry Lewis para interpretar um raro (mas pungente) papel dramático no excelente filme "O Rei da Comédia", com Robert De Niro - um filme invulgar sobre o lado negro e oculto do exercício do humor. Das últimas aparições de Jerry no cinema, conta-se o filme "Arizona Dream" (1993) de Emir Kusturica, no qual o comediante contracena com Johnny Depp e Faye Dunaway.
Em Portugal podemos encontrar uma caixa de DVD com 5 filmes. E na seguinte sequência, podemos constatar os incríveis recursos humorísticos de Jerry num genial momento de comédia visual, no qual o actor toca uma "máquina de escrever musical" (no filme "Who's Minding the Store"):

Pacheco - delírios e hipocrisias


Ainda a propósito da morte de Luiz Pacheco. Não deixa de ser profundamente irónico (e parece-me até: cínico) que a Assembleia da República tenha decretado um minuto de silêncio pelo desaparecimento do escritor. Parece que o Estado quer institucionalizar o Pacheco. Coisa mais absurda e hipócrita nunca se viu. O mesmo Estado que nunca manifestou a mínima preocupação por Pacheco. A haver vida noutro mundo, o autor de "Comunidade" deve estar a rir-se estupidamente desta pretensa honra oficial (uma certa imprensa afina pelo mesmo diapasão: como o Pacheco era um personagem marginal e dizia palavrões, há que lhe dar destaque pelo lado exótico da coisa). É desconcertante que um autor que foi tão provocador, escandaloso, irreverente, insubmisso, anti-clerical e detentor de uma costela anárquica, seja agora alvo de homenagens formais. Pensarão os engravatados da AR (os quais, aposto, ou não gostavam ou não conheciam o Pacheco) que é desta forma pasteurizada que se fazem homenagens a figuras tão marginais e fora do sistema? A hipocrisia política é bem capaz de mandar erigir uma estátua no Marquês de Pombal em "memória do célebre e magnânime homem das letras Luiz Pacheco"?

Livros que mudam uma vida - 1


Hermann Hesse - "Siddharta"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Garrett Brown - o homem da câmara de filmar


O que mostra esta imagem? De forma distinta, podemos identificar o realizador Stanley Kubrick. E o outro homem que tem uma câmara pendurada na cintura? É simplesmente um dos operadores de câmara mais famosos e importantes de sempre: Garrett Brown, de seu nome. É famoso e importante por dois motivos (entre outros): inventou a Steadycam e foi o grande responsável pela revolução na arte de filmar no filme "The Shining" (1980) de Kubrick (é a esse filme que se reporta a imagem acima). Já tinha havido anteriores experiências com a Steadycam, mas foi com o filme de Kubrick que a técnica de filmar com este tipo de câmara se desenvolveu e se impôs no mundo do cinema. Basicamente, a Steadycam é um tipo de câmara que possui um sistema que se acopla ao próprio corpo (geralmente à cintura e de forma segura ou noutro sistema fixo) do operador de câmara, permitindo captar imagens em movimento e muito próximo da acção. O resultado são sequências de grande efeito visual e estético, como são estas imagens inesquecíveis de Danny a percorrer o Hotel Overlook no triciclo - repare-se como a câmara segue o jovem actor como se estivesse à altura do chão e em movimento contínuo:



Garrett Brown continua a trabalhar no cinema. O seu legado e o seu contributo para o cinema são inestimáveis.

Casal irredutível


Formavam um casal irredutível, de força intelectual, de energia combativa. Foram dois vultos inquestionáveis da vida cultural francesa do século passado. Jean-Paul Sartre foi o arauto do existencialismo filosófico, um ensaísta reputado e controverso. Simone de Beauvoir foi uma feminista e escritora de grande acutilância, autora de um dos mais destacados livros sobre a posição da mulher na sociedade – “O Segundo Sexo” (1949). Teve uma costela heróica, ao fazer parte da Resistência Francesa, durante a ocupação Nazi da França. Morreram com seis anos de diferença: primeiro Sartre (1980), depois Simone (1986). Ambos descansam no mesmo cemitério, no mesmo túmulo. Este mês de Janeiro comemoram-se os 100 anos do nascimento da companheira de vida de Sartre (nasceu dia 9 de Janeiro de 1908). Oportunidade para relembrar uma mulher combativa e inspiradora.

Sobre o ruído lá de casa

Qual seria o cruzamento entre o post “Animusic” e “A Arte dos ruídos”? Qual seria o resultado? Provavelmente, algo de muito próximo a este pequeno (e multipremiado) filme intitulado “Music For One Apartment and Six Drummers”. É só isto: um apartamento e seis percussionistas. E é já muito. Um extraordinário exemplo de como os ruídos e sons mais insignificantes do dia-a-dia das nossas casas podem ser constituídos música. Desde que haja imaginação. Outra coisa: afinal os Stomp não são assim tão originais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A arte dos ruídos


Silêncio. Silêncio. Silêncio. Ruído. Ruído. Ruído. Na actual sociedade prevalece o ruído, já o sabemos. Não há praticamente lugar nenhum no qual consigamos sentir o silêncio. Ruído, música, sons da natureza e do meio ambiente, perfazem o registo auditivo do nosso quotidiano. E quem foi o primeiro a reconhecer que o ruído era um determinante elemento da sociedade do século XX? Um italiano, futurista e contemporâneo de Marinetti, escritor e poeta, principal impulsionador do Futurismo. Chamava-se Luigi Russolo e lançou as bases, pasme-se! em 1913, para a música industrial (aquela que recorre ao ruído na sua estrutura musical). Essas bases teóricas estão compiladas num manifesto (em livro, edição espanhola) chamado "El Arte de los Ruidos" ("A Arte dos Ruídos"). Neste manifesto, Russolo refere que até ao Século XIX e ao advento da Sociedade Industrial, o ruído não fazia parte da sociedade. A partir do início do Século XX, o ruído começou a ser parte integrante do quotidiano, com as fábricas, os meios de transportes e outras diversas máquinas. Então, o pintor e compositor italiano achava que se deveria incluir esses ruídos e sons (tidos como não-musicais) na linguagem musical convencional. Que era o mesmo que dizer, romper com as próprias convenções. Para tal, Russolo inventou um conjunto de máquinas e instrumentos de fazer ruído, a que deu o nome de Intonarumori (ver imagem). Em 1914, no primeiro concerto de 18 destes instrumentos, provocou um enorme escândalo em Milão.
Durante o resto do século XX, muito se teorizou sobre a importância do ruído na música, na arte e na vida (vide John Cage).

Animusic - música animada

A Animusic é uma empresa americana especializada em animação 3D digital e criação de música MIDI. Até aqui nada de novo, uma vez que há centenas de empresas do ramo a trabalhar nesta área de investigação/criação. O que torna a Animusic única é o resultado do seu trabalho: criações visuais e musicais surpreendentes, de grande refinamento estético e nas quais a música desempenha (ao contrário do habitual) o papel principal. Ou seja, as animações digitais da Animusic exigem um elaboradíssimo e moroso trabalho de criação, pré-produção e produção, de forma a que o resultado seja desafiante para os sentidos. O imaginário criado, os ambientes virtuais, os instrumentos bizarros que produzem sons, os músicos robotizados e a sincronia perfeita entre música e imagens, torna os trabalhos da Animusic únicos no panorama audiovisual contemporâneo. Esta empresa editou até à data dois DVD contendo compilações dos melhores momentos (eu tenho o primeiro, lançado em 2004).
Veja-se este exemplo de criatividade:


Há mais exemplos, basta ir ao youtube.

Discos que mudam uma vida - 11


The Young Gods - "Play Kurt Weill" (1990)

Os cineastas da subversão


A propósito do post sobre a Ubuweb (ver mais abaixo) no qual destaco a secção de cinema da transgressão, sugiro, como forma de complemento de leitura, o excelente livro "Film as a Subversive Art" de Amos Vogel. Um notável documento sobre todas as correntes experimentais, de vanguarda e subversivas da História do Cinema (são mais de 300 filmes recenseados, desde o período mudo até aos anos 80). O autor do livro, ensaísta e também realizador de filmes experimentais, aborda o cinema como forma de arte interventiva na sociedade, o cinema como expressão de rebelião ideológica, de estéticas libertárias e de exploração formal. Os filmes e cineastas mais ousados, extremos e alternativos estão compilados neste livro (Maya Deren, Kenneth Anger, Jonas Mekas, Stan Brakhage, Jean Genet, Pasolini, etc), devidamente explicados, ilustrados com fotografias e enquadrados historicamente. Pode ser encomendado aqui.

A raiz de todo o mal


"Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a ideia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta ideia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante. "
Soren Kierkegaard - Filósofo

O cinema educa


Uma personagem do filme "Grand Canyon" (Lawrence Kasdan, 1991) diz a outra: "deverias ir mais ao cinema. Os filmes têm resposta para todos os enigmas da vida". De facto, assim é. Assim como a literatura. O cinema deveria ser encarado pelo sistema de ensino como um meio de ensino válido e consistente e não como mero entretenimento para ocupar, de tempos a tempos, os alunos quando estes não têm nada que fazer (e com filmes medíocres). É preciso ensinar as crianças, desde cedo, que o cinema é uma forma de arte que tem valor por si mesma. É preciso implementar estratégias educativas para formar o gosto pela imagem, a capacidade de saber olhar, de saber discutir uma imagem, de saber interpretar a mensagem de um filme. Para além do objectivo de sensibilizar para a cultura audiovisual que o cinema representa, para o veículo formativo que significa e para a sua inerente vertente educativa, o cinema é também responsável por conciliar o aspecto didáctico e lúdico com o carácter curricular das diversas disciplinas. No Teatro Municipal da Guarda desenvolveu-se um projecto intitulado "Aprender com Filmes", que tinha como objectivos:
- Sensibilizar para a importância do cinema como recurso pedagógico e como uma mais valia na formação cultural de cada aluno.
- Articular conteúdos programáticos com os filmes que abordam os mesmos conteúdos, numa abordagem transdisciplinar do cinema e com vista à criação de novos públicos.
- Desenvolver o espírito crítico, a capacidade de análise e o estímulo à discussão/debate de ideias dos alunos (à volta das questões do cinema e da cultura audiovisual).
- Complementar o ensino com a formação cinematográfica dentro do contexto escolar, numa perspectiva dinâmica para a formação cultural global do aluno.
- Contribuir para a educação artística e estética das crianças e jovens.
Exemplo de filmes:

Título do Filme: “MAR ADENTRO”
Realização:
Alejandro Aménabar (2004)
Sinopse: Ramón Sampedro é tetraplégico há 28 anos e quer morrer por livre vontade, mas a justiça não o permite. A sua única janela para o mundo é o seu quarto de onde olha o mar que lhe tirou a juventude. Desde essa altura que a sua única vontade é morrer dignamente e vai lutar por esse ideal até ao fim das suas forças e convicções.
Comentário: “Mar Adentro” coloca inúmeras questões essenciais sobre a vida humana, os valores, a religião, a morte e a ética. O que é a vida e em que condições deve ser vivida dignamente? Este filme comovente abre portas de entendimento para estas e outras questões.
Conteúdos Temáticos do Filme: Cidadania; ética; valores humanos;
Destinatários privilegiados: alunos do 3º Ciclo; Secundário e Superior

Título do Filme: “A GUERRA DO FOGO”
Realização: Jean-Jacques Annaud (1981)
Sinopse: O filme trata de dois grupos de hominídios pré-históricos: um que cultivava o fogo como algo sobrenatural e outro que dominava a tecnologia de fazer o fogo. Os dois grupos guerreiam entre si na conquista do fogo e na luta pela sobrevivência num mundo ainda desconhecido e perigoso.
Comentário: Filme fascinante sobre a vida do homem pré-histórico, a sua luta diária pela sobrevivência e sobre a origem da linguagem. De grande rigor histórico e científico, “A Guerra do Fogo” é também um emocionante relato sobre o domínio do fogo e das suas aplicações na actividade humana.
Conteúdos Temáticos do Filme: Pré-História; evolução do Homem; domínio do Fogo;
Destinatários privilegiados: alunos do 3º Ciclo; Secundário e Superior.

Título do Filme: “POLLOCK”
Realização: Ed Harries (2000)
Sinopse: Jackson Pollock é um pintor com problemas recorrentes de depressão e de álcool. A pouco e pouco revela toda a sua criatividade e energia, na arte, como na vida…
Comentário: A vida de um dos mais revolucionários pintores americanos contemporâneos, criador da técnica da “Action Painting”. A pintura expressionista abstracta de Pollock e a sua vida pessoal tempestuosa fazem deste filme uma lição de vida e de coragem. Vencedor do Óscar para melhor Actriz Secundária.
Conteúdos Temáticos do Filme: Artes plásticas; pintura; arte contemporânea.
Destinatários privilegiados: alunos do 3º Ciclo; Secundário e Superior. Alunos de artes.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tundraquê?

Através do myspace, espaço virtual cuja conectividade global permite muitas surpresas, descobri este trio Tundramitks. São finlandeses e praticam uma inebriante fusão entre folk escandinavo e atitude punk, na esteira de uns Gogol Bordello ou Alamaailman Vasarat. Vale muito a pena escutar (e ver!) o videoclip "Mantra":

O CD ainda (sobre)vive


A indústria discográfica, afinal, ainda não morreu - Radiohead.

A vanguarda mesmo aqui



Este site é um poço sem fundo. De qualidade e de descoberta. A UbuWeb (ou simplesmente Ubu) foi fundada em Novembro de 1996, inicialmente como um depósito de poesia visual e concreta e, mais tarde, também sonora. Com o passar do tempo, este site foi abarcando todas as formas de manifestações artísticas de vanguarda – do cinema à música, da performance às artes visuais. Aqui podemos encontrar obras de grandes criadores do Século XX; ver filmes, ouvir músicas, ler textos e poesia das correntes mais experimentais e conceptuais. Podemos ver filmes pouco conhecidos de artistas consagrados como Samuel Beckett (na foto), Peter Greenaway, David Byrne, Jean Cocteau, Salvador Dali, Jean Genet, Jonas Mekas, Meredith Monk, Dziga Vertov entre dezenas de outros. De igual modo, podemos descarregar músicas e poesias sonoras de John Cage, Glenn Branca, Hugo Ball, Derek Bailey, Roland Barthes, grupo Fluxus, etc. Um impressionante manancial de informação rigorosa sobre as principais expressões artísticas de vanguarda do último Século e da contemporaneidade. A descobrir obsessivamente. Aceder aqui. Particularmente interessante é a secção sobre cinema da transgressão.

O papel do argumentista


A gala de entrega dos Globos de Ouro (que antecipam os Óscares de Hollywood) foi cancelada devido à greve dos argumentistas (reclamam o pagamento de direitos de autor pela escrita de guiões). A própria cerimónia dos Óscares, marcada para o último Domingo de Fevereiro, está também em causa por causa do mesmo problema. É um acontecimento que, não sendo inédito, é-o na dimensão e repercussões causadas. Apesar de muito pouca gente valorizar o papel dos argumentistas, estes detêm grande parte da responsabilidade pelo sucesso ou insucesso de uma série de televisão ou de um filme. Costuma-se mesmo dizer que quando uma "sitcom" tem êxito, os responsáveis são os actores; quando não tem, os responsáveis são os argumentistas.
Seja como for, não me ocorre filme mais propício sobre este assunto do que o magnífico "Barton Fink" (1991) de Joel e Ethan Coen: é a história de um argumentista que, tendo sucesso no teatro da Broadway, é contratado para trabalhar em Hollywood escrevendo argumentos para filmes de guerra série B. John Turturro, no papel de Barton Fink, é magistral na forma como encarna o papel de um argumentista perturbado por diversos acontecimentos surreais - não faz greve, mas tem uma inquietante crise de inspiração criativa.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Stelarc - o artista mutante


Stelarc é um dos mais destacados artistas cibernéticos, de performance electrónica e de body-art (a par do brasileiro Eduardo Kac, o primeiro homem a quem foi implantado um microship no calcanhar no projecto "Cápsula do Tempo"). Para além de artista, é actualmente pesquisador titular do Performance Arts Digital Research Unit da The Nottingham Trent University, em Nottingham. O australiano tem vindo a trabalhar nos últimos 20 anos na junção entre corpo e tecnologia, com próteses robóticas e sistemas electrónicos diversos. As suas primeiras experiências aconteceram em 1968, quando construiu os primeiros ambientes de imersão virtual da história da arte: uns cubículos chamados "Compartimentos Sensoriais" nos quais o espectador entrava e, usando um capacete com lentes especiais que dividiam o espaço num labirinto de imagens sobrepostas, era atacado por luzes, movimentos e sons. Em 1970 desenvolve o projecto "Corpo Amplificado", no qual filma o seu esófago e dois metros do seu intestino para entender o funcionamento do seu corpo. A ideia central de Stelarc vai ao encontro da superação dos limites físicos da natureza humana (uma ideia defendida pelo Transhumanismo). Não se preocupa apenas pela dimensão puramente estética ou tecnológica do seu trabalho. O artista coloca questões pertinentes a nível filosófico e científico e defende a mutação física sintética para alcançar um grau de superioridade humana. Aliás, o criador considera o corpo humano obsoleto, e defende a sua mutação tecnológica e sintética.
A última inovação de Stelarc é desconcertante: implantou uma terceira orelha no seu braço. A orelha foi criada através dos processos mais modernos de tecido humano cultivado em laboratório, e posteriormente implantado, de forma subcutânea, no braço de Sterlac. Ver aqui o processo de implantação da orelha no braço. Mas não se fica por aqui: vai continuar a fazer cirurgias, de forma a que a orelha implantada no braço pareça ainda mais realista e com melhor definição estética. O conceito final de Stelarc é o de implantar um microfone ligado a um transmissor bluetooth de modo a que a orelha do braço de Sterlac transmita o que o braço dele ouve para qualquer um que queira ouvir isso na internet. Isto é arte? Claro que sim. É um trabalho conceptual e criativo consistente - ainda que lide com o próprio corpo humano e que possa chocar mentalidades mais susceptíveis.
Stelarc tem duas filhas, uma das quais, Astra Stelarc, tem vindo a dar continuidade ao trabalho do pai. Filha de peixe...

Tati - o cinema geométrico

No post abaixo menciono a possibilidade de comprar, a preço em conta, o pack de 4 filmes de Jacques Tati. Mas quem foi este realizador? Jacques Tati é simplesmente um dos mais sólidos e originais exemplos de criatividade e comicidade visual de toda a História do Cinema, conjuntamente com os clássicos Buster Keaton e Charlie Chaplin (e todos sabemos quão difícil é a arte da comédia). Perfeccionista absoluto, realizou apenas 6 longas-metragens em mais de 30 anos de carreira, facto que se deve à longa e minuciosa preparação que o actor e realizador dedicava a cada filme (eram-lhe necessários vários anos para imaginar, realizar e montar um filme). É um cineasta com raro sentido crítico de observação, dos gags, da atmosfera, dos tiques da classe média, da poesia das pequenas coisas. Um retratista idóneo e sensível do quotidiano.
A sua visão é a de um artista preocupado com a supressão da personalidade em favor de um mundo cada vez mais mecanizado e tecnológico. Daí que a personagem central do cinema de Tati – o
Sr. Hulot – seja tão desajeitado e inadaptado face às inovações tecnológicas do mundo moderno. (patentes em "O Meu Tio" e "Playtime"). Tati entende a comédia como uma ferramenta artística que vai para além do mero entretenimento; para o realizador francês, o cinema é uma ferramenta delatora dos vícios e defeitos da sociedade moderna. Detentor de um humor sui generis, subtil, rebuscado, por vezes intelectual, Tati soube expressar como ninguém e satirizar os preceitos da vida moderna (como Chaplin o fizera antes em “Tempos Modernos”).
Os seus filmes ilustram brilhantemente a arte de dominar o humor: gags visuais e sonoros de extrema subtileza e de uma incisão milimétrica, domínio perfeito da pantomima, recusa de diálogos (a arte de Tati remete para o cinema cómico mudo), e sobretudo, utilização criativa do som (efeitos sonoros, ruídos) e da música como recursos cómicos e estéticos cruciais no produto final do seu trabalho. Cioso de cuidar dos mais ínfimos detalhes com estremada minuciosidade - como se cada cena fosse geometricamente construída e arquitectada - Tati conseguiu alcançar prestígio e reconhecimento (para o realizador François Truffaut ,Tati era um ídolo), apesar da sua parca filmografia, muito espaçada no tempo. O seu humor inteligente e original, baseado sempre na surpresa, teve alguns imitadores mas ninguém conseguiu igualar o seu inesgotável génio. Tati é um autor com uma escrita própria e personalizada, inigualável e o seu estilo visual coreografado e estilizado, complexo e obsessivo, revela um artista exigente, original e compenetrado.

Trailer de "O Meu Tio" (vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1958):


Tati a preço de saldo


A isto se chama uma verdadeira promoção. Não estamos agora a viver o período dos saldos? O pack de DVD (Atalanta Filmes) do realizador francês Jacques Tati, que contém 4 longas-metragens (“O Meu Tio”, “Playtime”, “As Férias do Sr. Hulot” e “Há Festa na Aldeia”), custava há algum tempo para cima de 50 Euros. Agora custa, na Fnac, uns simpáticos 22€. Para além das longas, o pack traz ainda extras de grande interesse e qualidade, como as primeiras curtas-metragens da obra de Tati e documentários sobre o seu trabalho. Para quem ainda não tem estes filmes ou não conhece a filmografia de Tati, é uma oportunidade de ouro para adquirir 4 filmes que são verdadeiras peças de relojoaria na arte da comédia do genial realizador francês, um dos maiores artífices do cinema da segunda metade do século XX.

Discos que mudam uma vida - 6


"Young Marble Giants - "Colossal Youth" (1980)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Berlim, Cave, a bailarina e os anjos

Wim Wenders realizou o filme de uma geração. E há poucos realizadores, há poucos filmes que podem reclamar esse epíteto. O filme chama-se "As Asas do Desejo" (1987) e marcou toda a geração dos anos 80. Não conheço ninguém da minha geração que, depois de ter visto o filme na altura da estreia, não tivesse ficado marcado para sempre. É um filme sobre anjos. Sobre o amor de um anjo pelas coisas terranas, por uma bailarina (angelical, diria). É um filme sobre Berlim, uma Berlim lúgubre e decadente, poiso de artistas da vanguarda, cenário imagético. De criatividade febril. E é uma Berlim a duas cores, como Wenders conseguiu tão bem retratar: o preto e branco do olhar dos anjos, e a cor da vida terrena. (ou seria o contrário?). "As Asas do Desejo" é uma alegoria fantasista sobre os desejos do homem, sobre a natureza da eterna insatisfação humana. Nesta sequência, antológica, os anjos assistem a um concerto de Nick Cave & The Bad Seeds. Um concerto em que Cave canta uma das suas melhores canções de sempre: "From Her to Eternity" (variação do título de um grande filme: "From Here to Eternity", de Fred Zinnemann, de 1953). O anjo assiste, impávido mas prazenteiro, ao decorrer da acção: a bailarina, de vermelho, frui o espectáculo que Cave dá no palco (animalidade ainda remanescente da época dos Birthday Party). É uma das melhores sequências de concerto ao vivo jamais filmadas para cinema (e já estou a considerar o "Control" sobre os Joy Division). É poesia pura, visual e sonora. Em estado visceral e intenso. Inesquecível.

Transhumanismo - brincar a Deus


O Transhumanismo, é uma doutrina filosófica e científica cuja base se cimenta nas tecnologias mais sofisticadas aplicadas a vários ramos do saber, da genética à física, da biotecnologia à filosofia, da cibernética à robótica, da antropologia à medicina ou à neurociência. O objectivo do Transhumanismo é melhorar e desenvolver a espécie humana (em termos mentais e físicos) através de todos os meios possíveis, nomeadamente através de uma utilização racional das tecnologias mais avançadas que existem. Contrariar o envelhecimento e aumentar a longevidade, erradicar as doenças degenerativas e mortais, incrementar a inteligência e as capacidades mentais, são algumas das prioridades do Transhumanismo. Ficção científica? Delírios científicos sem exequibilidade real? Nem por sombras. Um dos suportes tecnológicos para o desenvolvimento dos ideais Transhumanistas tem a ver com o aumento na velocidade dos (super)computadores laboratoriais, facto que tornará ainda mais poderosa a fascinante nanotecnologia, isto é, a manipulação atómica da matéria a nível microscópico (molecular, manipulando átomo a átomo). Cada célula humana possui centenas de enzimas: máquinas microscópicas capazes de executar a enorme variedade de reacções químicas necessárias à vida. A ideia da nanotecnologia é construir máquinas (ships microscópicos) do tamanho de apenas alguns átomos capazes de executar funções previamente definidas. Por exemplo, um conjunto de nanomáquinas, chamado nanorobot, que execute determinadas tarefas pré-concebidas na resolução de determinados problemas, debelando doenças degenerativas. Este cenário já tinha sido antecipado pelo conto premonitório do escritor de Ficção Científica Isaac Asimov, cuja adaptação ao cinema resultou no interessante filme (imagem deste post) “Viagem Fantástica” de Richard Fleischer (1966). Neste filme (vencedor de dois Óscares), um grupo de neurocientistas é miniaturizado - chegando ao tamanho de uma molécula de glicose - e enviado, a bordo de uma nave, ao cérebro de um paciente em coma para o operar, percorrendo para isso a sua corrente sanguínea e todos os perigos inerentes. Hoje em dia, com a nanotecnologia, já é possível à realidade imitar a ficção (mas não ainda nos termos do filme citado).

Apesar do Transhumanismo constituir, por assim dizer, uma das manifestações mais arrojadas da cultura tecnológica do nosso tempo, não é por isso que não deixa de suscitar controvérsia nos meios académicos. Francis Fukuyama, célebre autor dos livros “O Fim da História” e “O Nosso Futuro Pós-Humano” refere que "o Transhumanismo tem das ideias mais terríveis e destruidoras que conheço." Só que Fukuyama não especifica. Estaria a referir-se à manipulação genética? Aos desafios da clonagem humana? À utilização “errada” da nanotecnologia? À possibilidade (bem real, mas ainda longínqua) da inteligência artificial poder suplantar a inteligência humana, como defendem muitos cientista? A verdade é que o Transhumanismo, apesar dos seus princípios teóricos de beneficiação da condição humana com base na tecnologia aplicada às ciências (com o intuito de almejar a condição pós-humana), não deixa de levantar questões morais, éticas e até filosóficas.

No fundo, é o homem a brincar a Deus. Será este o caminho do futuro?

Políticos num só dia


"Eu não confio nos políticos: ou são incompetentes ou são corruptos. E às vezes conseguem ser ambas as coisas num só dia."
Woody Allen - realizador, músico

domingo, 6 de janeiro de 2008

Midas imparável


Na lista que elaborei sobre o melhor de 2007 (em várias categorias), elegi como um dos acontecimentos do ano no âmbito da cultura audiovisual, a entrada em força e em qualidade, da produtora e distribuidora de DVD Midas Filmes. A Midas, coordenada por alguém que conhece muito bem o mercado audiovisual português (Pedro Borges, durante muitos anos colaborador da Atalanta Filmes), veio incrementar tremendamente a qualidade dos filmes lançados em DVD. E para qualquer cinéfilo que se preze, a Midas é também responsável por tornar muito mais leve a carteira. É que para alem da extraordinária qualidade das edições, a Midas tem apostado por uma febril edição. Quase não há semana em que não se leia ou se ouça a informação de mais uma edição da Midas. Repare-se, por exemplo, no último suplemento “Ípsilon” do jornal Público: na secção de crítica a lançamentos de filmes em DVD, os três DVD recenseados correspondem a outras três edições da Midas Filmes. E que edições! “História(s) do Cinema” de Jean-Luc Godard – o impressionante olhar de Godard (5 horas) sobre a história do cinema. É mais do que uma revisão ortodoxa sobre a sua história, é um verdadeiro tratado sobre a imagem e o som do século XX. Outro título recenseado: “Sombras dos Nossos Antepassados”, do realizador georgiano (amigo de Tarkovski) Sergei Paradjanov; e ainda “Vem e Vê”, do russo Elem Klimov, um filme pujante sobre a guerra como alegoria e como manifestação do horror escondido no âmago do homem. A Midas continua a marcar terreno no panorama editorial de DVD em Portugal, apostando na divulgação de cinematografias alternativas, de forte pendor autoral e de qualidade indiscutível. Para 2008 estão prometidas outras grandes edições. A ver vamos.

PS - Atenção que a Costa do Castelo também está em força, nomeadamente, com a edição recente do pack do mestre do melodrama Douglas Sirk.

A morte do insubmisso


Agora que Luiz Pacheco nos deixou, relembro o que escrevi sobre ele aqui e aqui.
RIP

Almada Negreiros e o Pingo Doce


O mundo da publicidade é um mundo que tem tanto de repugnante, indiferente ou de fascinante. Depende do ponto de vista. Refiro-me à qualidade dos spots televisivos. Nos últimos dez anos o panorama da publicidade feita em Portugal e por agências portuguesas tem evoluído a olhos vistos. Em ideias, em meios de produção, em criatividade. É fundamental captar a atenção do consumidor com spots cada vez mais engenhosos e sofisticados. Certo? Nem sempre. Por vezes a imaginação e a originalidade superam em efeito e surpresa o dinheiro investido em grandes meios de produção ou efeitos especiais. Atente-se no recente spot da cadeia de supermercados Pingo Doce (tem antecedido os jornais televisivos da noite). Durante cerca de 30 segundos, o ecrã sempre com fundo negro, palavras de ordem ao mesmo tempo que uma voz off feminina, recitando em jeito dramático, repete o que se vai imprimindo no ecrã: “Basta! Pum! Não mais promoções, feirões, promoções ou dias especiais”. Onde é que já ouvi isto? Hum, pois, os publicitários foram roubar a ideia (ou procurar inspiração, depende da perspectiva) ao célebre Manifesto Anti-Dantas do Almada Negreiros. O efeito é muito bem conseguido, com total economia de meios, sem efeitos especiais, com legendagem e voz off e a piscadela olho arty a Almada. Por causa disto, vou passar a ser cliente Pingo Doce.

sábado, 5 de janeiro de 2008

O que é a crítica?

O seminal crítico de cinema francês Andre Bazin tinha um livro cujo título era “O Que é o Cinema?”. Por sua vez, o realizador português Marco Martins pergunta “o que é a crítica?”
Vem esta introdução a propósito do facto do semanário Expresso comemorar 35 anos de existência. No âmbito desta efeméride, foi convidado o realizador Marco Martins (que fez o premiado “Alice”) para editar o caderno “Actual”. Marco Martins pensou então em pedir aos próprios críticos, músicos, actores e outros intervenientes da actividade cultural, para manifestarem breves reflexões sobre a crítica. Para que serve? A quem chega? Que valor tem para os criadores e o público? Em boa hora Marco Martins se lembrou desta vertente do jornalismo cultural, uma vez que o exercício critico, responsável, sério e sistemático, desempenha um importante papel na comunicação com o leitor/receptor. Afinal existe ainda crítica militante em Portugal? Existe espaço público nos media (sobretudo jornais) para a crítica de diversas artes (cinema, dança, artes plásticas, literatura, teatro)?
Nas dezenas de respostas a este desafio, os muitos agentes artísticos manifestam muitas e variadas abordagens ao universo da crítica. Quase todos se referem que é um instrumento importante para definir critérios de qualidade face a um determinado objecto artístico. Quase todos, de igual forma, se lamentam que há cada vez menos espaço público para os críticos revelarem o seu trabalho. Isto é um facto: no panorama da imprensa de dimensão nacional, tirando o Expresso e o Público (com o suplemento Ípsilon), que outros jornais se preocupam em exercer a crítica e, simultaneamente, divulgar as artes e a cultura? E mesmo no Expresso, há músicos que manifestam o seu desagrado. É o caso de Vítor Rua, metade do duo Telectu com Jorge Lima Barreto, quando refere que em 26 anos de actividade musical, nunca o Expresso fez uma entrevista com esse projecto. Da mesma forma, outro músico, Nuno Rebelo, assevera que “a crítica, tal como existe presentemente nos media, não é mais do que um mero instrumento ao serviço dos negócios da cultura, pelo que toda a arte verdadeiramente independente não é objecto de crítica”.
Actores, coreógrafos, encenadores, realizadores, músicos, artistas plásticos, escritores e jornalistas, revelam o seu conceito de crítica em meia dúzia de linhas. Uma edição singular e pertinente do “Actual” do Expresso. Para guardar e reflectir.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Dead Can Dance - o enigma

Se Deus existe porque é que os Dead Can Dance nunca tocaram ao vivo em Portugal?
E porque é que sofro de arrepios na espinha sempre que ouço "Cantara", ainda por cima na versão live arrebatadora?

Trilogia natura #3


O filme “Baraka” é um portentoso documento audiovisual. O realizador Ron Fricke foi o director de fotografia do primeiro filme da trilogia Qatsi, “Koyaanisqatsi”. “Baraka” foi filmado em 24 países de seis continentes e pretende ser uma profunda reflexão em imagens e sons sobre o planeta em que vivemos: os segredos da natureza, o lugar do homem no mundo, as religiões ancestrais, os costumes culturais primitivos, o frenesim da vida moderna, as relações humanas, a preocupação por questões ambientais, etc. Visualmente deslumbrante e com uma banda sonora de grande impacto, “Baraka” é um dos mais surpreendentes e belos documentos sobre a vida no planeta Terra.

Trilogia natura #2


Godfrey Reggio é o realizador da célebre e aclamada Trilogia QATSI. Se esta trilogia era centralizada na relação do homem com a sociedade moderna, as culturas primitivas e a tecnologia, “Anima Mundi” coloca o ênfase no reino animal. Trata-se de uma abordagem à natureza raramente vista e suas distintas espécies animais, num olhar cinematográfico inteligente e acutilante. A música do compositor norte-americano Philip Glass, contribui decisivamente para incrementar emotividade às imagens captadas por Godfrey Reggio, numa experiência audiovisual de grande impacto no espectador. O DVD encontra-se à venda na Amazon.

Trilogia natura #1


“Microcosmos” (1996), de Claude Nuridsany e Mary Pérennou, representa uma fascinante redescoberta da Terra à escala milimétrica., um mundo desconhecido e microscópico, pleno de beleza e de surpresa. Trata-se de explorar a vida, durante um dia e uma noite, deste universo microscópico. Os seus habitantes: criaturas fantásticas, insectos invulgares e outros animais que vivem na erva e na água, longe do olhar humano. As suas paisagens:, tufos de erva como florestas impenetráveis e grossas gotas de orvalho como bolas. Os realizadores deste filme serviram-se das mais modernas tecnologias para desvendar este fascinante mundo. “Microcosmos” ganhou um Prémio Técnico no Festival de Cannes 96 e 5 Cesars do cinema francês – Melhor fotografia, som, música, produção e montagem.

A necessidade de olhar


"No coração da cibercultura há sempre um ecrã, mas não há necessariamente um olhar."
Jean Baudrillard

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Joe Gould - o escritor vagabundo


Sobre este livro, "O Segredo de Joe Gould" (Publicações Dom Quixote), de Joseph Mitchell, disse António Lobo Antunes: "em poucas ocasiões me ri tanto e admirei tanto: li-o três vezes seguidas num pasmo crscente, num júbilo renovado, e a cada leitura descobri um livro diverso, surpreendente, magistral. R.L.Stevenson garantia que se uma obra não tinha encanto não tinha nada. Esta tem-no para dar e vender." E atente-se no que refere a escritora Doris Lessing, vencedora do último Prémio Nobel da Literatura: "É um livro único. Não conheço nada que se lhe compare."Sobre os elogios a este livro ainda poderíamos citar Salman Rushdie, Ian McEwan ou Martin Amis. Quem é afinal Joseph Mitchell para receber tamanhos e incondicionais louvores críticos? Um dos mais importantes jornalistas americanos de sempre. Escreveu para a revista "The New Yorker" nos anos 50. Mitchell percorria as ruas de Nova Iorque à procura de histórias bizarras, sendo um meticuloso observador da realidade (antecipando um outro notável jornalista literário - Truman Capote). A sua escrita é refinada, atenta ao pormenor e repleta de ironia e humor (a que se refere Lobo Antunes). É uma obra de um só fôlego, imbuída de momentos de supremo gozo literário.
O livro "O Segredo de Joe Gould" contém dois perfis que o jornalista escreveu sobre Joe Gould, um vagabundo que largou tudo (inclusive estudos em Harvard) para escrever "Uma história Oral do Nosso Tempo”. Um livro gigantesco, onze vezes maior que a bíblia, onde estaria reunido todo tipo de histórias e conversas que Gould ouvira na vida (recolhendo milhares de diálogos, discussões de rua, bares decadentes de Manhattan, etc). Joe Gould acreditava que, no futuro, essa sua obra seria de grande importância para o estudo histórico de sua época. Tinha como amigos vários escritores, editores, jornalistas e poetas como Ezra Pound ou E.E. Cummings.
Gould morreu em 1957 e o livro que foi escrito nunca foi encontrado - não se sabia mesmo se chegara de facto a existir. Mas a lenda dizia que existia, aumentando a reputação e o fascínio à volta do vagabundo Gould. Em 1964, sete anos após a morte de Gould e mais de vinte anos após o perfil da "The New Yorker", Joseph Mitchell escreveu para a mesma revista outro texto sobre o boémio nova-iorquino - "O Segredo de Joe Gould" -, revelando o mistério guardado por tanto tempo (texto que viria a dar neste livro). Depois dessa reportagem histórica, o jornalista nunca mais publicou sequer um texto. Morreu de cancro em 1996.
"O Segredo de Joe Gould" foi adaptado em 2000 para o cinema por Stanley Tucci, num filme com Ian Holm, Steve Martin e Susan Sarandon. Claro que não será necessário dizer que o filme não faz jus à grandeza e inteligência da obra literária.

De vento em popa


Joaquim de Almeida, o actor português que alguns classificam de ser canastrão e de só saber interpretar papéis de mafioso sul-americano, acaba de fazer mais um filme em Hollywood. E consta que não é um filme qualquer. Chama-se "The Burning Plain" (de Guillermo Arriaga, argumentista de "21 Gramas" e "Babel") e contracena com duas actrizes, digamos, fogosas (ok, e talentosas). Nada mais nada menos do que com Kim Basinger e Charlize Theron. Mais: não se limita a contracenar passivamente. Parece que tem mesmo um papel importante. Tão importante que se envolve em tórridas cenas de sexo com a ex-mulher de Alec Baldwin. O actor veio dizer que gostou muito de conhecer as actrizes e que se deu muito bem com elas. Acredito que sim.

Back to the eighties?


Revivalismo. Saudosismo. Retrospectiva. Memória. Chamem-lhe o que quiserem. A verdade é que a gloriosa década de 80 está de regresso: são múltiplas as referências na publicidade, nos programas de televisão de entretenimento (basta ver que o programa de fim de ano do Gato Fedorento andou à volta da cultura dos anos 80), no cinema, nas músicas que passam rádio, na moda, nas bandas pop/rock, etc. É um regresso saudável? Na realidade, parece que uma geração só tem verdadeiramente valor duas décadas depois: nos anos 80 lembro-me que toda a gente dizia que na década de 60 "é que era" (o ideal hippie, o Maio de 68, a música...). Nos anos 00 encaramos os 80 como se fosse a década de culto por excelência. Quando entrarmos na segunda década do Século XXI, iremos suspirar pela década de 90. E se em vez de olharmos para o passado, olhássemos definitivamente para o presente e para o futuro?

Admiração e respeito - 10


Noam Chomsky - linguista, ensaísta, professor.

Polvo vivo ao jantar?

Não há volta a dar: sempre que como polvo ou lulas, lembro-me disto:

Nada como abrir o apetite.
(Cena do filme "Old Boy", de Park Chan-wook)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

A música portuguesa existe


Quantos discos portugueses foram editados durante o ano que passou? 20? 50? O site A Trompa, especializado na divulgação da música nacional, dá uma resposta aproximada com a sua lista dos discos nacionais de 2007. É isso: pelo menos 150 discos de produção nacional foram lançados no último ano. Face ao habitual desinteresse da comunicação social com a música portuguesa, até parece um número exagerado e desproporcionado. E o autor do site ainda diz que "muita coisa ficou por ouvir." É caso para dizer que a música nacional existe, está em fase de alta produção e apresenta centenas de propostas e projectos interessantes. Basta ver o top d'A Trompa para verificar isso mesmo: músicos e projectos de todos os géneros e estilos, conhecidos e desconhecidos, mas que fervilham em ideias e que merecem ter atenção.

Filme - o valor da votação


Todos os cinéfilos conhecem o site The Internet Movie Database, porventura o melhor site sobre cinema de toda o espaço virtual (há o allmovie.com, mas não tem informação tão detalhada e abrangente). Ora, no imdb podemos consultar várias listagens dos melhores filmes - por géneros, por décadas, realizadores, etc. A lista dos 250 melhores filmes de sempre - votada pelo cibernautas - revela algumas curiosidades: em primeiro lugar do top está o filme "O Padrinho" de Francis F. Coppola e logo de seguida, "Os Condenados de Shawshank". O filme de Frank Darabont é um bom filme, mas merecerá o segundo lugar da lista dos melhores filmes de sempre? Isto quando constatamos que existem muitas obras-primas listadas para lá do centésimo lugar. Basta constatar que o magistral "Manhattan" de Woody Allen figura no... penúltimo lugar da tabela (249ª posição)!
Para cada filme existe uma votação que vai de 1 valor (péssimo) a 10 valores (genial). Se virmos com atenção esta votação, não deixa de causar perplexidade alguns dados. Pegando no exemplo do filme que está em primeiro lugar do top, com uma média de valores 9,1 - "O Padrinho" - vemos que há 144 mil cibernautas que votaram na nota máxima (10), mas também houve 15,177 que votaram na nota mínima (1). Para pegarmos num filme mais consensual da história do cinema - "Citizen Kane" de Orson Welles (classificado num modesto 24º lugar): há pelo menos 3,617 cinéfilos que detestaram o filme cilindrando-o com nota 1. Mesmo o "Pulp Fiction" de Tarantino (5ª posição) regista nada menos do que 7,000 detractores. Estas votações não têm, obviamente, validade científica e rigorosa, mas não deixam de ser sinais interessantes sobre a forma como se interpreta um filme.
Conclusão: mesmo perante supostas obras-primas da 7ª arte, há sempre quem as considere obras medíocres. Percebemos que em arte não existem consensos e unanimismos totais e absolutos. O que prevalece é a subjectividade do olhar, a diferenciação de fruir um dado objecto criativo. O que gera estas discrepâncias críticas relativas a um mesmo fenómeno artístico (seja cinema, pintura ou literatura)? A formação cultural do espectador? As suas referências no mundo da arte? A sua capacidade de análise e de discernimento?

Creio que Georges Braque resume esta problemática quando assevera: "Na arte só uma coisa importa: aquilo que não se pode explicar."

A realidade e a imagem


"O que conhecemos do mundo é pouco mais do que o mundo mediado, a imagem. Não temos realidade, temos derivado da realidade, que é extremamente perigoso, sem dúvida de um ponto de vista político, mas numa perspectiva mais geral para a nossa capacidade de termos uma sensação palpável da verdade da experiência quotidiana."
Michael Haneke, realizador (a propósito do filme "Caché - Nada a Esconder")