domingo, 17 de fevereiro de 2008

Clássicos contados às crianças


O semanário SOL está a editar, com o apoio do Millennium BCP, uma excelente colecção de clássicos da literatura portuguesa contados às crianças. A editora associada a esta louvável iniciativa é a Edições Quasi. A coleccção é composta de 12 livros de capa dura com títulos clássicos de escritores como Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Júlio Dinis, Almeida Garrett ou Camilo Castelo Branco. Os livros são adaptados por escritores contemporâneos (Possidónio Cachapa, Rosa Lobato de Faria, José Luís Peixoto) numa linguagem acessível e directa para as crianças (sem ser infantilizada). Complementarmente, as ilustrações são de grande qualidade, potenciando a imaginação. O primeiro livro lançado, “Os Maias”, com uma excepcional adaptação de José Luís Peixoto, é a prova de que se trata de uma colecção a adquirir por pais, educadores e professores. Uma óptima oportunidade para iniciar as crianças no universo da literatura clássica portuguesa.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Fnac - 10 anos de sucesso


A Fnac comemora 10 anos de lojas abertas em Portugal. 10 anos que revolucionaram os hábitos culturais dos portugueses tradicionalmente pouco dados ao consumo cultural. Apesar disso, e paradoxalmente com os índices de consumo cultural deste país, a Fnac em Portugal regista records europeus de vendas e de receitas. O conceito de loja Fnac, em que o cliente pode usufruir de alguns produtos sem o comprar (como o livro) e circular as horas que quiser pelo espaço, assentou arraiais em Portugal. Por outro lado, todos os anos são inauguradas novas lojas, fomentando a descentralização geográfica deste espaço (ainda não chegou ao interior do país, consta-se que Viseu poderá ter uma loja Fnac em breve). Nem tudo é positivo no universo Fnac, como a política de preços nalguns produtos, mas a verdade é que continua a ser um espaço incontornável e viciante de fruição e de conhecimento. A concentração de bens culturais tão diferentes como o livro, o DVD, o CD, os gadgets digitais, a informática, a electrónica, torna a Fnac uma irresistível tentação para o consumidor. Paralelamente, a programação cultural desenvolvida (concertos, exposições, conversas com autores), investindo claramente no apoio aos artistas nacionais, incrementa a importância desta empresa francesa de cultura. O profissionalismo dos diversos serviços, a estrutura organizacional de toda a loja e a boa formação dos funcionários, contribuem para que a Fnac seja, cada vez mais, uma empresa em defesa da cultura, do conhecimento e do desenvolvimento geral deste Portugal. Que seja por mais 10 anos, e mais 10...

A insustentável dureza da rádio


É insuportável. Abominável. Refiro-me à RFM, a estaçãozinha de rádio nacional especializada em divulgar os êxitos comerciais da actualidade, perdão, dos anos 80. A tal rádio cujo lema é "Só Grandes Músicas". Entre-se em qualquer loja comercial, consultório ou café e as estatísticas provam que, se houver uma rádio sintonizada – na senda de querer dar musica ambiente ao cliente – há fortíssimas probabilidades de estar sintonizada na bolorenta RFM ou na esclerosada Rádio Comercial. Não falha. Como, ainda por cima, a cultura dos eighties está na moda, estas duas estações são as “special ones” na vanguardista tarefa de divulgar os hits de antanho do Elton John, do Lloyd Cole, do Phil Collins, do Rod Stewart ou dos Waterboys. A música dos 90 ou da actualidade, não existe. Há quem goste de ouvir milhares de vezes as mesmas canções pop-corn de outrora (como em tudo na vida), mas no meu caso, quando entrei na loja comercial e ouvi o locutor, expedito e expansivo, anunciando a próxima “grande musica”, quase me deu vontade de dar meia volta e ir apanhar o ar frio da rua. Preferia a música do tráfego ruidoso. Ah, a grande música a que se referia o animador era a “Dancer in The Dark” do boss Springsteen. Quer dizer, se eu ganhasse 5 Euros por cada vez que a RFM já passou esta musica (desde que foi editada até à data), acho que conseguia comprar o passe do Cristiano Ronaldo e ainda me sobrava dinheiro para fazer uma OPA ao BPI (ou à Sonae, ou...).

Chaplin a começar em grande


Sobre a colecção “Cahiers du Cinema” (DVD e livro) que o jornal Público começou a publicar ontem, há a dizer o seguinte: estamos perante uma colecção de grande qualidade, quer pela edição do DVD do Charlie Chaplin (“O Imigrante” e 4 curtas-metragens), quer pelo livro que o acompanha. Nada menos do que um livro de quase 100 páginas, com muita informação – biografia, filmografia – e muitas fotografias do homem e do realizador. Outra coisa não seria de esperar, dada a qualidade a que nos habituou a histórica revista de cinema francesa. Até dia 1 de Agosto (!), a colecção prolongar-se-á durante 24 semanas, sempre com um realizador e um filme diferente em cada edição. Claro que faltam muitos realizadores importantes (nenhum John Ford? Nenhum Murnau? Nenhum Dreyer?), mas quem pode queixar-se quando as próximas edições vão focar-se em autores como Rossellini, Fellini, Renoir, Antonioni, Scorsese, Tarkovsky, Wilder ou Mizoguchi? Já tenho em DVD quase metade dos filmes que irão sair com o Público, mas não será por isso que vou deixar de acompanhar e completar a colecçao, uma vez que os livros são uma mais valia. Além do mais, quando se começa uma colecção, ou se vai até ao fim ou então não vale a pena. Digo eu.

Berardo? O que é isso?

O programa é o inefável “Quem Quer Ser Milionário”.
Pergunta: “que tipo de acervo possui o Museu Berardo?”
4 possibilidades de resposta:
a) Arte Déco
b) Arte tradicional
c) Arte bizantina
d) Arte contemporânea
O concorrente não sabe. Pede a “ajuda do público”. O público responde, com 54%, opção d.
E o público lá safou a honra do convento.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Soundsnap


A mina dos filmes online

Na Internet descobrem-se verdadeiras minas. De ouro. O site Filmschatten tem, nada mais, nada menos, do que uma impressionante lista de filmes. Isto não é como o youtube, onde apenas podemos ver pedacinhos insignificantes de vídeo (o máximo até 10 minutos de cada vez). Este site tem centenas (ou milhares) de filmes completos. Repito: filmes completos. Dos mais variados géneros cinematográficos, dos mais diversos realizadores, europeus, asiáticos, mundiais, conhecidos e menos conhecidos, consagrados e por revelar, clássicos e contemporâneos, ficção e documentário, mais comerciais ou mais independentes. Repare-se na imensa coluna da esquerda: centenas de autores importantes (nem todos vindos do cinema, alguns das artes plásticas ou da performance) com títulos disponíveis na íntegra. O site é actualizado regularmente, quase todos os dias há títulos novos disponíveis. Não é possível fazer download, os filmes não têm legendagem, mas é uma mina para qualquer cinéfilo poder ver na íntegra online um filme raro de Buster Keaton, de Vertov, de Kurosawa ou de Daren Aronofsky. Agora seria preciso tempo, muito tempo para desfrutar cuidadosamente de cada filme e partir à descoberta de muitas e boas surpresas cinematográficas. Direitinho para os favoritos, se faz favor.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O cine-olho em movimento


Este é um daqueles filmes absolutamente obrigatórios em qualquer curso de cinema de qualquer escola mundial que se preze. É uma obra-prima de construção narrativa sem recurso a diálogos ou legendas, e é um dos melhores documentários mudos e um dos melhores de toda a história do cinema. E é de puro cinema que falamos quando falamos de "The Man With The Movie Camera" (O Homem da Câmara de Filmar", 1929) do russo Dziga Vertov. A par de Eisenstein, Vertov foi um dos mais notáveis teóricos da montagem e este filme em particular revela todo o seu talento e criatividade. Com os realizadores russos, a montagem passou a desempenhar um papel preponderantemente estético e dramático, impondo outra dimensão formal ao cinema. "O Homem da Câmara de Filmar" passa-se em Moscovo durante 24 horas, desde o acordar da cidade até ao anoitecer. Em termos estéticos e formais, a obra de Vertov é um monumento raramente igualado. O realizador foi um verdadeiro pioneiro na utilização de todas as técnicas cinematográficas e efeitos visuais disponíveis que mais tarde se vulgarizaram - dissolves, split screen, slow motion e freeze frames. É o cinema em movimento, em acção e em mutação constante, num turbilhão de ideias, símbolos e imagens, que iria influenciar gerações de cineastas. Vertov dizia que era um "cine-olho", um construtor da imagem e da realidade. O que vemos de seguida são os últimos 4 minutos de filme, em que se pode observar a qualidade plástica dos planos, o ritmo frenético da montagem (os últimos 30 segundos são brutais), a realização esplêndida de um artista que competia com Sergei Eisenstein ou F. W. Murnau na obtenção do estatuto de maior cineasta vanguardista do período mudo. A espantosa música original que acompanha esta intensa sequência (como do resto do filme) é de um trio de músicos americanos especializados em bandas sonoras para filmes mudos (actuou uma única vez em Portugal no Teatro Municipal da Guarda): Alloy Orchestra. A Costa do Castelo tem a edição deste filme com esta banda sonora.

O cinema ensina muitas coisas



D. Eurico Dias Nogueira, Arcebispo de Braga: “Aprendi mais em meia hora a ver o filme «Império dos Sentidos» do que em 67 anos de vida."

O drama da Humanidade

D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, disse ao Público: “O ateísmo e a indiferença em relação a Deus constituem o maior drama da Humanidade.”
Eu contraponho, dizendo: “A ignorância e o dogmatismo em relação à religião constituem o grande drama da Humanidade.”

Os Deuses amam quem se suicida?


Ernest Hemingway (na imagem), Kurt Cobain, Camilo Castelo Branco, Ian Curtis, Jacqueline Kennedy Onassis, Roland Barthes, Jean Michel Basquiat, Walter Benjamin, Mishima, Guy Debord, Cleópatra, Florbela Espanca, Gogol, Adolf Hitler, Virgínia Woolf, Primo Levi, Stefan Sweig, Anna Karenina, Sylvia Plath, Guy de Maupassant, Vincent van Gogh . O que têm estas pessoas em comum, além do facto de serem famosas? O suicídio.
Como dizia Albert Camus, o suicídio deveria ser a questão crucial da filosofia. Ou seja, tentar saber se a vida merece ou não ser vivida. A morte em geral e o suicídio em particular, continuam a ser assuntos tabu na cultura ocidental. No Japão, a morte voluntária é encarada com certa bonomia e tolerância cultural, sendo e o harakiri (suicídio através da espada - foi como morreu o escritor Mishima) era uma prática comum nos samurais (para não falar no terrível fenómeno kamikaze da 2º Guerra Mundial). No Japão há inúmeros casos de suicídios colectivos de jovens e até crianças, muitas das vezes combinados pela internet.
Durkheim foi um dos primeiro sociólogos a estudar seriamente o fenómeno do suicídio. E durante a segunda metade do século XX, houve muitos estudos que apontavam para a relação entre a actividade artística e o suicídio, entre as doenças mentais (depressão, esquizofrenia) e a criatividade. O facto é que ao longo da história da humanidade houve centenas de artistas, cientistas, poetas, escritores, músicos, políticos, cultos e inteligentes que, voluntariamente, puseram fim às suas vidas. Entramos nos desígnios insondáveis da mente humana. Portugal tem um longo e relativamente vasto historial de suicidas: Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Mário de Sá Carneiro, Florbela Espanca.
Arthur Schopenhauer defendia que cada um é livre de pôr termo à sua vida. É a consequência de o homem se tratar de um ser livre. O “Dicionário de Suicidas Ilustres” (edição brasileira) de J. Toledo compila os casos de suicídio de mais de 700 pessoas famosas oriundas das mais diversas profissões (mas com especial enfoque nas profissões artísticas). No livro, comtam-se por exemplo, o suicídio de seis prémios Nobel, inúmeros prémios Pulitzer e mais uma grande quantidade de informações sobre os personagens ficcionais suicidas que se tornaram célebres, tanto na literatura quanto no cinema, como Anna Karenina, heroína do livro homónimo, escrito por Tolstoi. A morte será sempre um tema eterno nas discussões populares ou intelectuais, e o suicídio continuará a possuir aquela aura de mistério, de cobardia ou de coragem (conforme a opinião de cada um), de forma de fugir ao sofrimento ou como carro de combate para o debelar. E continará a exercer um profundo fascínio o exercício de tentar compreender (psicologica e culturalmente) porque é que se matam escritores e poetas, músicos e filósofos, artistas e pensadores, homens e mulheres de espantosa inteligência e formação. Se calhar, é porque, como diz Camilo Castelo Branco, "o suicídio não é uma coragem vulgar. Suicidam-se os que se desprezam a si e ao mundo."

A Rapariga Que Sabia Demasiado


Afinal, para além de James Stewart, há também raparigas que sabem demasiado.

Em marcha imparável


De novo, notícias do estrangeiro que provam que ninguém pára o melhor realizador português da actualidade, Pedro Costa. A juventude segue imparável a sua marcha.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Música que apodrece


Nos anos 80 coleccionei música como um louco fundamentalista. Trocava cassetes áudio com melómanos de todo o país (e do estrangeiro) e esperava ansiosamente que as novidades chegassem ao marco do correio. Era um ritual poder abrir o envelope almofadado, colocar a cassete no leitor e desfrutar daqueles intensos momentos de descoberta de um artista ou grupo. Como não havia dinheiro para comprar todos os discos em vinil que gostava, eram as centenas de cassetes que me saciavam a gula musical. Agora, as perto de mil cassetes estão num canto da garagem, à espera que um dia (que dia?) alguém vá lá buscar uma, retire a poeira e espere que a fita ainda aguente o peso dos anos. E que música tenho eu gravada em cassetes que provavelmente nunca mais voltarei a ouvir (por deterioração natural da fita magnética ou porque não tenho nem em vinil ou CD)?

Apenas alguns exemplos:

Half Man Half Biscuit, Test Department, Red Lorry Yellow Lorry, Captain Beefheart, Devo, Philip Boa and the Voodoo Club, Death in June, The Triffids, Robert Ashley, George Crumb, Christian Death, Dissidenten, Front 242, Camper Van Beethoven, Beatnigs, Anne Clark, Dif Juz, 23 Skidoo, The Wolfgang Press, Asmus Tietchens, in The Nursery, SPK, And Also The Trees, The Band of Holy Joy, John Adams, Elliott Sharp, Butthole Surfers, Mick Karn, Minimal Compact, Hugo LArgo, Graeme Revell, Rapeman, Coil, Steven Brown, Felt, The Residents, Can, Holger Czukay, The Feelies, Art Zoyd, Miso Ensemble, Meredith Monk, Nurse With Wound, Laibach, Christian Marclay, Harold Budd, Robert Fripp, Lights in a Fat City, Jon Hassel, Somei Satoh, Cathy Berberian, La Monte Young, Henry Cow, Negativland, Clock DVA, Biota, Moroccan Trance Music, Demetrio Stratos, Sixth Comm, Z'Ev, Skinny Puppy, Milton Babbit, Clair Obscur, Swans, Virgin Prunes, Hector Zazou, Bill Frisell, Chalres Mingus, Holger Hiller, The Gun Club, Sol Invictus, Barry Adamson, Cranioclast, Lydia Lunch, O Yuki Conjugate, No Means No, Lou Harrison, Psychic TV, Muslimgauze, Foetus, Delerium, Non, Anarband, Andrew Poppy, David Fulton, Zoviet France, Wire, Elvis Costello, Tom Cora, Faust, Von MAgnet, God, Ravi Shankar, Osso Exótico, Harry Partch, Pauline Oliveros, The Fall, Painkiller, Nicolas Collins, Peter Frohmader, David Sylvian, Kronos Quartet, Zap Mama, Jarboe, Sainkho, Jorge Reyes, Loop Guru, Carlos Zíngaro, Jane's Addiction, Ocaso Épico, Boyd Rice, FM Einheit, Alvin Lucier, Dinossaur Jr., Lush, Pengui Cafe Orchestra, Fred Frith, Pascal Comelade, Organum, Loop, The Hafler Trio, Cecil Taylor, Ala Stivell, Delerium, Tony Oxley, Pigface, Godflesh, Big Black, La Fura Dels Baus, Brian Eno, HIST, Arcace Device, Smegma, Fugazi, John Cage, Rollins Band, Yo La Tengo, John Cale, Masada, Scorn, Luciano Berio, Robert Rich, Pierre Boulez, Dead Kennedys, Telectu, Lard, Caspar Brotzman, XTC, etc, etc.

Alguém se oferece para digitalizar estas cassetezinhas?

O saber universal em pequenos contos - 2

"Outra Palavra de Deus" (história judia)
Um homem perguntava incansavelmente a Deus:
- Tu, que és o próprio poder, rogo-Te, dá-me cem mil dólares! Para Ti, não é nada. Podes fazer tudo o que Quiseres. O espaço não existe e cem anos é como um minuto. Mil anos é como um minuto! Cem mil dólares, para Ti, é como um tostão. Suplico-te, dá-me um tostão!
Deus respondeu:
- Espera um minuto.
In: "Tertúlia de Mentirosos - Contos Filosóficos do Mundo Inteiro" (Teorema) - Jean-Claude Carrière.

O Homem Que Sabia Demasiado


"The Man Who Knew Too Much" - Alfred Hitchcock, 1956

ARCO - a arte vanguardista em Madrid


A 27.ª edição da ARCO - Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid, abre hoje com a presença de 295 galerias de 34 países (Portugal incluído). A única vez que estive numa feira da ARCO foi há quase 10 anos. Impressiou-me a grandiosidade da Feira, a diversidade de galeristas e de propostas artísticas representadas. Eram milhares de pessoas de todas as nacionalidades que circulavam pelo imenso espaço físico da Feira. Uns curiosos, outros peritos em arte contemporânea, outros meros turistas. Mas notava-se também que a ARCO, por ser um evento mundialmente famoso, resulta numa feira de negócios e de vãs vaidades, quer por parte de artistas que se julgam o supra-sumo da arte, quer por parte de certos visitantes que se vestem e comportam como se estivessem num desfile de John Galliano. O orçamento é brutal, perto de 10 milhões de euros. Compreende-se. A Feira é uma montra global, e alcançou um estatuto ao longo dos anos que lhe permite defender a ideia de que se trata da exposição mundial de arte mais contemporânea e vanguardista. Não tenho a certeza que assim seja. Por lá podemos observar todas as correntes actuais de expressão artística contemporânea - das mais abstractas, híbridas e conceptuais, às mais acessíveis e convencionais. Ainda assim, visitar a ARCO e fruir todas aquelas propostas artísticas vanguardistas e polémicas (não há ano em que não haja uma provocação artística com projecção mediática) não deixa de ser uma experiência enriquecedora.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Enquanto o Diabo come um ovo

A arte de comer um ovo cozido. Quem ensina é o medonho Louis Cyphre (Robert De Niro) no inquietante thriller "Angel Heart" ("Nas Portas do Inferno", 1987) de Alan Parker. Toda a sequência mete medo: Harry Angel (uma óptima interpretação de Mickey Rourke) é um detective que questiona Louis; enquanto responde, este vai descascando um ovo cozido como se não houvesse amanhã. Os gestos lânguidos, o olhar incisivo, o cabelo penteado para trás, as unhas pontiagudas, a barba... É claramente a personificação de uma entidade demoníaca (quem conhece o filme sabe porquê). Quando come finalmente o ovo, Louis Cyphre parece dizer a Rourke: "a tua alma é minha!" E era mesmo.

Igreja da Modificação Corporal - Aleluia!


A cultura da tatuagem e do piercing é uma cultura milenar tribal que só no século XX se expandiu na sociedade ocidental. São formas de expressão do corpo, de identidade, de afirmação pessoal. Mas hoje há pessoas que não se conformam apenas com simples tatuagens. Por isso enveredam pela nova tendência da cultura urbana (os chamados "modernos primitivos"): a modificação do corpo (com ramificaçãos à body-art). E modificação implica alterações físicas, efémeras ou permanentes, do corpo humano: implantes ou amputações, alterações radicais da fisionomia (dentes, língua, rosto), suspensão do corpo com ganchos. É a radicalização extrema do corpo, é puxar até aos limites o conceito de humano. Há já uma Igreja (!) nos EUA dedicada a este culto - Igreja da Modificação Corporal. Basta ver este impressionante ranking dos dez indivíduos com o corpo mais modificado.
Importa perguntar que natureza humana é esta.

O saber universal em pequenos contos

Há um livro ao qual recorro com frequência: "Tertúlia de Mentirosos - Contos Filosóficos do Mundo Inteiro" (Teorema) do francês Jean-Claude Carrière. Este escritor e argumentista de cinema foi famoso por ter adaptado obras literárias para cinema e por ter escrito alguns dos melhores guiões do realizador espanhol Luís Buñuel. Neste livro, Carrière reúne centenas de pequenas histórias e contos do mundo inteiro e de todas as culturas e religiões - judaica, cristã, islâmica, indiana, sufi, aborígene, budista, etc. Alguns contos têm milhares de anos, outros são contemporâneos. Ler "Tertúlia de Mentirosos" é um exercício fascinante. O conhecimento, o saber, os ditos de espírito compilados neste livro são verdadeiros manuais de vida e dariam para muitas teses de filosofia. Deixo apenas aqui um exemplo num conto intitulado "A solução" (oriundo da tradição judaica mas com um toque zen):

Um estudante dirige-se a um velho rabino e diz-lhe:
- Reflecti muito e tomei uma decisão. Decidi morrer.
- Não é uma solução - diz o rabino.
O jovem vai-se embora e volta uma semana depois, dizendo:
- Tinhas razão, mestre. Reflecti muito e decidi viver.
- Não é uma solução - diz o rabino.
- Mas disseste-me que morrer não era solução! Agora dizes-me que viver não é solução. Então qual é a solução?
- Porque pensas tu que há uma solução? - disse-lhe o rabino.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Roy Scheider


Soube agora: o actor Roy Scheider morreu ontem aos 75 anos de idade. Não era um actor de proa do star system de Hollywood (apesar de ser da mesma geração de um Gene Hackman, não tinha o mesmo estatuto e talento que este), mas bastaram-lhe dois ou três papéis fulcrais para não mais ser esquecido: os filmes "The French Connection" (1971) de William Friedkin, "All That Jazz" (1979) de Bob Fosse e o incontornável "Tubarão" (1975) de Spielberg.

Quino - inteligência e criatividade

Quino (à esquerda) é um génio. Ponto. A sua arte não se resume a mero entretenimento infanto-juvenil. A sua arte, vinda de uma expressão outrora tida como menor, serve como cavalo de batalha para denunciar os males da sociedade. A banda desenhada que criou ao longo das últimas três décadas resultam de uma reflexão apuradíssima da vida, das relações humanas e dos seus efeitos na evolução do mundo. Há muita filosofia no desenho - e respectiva mensagem - de Quino. Há muita angústia existencial para se restringir às crianças. Só os adultos descodificam muitas das mensagens que Quino apresenta unicamente sob a capa do desenho despojado - sem diálogos ou legendas. Uma tira deste autor argentino, com um traço certeiro e muita astúcia, pode proporcionar mais reflexão e debate do que muitas máximas de pensadores célebres. A sua inteligência e poder de observação da realidade são reveladores de uma personalidade pragmática. Em termos formais, Quino investe numa certa radicalização das fórmulas convencionais dos "quadradinhos", cujas personagens são surpreendidas, muitas das vezes, por fenómenos surreais e absurdos. A personagem mais conhecida criada por este argentino nascido em 1932, é Mafalda (à direita), verdadeira personificação da rebeldia e insatisfação da geração de 60. Mafalda representa a bandeira da defesa dos direitos humanos e da democracia. Sem Quino, não teria havido Bill Watterson e "Calvin e Hobbes". De resto, Mafalda e toda a restante obra de Quino estão imbuídas de profunda consciência política e social. Todas as personagens que se relacionam com Mafalda representam uma classe social específica, com características culturais e sociais que as diferenciam umas às outras. Daí nasce o conflito, as desigualdades, o azedume. A crítica feroz que Quino incute na banda desenhada que criou induz o leitor a questionar o mundo que o rodeia, como só um bom artista consegue fazer.

Shirley Bassey - a diva reabilitada


Faz agora dez anos que este disco foi lançado: “Decksandrumsandrockandroll”, dos Propperlerheads (nome de um conhecido software musical). Faziam uma estimulante fusão de big beat (na altura era o estilo musical mais em voga) com electrónica, tecno, soul e funk. Este duo é responsável pela reabilitação da grande voz do jazz feminino Shirley Bassey, com o magnífico e viciante tema “History Repeating”. Vale muito a pena relembrar:

Discos que mudam uma vida - 11


The Velvet Underground and Nico - "The Velvet Underground and Nico" (1967)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Thriller



"Thriller" foi há 25 anos. O disco não revolucionou a música pop (apesar do mega-sucesso planetário), o videoclip (teledisco na altura), sim. Pelo orçamento, duração, efeitos especiais, meios de produção, inovação formal. Um videoclip quase no limiar da curta-metragem de ficção que iria mudar as regras da promoção musical. John Landis sabia o que fazia. Claro que se não tivesse havido MTV, nada teria sido como foi. E é bom lembrar que por detrás da produção do disco de Michael Jackson se encontrava uma figura de proa da produção musical: Quincy Jones. Seja como for, quem nunca bateu o pé ao som de "Beat It"?

Diane Arbus - fotografia e expiação

Vi ontem o filme "Fur - Um Retrato Imaginário de Diane Arbus" (2007) de Steven Chainberg. Uma desilusão. O visionamento do filme só teve um benefício: despertou-me um interesse maior em conhecer a obra fotográfica de Diane Arbus (no filme interpretada por Nicole Kidman), uma notável e talentosa fotógrafa americana que se especializou (se a palavra é a correcta) em fotografar a perversão e a decadência humanas. A grande maioria das suas fotografias parece vinda directamente do circo de anormalidades físicas do filme "Freaks" de Tod Browning. Diane contrariou a tendência da fotografia do glamour e da elegância para se centrar no lado mais negro, marginal e aberrante da condição humana (Nova Iorque da década de 50): gémeos siameses, doentes mentais, deficientes físicos, anões, gigantes, mendigos decrépitos, hermafroditas, nudistas. Das suas fotografias ressalta uma beleza única, uma poesia que confirma o amor que Arbus tinha por esses seres humanos ostracizados pela sociedade. Diane dizia que a fotografia servia como um escape para expiar as suas emoções lúgubres e inquietantes. A plasticidade das fotografias, os contrastes de luz, os pormenores captados, a composição visual, são elementos estéticos que conferem identidade artística à fotografia de Diane Arbus. A foto deste post é de duas irmãs gémeas com olhar penetrante e quase ameaçador - serviu de inspiração a Stanley Kubrick para as gémeas terroríficas que surgem no filme "The Shining".
Diane arbus morreu com apenas 48 anos de idade, por suicídio.
Mais fotos aqui.

A ironia macabra de Mr. Hitch

A propósito do post sobre as séries televisivas de ficção, não posso deixar de referir aquela que porventura mais marcou o imaginário popular dos anos 60 e 70: "Hitchcock Apresenta". Juntamente com "Twilight Zone", ambas foram séries que colaram os espectadores ao pequeno ecrã, ambas influenciaram diversos realizadores - John Carpenter, Steven Spiellberg, Peter Jackson, Brian de Palma, etc. Quando muitos cineastas julgavam que a televisão era um meio de comunicação menor (anos 50/60) face à arte do cinema, Hitchcock soube vislumbrar as potencialidades narrativas da "caixa que mudou o mundo". Foram mais de 300 episódios de apenas 30 minutos cada, nos quais Hitchcock apresentava pequenas histórias intrigantes, macabras, misteriosas e de desfecho quase sempre inesperado. O humor negro (negríssimo) e a sensibilidade para gerir o suspense psicológico de Hitchcock eram elementos que não podiam faltar a esta série televisiva. Por isso se tornou viciante e houve inclusive um remake da série nos anos 80 (com realização de cineastas como Spielberg ou Joe Dante).
Recordo-me particularmente de um episódio que me marcou sobremaneira e que me causou arrepios gélidos na espinha. Conta-se numa penada: era adolescente, estava na cozinha a comer qualquer coisa enquanto assistia a mais um episódio de Mr. Hitch. Era a história de um presidiário que tinha subornado o velho coveiro da prisão para que o deixasse esconder-se no caixão do próximo presidiário que morresse. Ambos combinaram que, assim que o caixão fosse enterrado no cemitério (no exterior da prisão), o coveiro o desenterrasse a tempo para não sufocar, para desta forma fugir rumo à liberdade. Um dia, quando o presidiário ouviu o sino a indicar o falecimento de um outro presidiário, dirigiu-se à morgue e, no escuro, escondeu-se dentro do caixão ao lado do cadáver. Esperou ansioso. Pelo movimento do caixão, percebe que o estão a enterrar. Não vê a hora do coveiro o desenterrar. Angustiado, o presidiário acende um fósforo para ver quem tinha morrido. Assim que ilumina o rosto do cadáver, vê a cara... do coveiro! O episódio termina com um grito lancinante e a luz do fósforo a esfumar-se. Lembro-me que fiquei estarrecido e muito incomodado psicologicamente com aquele desfecho arrepiante, e naquela noite dormi mal a pensar como teria sido se alguém passasse por aquela situação horrenda. E fiquei também a saber outra coisa: que o sentido mórbido de Alfred Hitchcock não tinha limites para impressionar o espectador.
Nota: faz parte do mito urbano que esse episódio despoletou nalguns espectadores a tafofobia (ou tafefobia), ou seja, a fobia que se caracteriza pelo medo mórbido de ser enterrado vivo e acordar preso dentro de um caixão sob o solo. Brrrr!...

A bondade humana


"Se as pessoas só são boas porque temem o castigo e esperam recompensa, então somos mesmo uma triste cambada."
Albert Einstein

Comunistas, nós?


Há momentos na vida em que a pura casualidade de um dado momento torna a realidade mais divertida. Ou perigosa. Na verdade, quando o fenómeno da casualidade (ou circunstância, diria Ortega y Gasset) interfere nas nossas vidas, nem que seja por uns breves segundos (como neste desenho de Quino) permite diferentes interpretações conforme a perspectiva de cada olhar.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A série como paradigma televisivo de ficção


O Expresso traz uma interessante reportagem sobre as grandes séries que marcaram a história da televisão. Está lá tudo, das clássicas às contemporâneas: "5ª Dimensão", "Bonanza", "Missão Impossível", "Reviver o Passado em Brideshead", "Balada de Hill Street", "Twin Peaks", "Sete Palmos de Terra", etc. Acho estranho não haver referência às séries "MacGiver", "Night Rider" e "The A-Team". Seja como for, a televisão sofreu inúmeras evoluções desde o seu aparecimento até aos nossos dias. Evoluiu com os valores da sociedade e com as exigências do mercado do entretenimento. Os formatos da série desenvolveram-se até aos anos 80 (com a referência absoluta de "A Balada de Hill Street", emitida no período 1981 - 1987). Nos anos 90 houve uma reabilitação da série com a originalidade imprimida pela mente retorcida de David Lynch com a mítica "Twin Peaks". Mas "Twin Peaks" foi um caso único, que mudou o panorama e a configuração da série de ficção para sempre. Nos anos seguintes foi quase um deserto de ideias (tirando "Seinfeld" no registo de comédia) e o espectador foi perdendo o hábito de acompanhar as séries na televisão. Outras solicitações de entretenimento e lazer surgiram: televisão por cabo, videojogos e, finalmente, a internet. Só nos anos 00 é que a reabilitação das séries televisivas tomou novo e decisivo impulso. Novas ideias, novos conceitos de ficção, nova abordagem aos assuntos da vida real e mundana, seduziram a audiência: "Os Sopranos", "Sexo e a Cidade", "24", "Lost", "CSI", "Dr. House", e "Prison Break" foram séries absolutamente marcantes. Tanto é assim que houve críticos de cinema que admitiram que a ficção televisiva tinha suplantado, em qualidade e diversidade estética, o próprio cinema. As séries de televisão voltaram a ganhar um ritmo que captou novamente a atenção dos espectadores. E a isso deve-se, em grande parte, à ousadia de escrita dos guinistas de televisão: são os argumentistas que inovam verdadeiramente os conceitos televisivos; os actores e produtores dão o contributo para que o produto final seja de qualidade. Por isso não é de admirar que a actual greve dos argumentistas de Hollywood tenha causado tamanho burburinho e instabilidade profissional (há actores famosos no desemprego devido a essa greve).
Por agora, outra grande e ousada série inaugurou na televisão portuguesa (RTP2): "Dexter", emitda às quartas-feiras. É estar atento!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A arte do cartaz de cinema

Afinal, o marketing cinematográfico ainda revela rastos de originalidade. Refiro-me aos cartazes de cinema, outrora elementos insubstituíveis de promoção dos filmes. Com o advento da Internet e dos seus meios de divulgação virtual, o cartaz deixou de ser o veículo principal de publicidade fílmica. Mas no meio da profusão de cartazes que ainda vão sobrevivendo, há ideias que resultam porque fogem da vulgaridade e investem na criatividade. É o caso do próximo filme do veterano realizador Sidney Lumet (recebeu há quatro anos o Óscar Honorário pela carreira), com o sugestivo título “Before the Devil Knows You're Dead”. Apesar de contar com um elenco de luxo – Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Maria Tomei – nenhum dos actores surge no cartaz, como é prática comum dos grandes estúdios. O que surge é um grafismo simples e eficaz que joga com a própria natureza do título do filme, criando uma figuração física do Diabo com recurso às palavras. Não é um recurso gráfico inédito, mas resulta muito bem nesta situação. E há duas versões: uma com fundo negro e outra em branco. Não conheço ainda a data de estreia em Portugal. É que pelo trailer e pelas críticas internacionais, o filme promete mesmo.

O rizoma do conhecimento


Para além de ser um conceito originalmente oriundo da botânica (plantas cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto, sem hierarquias de evolução) rizoma é também conhecido pela apropriação que dele fez o filósofo Gilles Delueze. Actualmente o conceito de rizoma é também muito utilizado na teoria da comunicação e nos estudos de semiótica. Porém, rizoma é também um site/portal brasileiro único e original no ciberespaço: um espaço virtual de discussão sobre o que há de mais estimulante na cultura e no conhecimento actuais: cruza temáticas tão diversas como filosofia, música electrónica, política, cinema de vanguarda, performance, artes visuais e multimédia, televisão e mass media, literatura e todas as vertentes de cultura underground. Podemos encontrar ensaios sobre os filmes raros de Andy Warhol (imagem), de Guy Debord ou do Matrix. Ou textos delirantes e sugestivos como: “De Nietzsche ao Techno”, "Os Situacionistas e o Punk", “Esquizo-Música”, "neuropolítica" ou "ideologia das redes". Por lá podemos também encontrar um texto do ensaísta português José Bragança de Miranda, sobre "O Fim do Espectáculo" (devidamente "traduzido" para o português do Brasil). Os textos de análise são todos interessantes, os temas muito abrangentes e permitem um olhar atento às novas tendências do pensamento e das artes contemporâneas. Essencial. Ah! Ia-me esquecendo. Consultar aqui.

Cohen a caminho de Portugal


E por causa deste post, já chegámos aos 300 assinantes. E que tal mais 300, e 300?...

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Beijing 2008: logotipo subliminar?


Para recorrer a um lugar comum quando se fala de comunicação: há imagens que valem mais do que mil palavras.

Just Girls - são só raparigas


Será possível que os técnicos de marketing e de produção musical raramente tenham um fracasso? Foram os Excesso, os D'arrasar, os Sétimo Céu, os 4 Taste, os D'Zrt e agora as Just Girls. Todos estes grupos (grupos?) musicais encaixam na denominação de boys band (ou girls band, conforme o caso). Os produtores (com a NZ Produções à cabeça) sabem que são grupos extremamente efémeros e associados a êxitos televisivos orientados para teenagers. Mas sabem que se o trabalho for bem feito, consegue render muito dinheiro para a produtora (para os músicos já não sei). Contratam-se consultores de imagem e conselheiros de moda, fazem-se castings para angariar os jovenzinhos ávidos de fama warholiana, contratam-se músicos profissionais de estúdio para as gravações (não só instrumentais mas também vocais) e depois monta-se uma campanha comercial e mediática muito bem montada e com objectivos definidos. O produto quase sempre vende muito e bem, veja-se o êxito estrondoso dos Excesso (já lá vão dez anos), dos recém finados D'Zrt ou da banda do momento, as Just Girls (na imagem), saídas, como não podia deixar de ser, da série "Morangos com Açúcar - Geração Rebelde (!)". Este último grupo, li agora no Público, lidera há longas semanas o 1º lugar do top nacional de vendas de álbuns (60 mil discos vendidos), à frente de Mariza ou de Sérgio Godinho. Seria interessante analisar sociologicamente como se geram e desenvolvem estes fenómenos de moda passageiros, direccionados a um público que, as mais das vezes (faixa etária dos 10 aos 16 anos), ainda não tem maturidade intelectual suficiente para discernir entre os objectos estéticos de qualidade dos medíocres. São produtos formatados, moldados segundo o gosto massificado dos adolescentes, pop fácil e directa - quase sempre plagiada de êxitos oriundos de países estrangeiros. Banalidades atrás de banalidades sem fôlego artístico algum, concebidos unicamente para gerar receitas comerciais. Dir-me-ão os críticos desta posição: há toda a legitimidade para que os jovens consumam esta música, se é a que eles gostam, se é a que passa na rádio e na televisão. Resignamo-nos a alimentar o círculo vicioso? Claro, também há toda a legitimidade para que os jovens gostem mais do cinema "pop corn" Hollywoodesco do que cinema de autor, ou de literatura "light" em vez de literatura clássica. Depois não nos queixemos é dos índices de formação cultural dos jovens portugueses.

The Wire - a revista-referência


A revista inglesa The Wire tem sido, ao longo dos anos, um verdadeiro paradigma de qualidade jornalística no que se refere à divulgação das músicas de vanguarda. Uma referência internacional no jornalismo musical (está para a música como a revista francesa “Cahiers du Cinema” está para o cinema). De resto, é a própria revista que melhor se define com a máxima “Adventures in Modern Music”. Conheci muitas músicas, bandas, estéticas e compositores lendo a The Wire. Ler a Wire era um acto de descoberta, de fruição e prazer para acompanhar as últimas tendências criativas da música internacional. Actualmente, fico sempre frustrado quando a leio. A disponibilidade e o tempo para tal não são os mesmos. Depois, a diversidade e a quantidade de estéticas existentes hoje em dia, numa espécie de fusões tentaculares e múltiplas, tornam fastidioso o trabalho de acompanhar a actualidade. Há imensa música interessante a descobrir, há imensos artistas com propostas originais (não falo em inovadoras) que importaria conhecer. A Wire dá-nos a sensação que há bons músicos (jazz, electrónica, erudita contemporânea, rock) a tocar em clubes pequenos para meia dúzia de pessoas. Dá a sensação mas é mesmo verdade. No fundo, após ler a The Wire, ficamos com o gosto amargo de saber que é impossível fruir e conhecer todas as boas propostas artísticas que a revista promove. E a frustração instala-se. É como entrar numa boa livraria repleta de milhares de bons livros e sair de lá com apenas com um ou dois comprados.

Cahiers du Cinéma no Público


O Público vai lançar, a partir desta sexta-feira, uma aliciante colecção de 25 livros com DVD cada um. Trata-se da Colecção Cahiers du Cinema Grandes Realizadores. De Spielberg a Coppola, de Kubrick a Godard, de Fellini a Kurosawa. Começa com Charlie Chaplin com o filme “O Emigrante” mais quatro curtas-metragens. Esta colecção tem filmes seleccionados e analisados pela famosa revista de cinema francesa. Colecção de luxo imperdível para amantes da Sétima Arte (mesmo que já tenhamos muitos dos filmes em DVD, valerá sempre a pena pelos livros que acompanham as edições). E o preço? Uns singelos 3,99€ por cada lançamento. Parabéns Público.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Robert Capa - tesouro encontrado


A notícia, quase de rodapé, faz parecer que nem é importante. Mas é. Sobretudo para o mundo da fotografia. O Expresso informa que foi descoberto um verdadeiro tesouro fotográfico de Robert Capa (1913 - 1954), um dos mais influentes e importantes fotógrafos do século XX (mais conhecido como repórter de guerra). São três mil fotografias sobre a Guerra Civil de Espanha (como a que documenta este post) e que foram descobertas em três caixas no México. Capa foi autor de algumas das mais marcantes imagens da história bélica do século XX, como as célebres fotografias sobre o famoso desenbarque da Normandia. Esta descoberta vai certamente permitir um novo olhar sobre a carreira de um fotógrafo fundamental para a compreensão da memória colectiva do Ocidente.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Stephen Sondheim - a alma de Sweeney Todd


Confirma-se: "Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street", última obra de Tim Burton, é um portentoso objecto cinematográfico. A todos os níveis. Obra gótica (como tão bem nos habituou Burton) repleta de lirismo deliciosamente negro, e muito, muito sangrenta. A fotografia é espantosa, fazendo parecer Londres de finais do século com Gotham City de Batman. O arrojo formal do filme é apuradíssimo, e as interpretações são nada menos do que perfeitas. Claro que, tratando-se de um musical (género em quase total desuso hoje em dia), irá provocar resistência por parte do público menos acostumado. Mas é precisamente na vertente musical que "Sweeney Todd" cumpre todas as expectativas: Stephen Sondheim, o veterano e consagrado compositor do teatro musical americano, revela ser, como muito bem referiu Nuno Markl no seu blogue, o anti-Andrew Lloyd Webber (e dizer isto é atribuir elogios a Sondheim). E isso só significa que Sondheim é um compositor muitíssimo mais original e ousado, que foge como do Diabo da cruz das convenções e regras ortodoxas da composição para teatro. Não é por acaso que um dos melhores colaboradores de Tim Burton, o músico Danny Elfman, reclama como uma das suas principais influências o compositor de Sweeney Todd. Mas não é apenas com este filme que Sondheim se tem afirmado ao longo dos anos - compôs para filmes como "Reds", "Dick Tracy", entre muitas obras musicais apra teatro (e não esqueçamos que Sweeney Todd é baseado numa peça de teatro musical da Broadway).
Johnny Depp e Helena Bonham Carter, os protagonistas do filme de Burton, são actores-cantores que absorvem toda a energia musical de Sondheim e a transplantam para o grande ecrã com uma desenvoltura desarmante. Há momentos absolutamente deliciosos, de puro encantamento musical - mas também visual - com as orquestrações e arranjos de Sondheim a ecoarem pelas ruas escuras de Londres ou na medonha barbearia de Sweeney Todd. Como disse o veterano crítico de cinema do Expresso, Manuel Cintra Ferreira, "Sweeney Todd" é uma obra-prima para ver e rever."
Nota: E pensar que este filme esteve quase a ser encomendado a Sam Mendes (realizador) e a Russell Crowe (actor)!...

O respeito pela mãe


Preparados para a remistura?


Uma diversão é sempre uma diversão. Se meter música, melhor ainda. Conheçam o Bahianese le Mix - um combo de músicos estilo hawaiano que se converte num exercício simples e fácil para qualquer um de nós se tornar "músico". Basta clicar num instrumento/instrumentista para ele começar ou deixar de tocar. As combinações de instrumentos e as remisturas musicais são múltiplas. O ambiente musical é festivo e - tal como o título e a imagem sugerem - apela a ambiente de praia, sol e palmeiras. A experiência esgota-se ao fim de cinco minutos, visto que o resultado desta interactividade acaba por ser, acima de tudo, fugazmente divertido. Let's party!

Ingreme - o factor criatividade


Há uns tempos falava aqui da crescente qualidade da publicidade portuguesa. Alguma dessa publicidade televisiva de qualidade tem o carimbo da Ingreme, uma empresa criativa especializada em pós-produção para anúncios, videoclips e televisão. Tudo num contexto de trabalho em animação 3D e efeitos digitais. De resto, a qualidade e a criatividade começa logo no site da Ingreme, vencedor de diversos prémios e em várias categorias. É um mimo de criatividade interactiva e engenho visual, em que um robô nos conduz a todas as características do site (atenção aos pormenores visuais e à sonoplastia!). Aqui.

Divertimento vs. sanidade mental


"Se um homem quiser ocupar-se incessantemente de coisas sérias e não se abandonar de vez em quando ao divertimento, fica, sem perceber, louco ou idiota."
Heródoto

O Lado Selvagem e o ensejo de liberdade


“O Lado Selvagem” é o último filme de Sean Penn. O protagonista, um jovem americano filho de família burguesa e rica, deixa tudo para trás (após a conclusão do curso universitário) para empreender uma viagem libertária até ao Alasca. Impulsionado por leituras de Jack London e sobretudo Thoreau, o idealista Christopher McCandless refuta todos os valores da sociedade consumista, rejeita a vida mundana e mesquinha, no sentido de partir sozinho para uma viagem em contacto com a natureza, à procura de um sentido existencial. Partindo da adaptação do best seller "Into the Wild", de John Krakauer, Sean Penn filma esta aventura verídica de forma despojada e directa, sem moralismos. O espírito rebelde e lírico de Christopher foi incensado por certos movimentos libertários que advogam a reclusão extrema da civilização como via para uma purificação da alma, em sintonia com a natureza.
No afã da vida citadina e conturbada, possuída por uma espécie de máquina devoradora do tempo e do prazer, quem nunca sentiu, ainda que fugazmente, o ensejo súbito de empreender uma viagem como a do protagonista de “O Lado Selvagem”?

domingo, 3 de fevereiro de 2008

The Jesus & Mary Chain - a herança de um disco


João Lisboa conta no último Expresso que Stephen Merritt, músico, compositor e cantor em distintos projectos - Magnetic Fields, Gothic Archies ou The 6ths - diz o seguinte a propósito do disco "Psychocandy" (1986) dos The Jesus & Mary Chain: "Na minha opinião, desde 1986, não se passou mais nada, as coisas não progrediram, não foi dado qualquer passo em frente. Tudo o que daí em diante aconteceu tinha já acontecido em 1986."
Há um evidente exagero nas palavras de Merritt. Mas há, de igual modo, um fundo de verdade. Passaram 20 anos e não houve assim tantos discos absolutamente originais, a quebrar barreiras na linguagem rock, como este primeiro espantoso álbum dos irmãos escoceses Jim e William Reid. Claro que "Psychocandy" absorveu a estética devedora dos Velvet Underground e de Glenn Branca, com os riffs noise das guitarras e o feedback sujo dos amplificadores. Mas a originalidade do som dos Jesus and Mary Chain advem sobretudo da fusão entre a melodia doce com as batidas minimais e o ruído sónico. Uma pulsão libertária que estilhaçou o conceito vulgar de canção rock e deitou por terra a linha ténue entre o que é ruído e o que é melodia de textuta pop. Os Mary Chain fizeram parte da geração de ouro das bandas de guitarras dos anos 80: Dinaussaur Jr, Rapemen, My Bloody Valentine, Fugazi, Jane's Addiction, Pixies, Sonic Youth, Husker Du, entre outras.
Sobre este disco tenho uma história curiosa. Lembro-me de ter o vinil a tocar no meu quarto e estar um amigo meu pouco conhecedor do rock alternativo em geral e dos Jesus ans Mary Chain em particular. As canções de "Psychocandy" tocavam alto, ruidosas e num frémito de pura energia sónica. De repente, reparo no meu amigo a mexer no equalizador da aparelhagem de som. Perguntei-lhe o que estava a fazer. Respondeu-me: "este disco parece estar estragado, estou a tentar diminuir o ruído". Verídico.
Última curiosidade para dizer que um tema de "Psychocandy" - a belíssima canção "Just Like Honey" - surge no final do filme "Lost in Translation" de Sofia Coppola. na verdade, Sofia Coppola acertou na mouche para documentar, musicalmente, aquele final de filme.

Um carnaval negro


"Dark Carnival" é um livro que pretende levantar o véu sobre um dos mais enigmáticos e bizarros realizadores de Hollywood: Tod Browning, criador dos incontornáveis "Freaks" (1932) e "Dracula" (1931, com Bela Lugosi). Um ídolo que influenciou gente como Ed Wood ou Tim Burton. Pode ler-se mais aqui.

O terror é belo


O filme de terror é um género que acompanha a evolução da história do cinema até aos nossos dias. Alguns dos grandes filmes de sempre da história do cinema incluem-se precisamente neste género (só para citar três: "Nosferatu", "Psico" e "The Shining"). Na última década, houve altos e baixos na produção destes filmes, mas nos últimos 5 anos, a colheita até foi proveitosa com filmes de grande qualidade que contribuiram com ideias novas para a revitalização do género: os excelentes "A Descida" (2005) de Neil Marshall e "Wolf Creek"(2005) de Greg Mclean ou o primero filme da série "Saw" (2004).
E se quisermos olhar para toda a história do cinema, quais os melhores filmes de terror de sempre? Quais os 100 melhores? E os 10 melhores de sempre? Esta lista dá a resposta - ou uma resposta possível, conforme a sensibilidade de cada espectador. Entremos no universo das emoções terroríficas!

Karajan & Bernstein: duelo de titãs


Na área da música erudita, este ano vai ser o ano Karajan, dado que se comemoram os 100 anos do seu nascimento (5 de Abril 1908). Herbert von Karajan (imagem a cores) foi um dos maiores maestros da segunda metade do século XX, impondo uma personalidade artística e um carisma pessoal indesmentíveis. O seu grande rival, ou pelo menos, a sua figura que lhe poderia fazer sombra em termos de projecção artística, era o não menos grandioso Leonard Bernstein (imagem a preto e branco). Karajan e Bernstein foram certamente os maestros mais populares e mediáticos e contribuiram grandemente para a divulgação da música clássica.
Há uns anos contaram-me uma história com estes dois protagonistas. Não sei se é verídica ou se tem contornos de lenda, seja como for, não deixa de ser uma história saborosa. Conta-se que um dia Karajan e Bernstein se encontraram e, no meio de trivialidades de circunstância, travaram este diálogo:
- Karajan: Sabe meu caro Bernstein, toda a gente se pergunta quem é o melhor maestro do mundo.
- Bernstein: Pois acredito que sim.
- Karajan: E eu já sei quem é.
- Bernstein: Não me diga! Como pode saber uma coisa dessas?
- Karajan: É que hoje, durante as minhas orações, falei com Deus e perguntei-lhe directamente quem era o melhor maestro do mundo e ele disse-me que era eu!
- Bernstein: Ai sim? Não me lembro de lhe ter dito nada disso!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O terror do optimismo


"A verdadeira razão por que todos nós pensamos tão bem dos outros é que todos temos medo de nós próprios. A base do optimismo é o puro terror. Julgamos que somos generosos porque atribuímos ao nosso vizinho a posse daquelas virtudes que pensamos poderem vir a beneficiar-nos. Louvamos o banqueiro para podermos exceder o nosso crédito, e encontramos bons princípios no assaltante na esperança de que nos poupe as carteiras. Acredito em tudo o que disse. Tenho o maior dos desprezos pelo optimismo".
Oscar Wilde

Carnaval marxista

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Woody Allen filósofo


Há uns tempos foi editado o livro "O Que Sócrates Diria a Woody Allen", um interessante livro que analisava as relações entre as questões universais da filosofia com o cinema - partindo precisamente da obra do cineasta de "Match Point". Agora sai para as bancas um livro cujo título resume tudo: "A Filosofia Segundo Woody Allen". Ou seja, filósofos e ensaístas pegaram na filmografia de Woody Allen e extrairam-lhe todos os ensinamentos filosóficos para uma análise e contextualização filosófica. Desde o início da sua carreira que Allen revela um especial interesse em dissecar os grandes enigmas da vida sob o ponto de vista filosófico (vida, morte, amor, religião, sexo, incomunicabilidade). A sua veia filosófica é a de um existencialista ateu, amaldiçoado pelas obsessões terrenas, dúvidas e temores, usando o humor como ferramenta cirúrgica para debelar o seu espírito atormentado. Nos seus filmes, sejam nas comédias, sejam nos dramas ditos sérios, perpassa sempre um "mal de vivre", uma busca incessante pelo sentido da vida num mundo que é, todo ele, imperfeito e cruel de A a Z. O pessimismo de Woody é militante e irreversível, como o de um Schopenhauer ou de um Cioran, mas no seu espírito pessimista reside muita da sua força criadora. O optimismo nos filmes de Woody Allen é fugaz, efémero como uma bola de sabão. Recordo uma cena de "Hanna e Suas Irmãs": o personagem interpretado por Allen pressente que tem cancro. Vai ao médico que lhe garante que nada tem. Sai do consultório a pular de contente porque está bem de saúde. De repente pára e o seu entusiasmo desvanece até ao abismo e volta ao estado de espírito depressivo. Pensa: "mas porque raio estou contente? Não estou doente agora mas vou acabar por morrer à mesma!" (cito de memória).
Na realidade, no filmes de Woody Allen (já para não falar dos seus livros), existem centenas de alusões a questões filosóficas, centenas de referências a escritores, pensadores, filósofos, poetas. Houve outros cineastas filósofos, como Bergman, Tarkovski, Wenders ou Dreyer, mas Woody Allen desenvolveu uma identidade única, uma sensibilidade que diz tanto aos pensadores mais especializados como ao cidadão comum. É esta característica - para além da sua linguagem trágico-cómica e do seu enorme talento criativo - que fazem de Woody Allen um dos poucos autores geniais do nosso tempo. A cultura de Woody é quase enciclopédica e demonstra-o em muitas das suas obras. Revela-o abordando as mais diversas questões; das terranas (sexo, literatura) às complexas (metafísica, religião). E dessa forma interpela o espectador, obrigando-o a uma auto-reflexão. Porque os problemas existenciais de Allen são, quer queiramos quer não, os mesmos que os nossos, vulgares terráqueos que um dia vão morrer sem ter percebido porque raios passaram por este mundo.

Videodrome - a metáfora do terror televisivo


“Videodrome” (1983) é porventura o filme mais radical de David Cronenberg. Uma mistura explosiva entre elementos de ficção científica, terror, sexo, violência e surrealismo. Uma crítica avassaladora da sociedade dominada pela massificação agressiva da televisão. Vísceras, alucinações, terror psicológico, mutações do corpo – o corpo como prolongamento da tecnologia. É um dos primeiros filmes a questionar o papel da televisão na sociedade moderna, num registo de visão exacerbada de como o ecrã pode manipular a mente humana. “Videodrome” é uma alegoria da caverna platónica, um campo de jogo em que o lado negro e aterrador assume proporções irreais e terríveis. O que é real e o que é imaginado? A televisão como religião manipuladora (não falta um pregador que anuncia uma nova etapa da evolução humana através de raios catódicos emitidos por um canal de televisão - Videodrome). Esse pregador medonho chama-se Brian O’Blivion (esquecimento) e o seu discurso profético é esclarecedor:
“A tela da televisão é a retina da mente. Portanto, a tela da televisão é parte da estrutura física do cérebro. O que aparece na tela da televisão surge como pura experiência para aqueles que assistem. Portanto, a televisão é a realidade e a realidade é menos do que a televisão. Acho que doses maciças do sinal do Videodrome criarão um novo desenvolvimento do cérebro humano, que produzirá e controlará a alucinação a ponto de mudar a realidade humana. Afinal, não há nada real, além de nossa percepção da realidade."
Estas observações dariam pano para mangas de análise numa cadeira de sociologia ou filosofia da comunicação.

Uma coisa não tem a ver com a outra


"Não quero que digam que só tive este papel porque dormi com o realizador".
Helena Bonham Carter (a propósito de "Sweeney Todd")