quinta-feira, 15 de maio de 2008

A história do clichê cinematográfico


Mesmo quem não seja cinéfilo e apenas espectador regular de cinema sabe que os clichês são recorrentes nos filmes. Parece mesmo que, sem eles, os argumentistas não podiam viver (bem, nem todos). Por exemplo: quantas vezes não vimos já a típica cena de alguém que entra num carro porque vai a fugir de outro alguém e... o carro não pega? Ou a cena em que o assassino parece que já morreu baleado com 23 tiros mas volta a levantar-se para aterrorizar a vítima (uma vez mais)? Ou o personagem bom que quer matar o mau e fica sem balas nesse preciso momento? Como estes, há milhares de outros clichês que fizeram - e continuam a fazer - a história do cinema - para o bem e para o mal. O site que está em baixo é um manual impressionante de lugares-comuns e chavões no cinema, vistos e revistos, gastos e recorrentes. Clichês da história, clichês visuais, de interpretação, de realização, enfim, para todos os gostos. Alguém teve a paciência de os compilar por temas. Claramente um site para qualquer aspirante a argumentista de cinema saber evitar (ou reformular, quem sabe) os clichês da história.

O café dos artistas (e não só)


O que têm em comum Camus, Picasso, Apollinaire, Artaud, Sartre, Simone de Beauvoir e Tristan Tzara? Para além de todos serem grandes figuras da arte e da cultura, todos foram clientes assíduos do mais mítico e elegante café de Paris: Café de Flore, em Saint-Germain-des-Près. Francis Ford Coppola disse um dia que o seu sonho era viver neste bairro francês para assim poder tomar o pequeno-almoço todos os dias no Café de Flore. Foi neste café que, durante décadas, dezenas de pintores, intelectuais, escritores, estilistas, actores e outros artistas se encontravam num ambiente de tertúlia (na bela esplanada ou no interior requintado). Dizia-se que houve tempos em que o café tinha mais artistas em convívio do que garçons a servir à mesa.
Em Portugal extinguiram-se os últimos cafés com tradição, bom gosto, espaços de conversa e tertúlia, de convívio à volta de uma bebida e de um jornal. Fernando Pessoa, Almada Negreiros ou Luiz Pacheco viveram grande parte das suas vidas em cafés (Martinho da Arcada, por exemplo) e criaram muita das suas obras nesses cafés. Hoje já não existem cafés com carisma, personalidade, abertos à discussão das artes e da cultura. Por isso o Café de Flore é uma referência incontornável deste tipo de vivência e de modo de estar, não só de Paris, mas de toda a Europa. Aberto desde o final do século XIX, este café de culto continua a fascinar meio mundo, das artes à moda, do desporto ao cinema, da figura pública ao cidadão comum. A última vez que estive em Paris (há 5 anos) não tive oportunidade de por lá passar. Não falharei a visita da próxima vez.

Leonard Cohen em livro


O mais recente livro de poesia do músico Leonard Cohen, intitulado "The Book of Longing", vai ser editado em Portugal no próximo mês de Julho com o título "O Livro do Desejo", numa altura em que o cantor vai actuar ao vivo em Portugal no próximo dia 19 de Julho. O compositor Philip Glass já tinha composto músicas com base nos poemas de Cohen, no magnífico álbum intitulado, precisamente, "The Book of Longing" (2007). O seu primeiro livro, "Let Us Compare Mythologies", foi publicado em 1956. Com "The Spice Box on Earth", em 1961, Leonard Cohen torna-se internacionalmente reconhecido. Seguir-se-ão os livros "Flowers for Hitler" (1964) e "Beautiful Losers" (1966).
Em 1985 foi editado aquele que seria o primeiro livro de poemas de Leonard Cohen publicado no nosso país: "Filhos da Neve", na colecção Rei Lagarto da Assírio & Alvim, com tradução de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê. A edição deste novo volume de letras e poemas do cantor de "Marianne" só vem acalentar, por isso, a carreira musical e literária do cantor canadiano.
Uma excelente notícia, portanto.

"A generala"

Melhor capa de todo o sempre?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Discos que mudam uma vida - 15


Virgin Prunes - "...If I Die, I Die" (1982)

A importância do desenho


Fernando Lemos, pintor surrealista, artista gráfico, fotógrafo e poeta português emigrado no Brasil desde 1953, deu uma entrevista ao Jornal de Letras. A dado momento, faz esta observação: "O desenho está em tudo. A escrita é feita de palavras, as palavras e as letras de desenho. O desenho escreve, inventou as letras para se exprimir. Uma das grandes falhas na educação é não se obrigar as crianças a desenhar na escola, tal como se escreve. É a mesma coisa, sendo que o desenho é uma linguagem universal. Quando ouço alguém a dizer 'desculpe mas não sei desenhar', é como se dissesse, 'desculpe, mas sou analfabeto".
Descontando o tendencioso exagero da afirmação, convenhamos que o pensamento do artista faz muito sentido num sistema de educação que não valoriza a expressão individual, a criatividade e, em última análise, o sentido estético e a arte.

O dia em que fui a Cannes (ou quase)


Hoje tem início a 61ª edição do Festival de Cinema de Cannes. O mais competitivo, mediático e afamado festival de cinema do mundo. Existem os prestigiados festivais de Veneza, Berlim, Sundance, mas nenhum se compara, em importância e glamour, ao de Cannes. E não há realizador no mundo, novato ou veterano, que não gostasse de ter os seus filmes a concurso neste festival ou, claro, ganhar a Palma de Ouro. Claro que Cannes é, também um mundo inesgotável de negócio (que o diga Paulo Branco) e de comércio, mas isso faz parte da essência de qualquer festival. Claro que também há frivolidades andantes, figuras públicas e estrelas de pacotilha que se pavoneiam pela carpete vermelha. No entanto, o cerne de Cannes sempre foi e será o cinema, os filmes, os artistas. Isso é que fica para a posteridade.
Poucos serão os cinéfilos que não gostariam de poder assistir ao festival. Sentir o frémito e as emoções resultante do visionamento dos grandes filmes a concurso, partilhar os aplausos ou os apupos aos filmes, assistir às concorridas conferências de imprensa com realizadores e actores, sentir o ritmo frenético da exibição dos filmes em catadupa, as várias secções competitivas, etc.
Foi o que tentei fazer um dia, ir a Cannes - através de um concurso nacional. Foi em 1990 e o concurso, designado, "Sê um Crítico de Cinema e vai a Cannes!" (cito de memória) era dinamizado pelo Instituto Português da Juventude. A coisa funcionava de forma muito simples: qualquer jovem com menos de 25 anos podia participar; bastava ver um filme que na altura estivesse em cartaz e escrever uma crítica ao mesmo. Os autores das 20 melhores críticas nacionais eram seleccionados para irem a Lisboa verem outro filme, outra crítica e, a melhor considerada pelo júri, tinha como prémio ir ao festival de Cannes durante dois dias (ou três, já não me recordo) com todas as despesas pagas.
Fui seleccionado para os 20 participantes de Lisboa com a crítica ao filme "Presumível Inocente" (1990) de Alan J. Pakula (com Harrison Ford), um muito interessante thriller que marcou aquele ano de cinema. Lá fui a Lisboa para a competição final, sempre com Cannes em vista. Cheguei numa sexta-feira. Logo nessa noite, eu os restantes concorrentes decidimos assistir a uma sessão num sítio óbvio, a Cinemateca. Recordo-me que vimos um clássico mediano do Raoul Walsh. O grupo de concorrentes era constituído por jovens estudantes de todo o país, e a única coisa em comum entre todos era a paixão pelo cinema. No sábado seguinte, logo de manhã, eu os outros 19 participantes oriundos de todo o país, fomos visionar o filme para a crítica final que iria decidir quem iria a Cannes. Era um filme tão medíocre e comercial que já nem me lembro que objecto era aquele. As críticas foram entregues ao júri que deliberou no dia seguinte. Quem ficou em primeiro lugar foi um jovem de Lisboa que ganhara o privilégio de conhecer Cannes. Eu fiquei em 4º ou 5º lugar e tive direito a um prémio de consolação: um bilhete para assistir ao Estoril Open! Como não gosto de ténis, despachei logo o dito cujo para outra pessoa interessada. Ir ao Estoril Open em vez de ir a Cannes era consolação para quem quer que fosse?
Foi a única vez que estive perto de ir a Cannes, por intermédio de um concurso juvenil, imagine-se. Talvez um dia programe umas férias em Maio na Côte d'Azur para servir de pretexto para conhecer o festival.

A arte de cortar e colar imagens




Na linguagem cinematográfica a montagem é uma técnica absolutamente essencial para dar coerência estrutural ao filme. A interligação e relação entre planos num filme é determinante para o resultado estético do mesmo. Depois do avanço dado em 1915 pelo percursor David Griffith com a montagem paralela ("Nascimento de Uma Nação"), seriam os russos a desenvolver a montagem de forma definitiva. Serguei Eisenstein, Dziga Vertov, Kuleshov (é célebre o "efeito Kuleshov") ou Pudovkin foram cineastas que exploraram todas as dimensões expressivas e comunicacionais da montagem.
Nos últimos 20 anos há um nome incontornável que domina a arte da montagem: Thelma Shoonmaker, montadora quase exclusiva dos filmes de Martin Scorsese. Ganhou três Óscares pela Melhor Montagem nos filmes "Touro Enraivecido"(1981), "O Aviador" (2005) e "The Departed" (2007). A capacidade de Shoonmaker em perceber a duração certa de cada plano, o rigor métrico e o sentido ritmo da montagem são características da melhor montadora da actualidade. No site mais abaixo referenciado podemos ver uma lista (das muitas possíveis) das 10 melhores montagens para cinema. Vale a pena ver com atenção o fluir de cada sequência e perceber a forma como cada montador/a estruturou essas mesmas montagens. Não faltam os clássicos incontornáveis ("Couraçado Potemkine", "Touro Enraivecido"...), mas é surpreendente visionar o filme referente ao primeiro lugar da lista. Dez exemplos maiores da arte de cortar e colar as imagens do cinema:

Arcade Fire no cinema

Lembra-se deste filme?

"Donnie Darko" (2001), um dos mais singulares filmes independentes e de culto desta década. Realizado por um novato Richard Kelly, este filme constituiu uma lufada de ar fresco naquilo a que se desingnou chamar "filme de adolescente". Um filme assaz surrealista e provocador e tendo como tema central um adolescente que sofria de visões bizarras que condicionavam o seu comportamento. "Donnie Darko" serviu de rampa de lançamento para o actor Jake Gyllenhaal, que viria mais tarde a projectar-se como co-protagonista do filme "Brokeback Mountain". Para além de uma realização segura e uma história original, o filme de Richard Kelly tinha outra virtude: a excelente e muito apropriada banda sonora adaptada: Joy Division, Echo & The Bunnymen (o filme começava ao som de "The Killing Moon"), Oingo Boingo (a ex-banda de Danny Elfman), etc.
Serve isto para dizer que o realizador Richard Kelly convidou os Arcade Fire para comporem a música original do seu novo filme "The Box" (com Cameron Diaz e Michael Madsen nos principais papéis). A isto se chama extremo bom gosto e lucidez artística.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Rauschenberg


(1925 - 2008)
"It's so easy to be undisciplined. And to be disciplined is so against my character, my general nature anyway, that I have to strain a little bit to keep on the right track."

Spielberg vs. Ford?


Steven Spielberg vai realizar um filme sobre a vida do 16º Presidente da América, Abraham Lincoln. Tudo bem. A minha dúvida metódia é esta: será que vai chegar aos calcanhares do filme de John Ford, “A Grande Esperança” (“Young Mr. Lincoln", 1939), com um soberbo Henry Fonda no papel de Lincoln? Veremos.

A música corresponde à capa do álbum?



Ora aqui está um site absolutamente delicioso: as piores 150 capas de álbuns de toda a história da música. Um manual para todo o designer gráfico evitar. Ou talvez não. Falar em mau gosto ou no kitsch é redundante. Por aqui há capas de álbuns (de artistas obscuros e outros afamados) que raiam a extrema paranóia alucinogénica (pesei bem as palavras). Se as capas são deste calibre, imagino o conteúdo musical. Como diria Marlon Brandon no "Apocalypse Now": "The horror, the horror...". Só que é um horror extremamente divertido.
Este link vai direitinho para as 50 piores capas de sempre. Quem tiver coragem, que veja as outras 100 da lista.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Julianne Moore na pintura


"Madame X" de John Singer Sargent

"Debilitada" de John Currin
"Mulher com Leque" de Amadeo Modigliani
"Adele Bloch-Bauer I" de Gustav Klimt
Produção fotográfica para a revista Harper's Bazaar, na qual a actriz Julianne Moore encarna mulheres na pintura. Fantástico.

Aviso à navegação


Acaba de ser libertado da prisão este senhor. Chama-se Mário Machado: líder da Extrema-Direita e do movimento ultra-nacionalista, neo-nazi, skinhead, leitor compulsivo do "Mein Kampf", adorador de Hilter, Himmler, Rudolf Hess e Goebbels, racista, xenófobo, defensor do Holocausto e armado com armas brancas e caçadeira de canos serrados. Tenham medo, tenham muito medo.

Para nostálgicos militantes


Quem nunca se sentiu nostálgico em determinado momento da vida? E nostalgia não é o mesmo que saudosismo. Saudosismo é sentir falta permanente do passado e viver amargurado com o presente. Ser-se nostálgico é gostar de reviver, momentaneamente, as coisas do passado com o coração mas com a cabeça assente no presente instante. Por qualquer motivo, descobri um site que faz militância das referências do passado, designadamente, do passado situado entre 1950 e 1990. Cinco décadas que são profusamente abordadas por tópicos: música, filmes, televisão, cultura, história, moda, desporto, tecnologia, etc. Esse site intitula-se, muito apropriadamente, Central Nostalgia, e lá podemos encontrar (quase) tudo o que foi importante, em cada categoria, nos anos 50 aos 90 do século passado. É uma arca de recordações ilustrada, uma espécie de wikipedia das referências passadas que marcaram a cultura popular da vida dos nossos pais e avós (e de nós próprios, conforme a idade de cada um).
Vale a pena fazer uma viagem nostálgica começando aqui.

13 de Maio

A 13 de Maio
Na Cova da Íria
Apareceu brilhando
A Virgem Maria

domingo, 11 de maio de 2008

Britney Spears recupera ao som de Radiohead


É a notícia do dia no mundo musical: Britney Spears foi vista a sair de um ginásio em Los Angeles com o último CD dos Radiohead, "In Rainbows", na mão! Finalmente, a cantora que um dia beijou Madonna, encontrou uma forma de relançar a sua carreira, ao mesmo tempo que impulsiona, ainda mais, as vendas do disco "In Rainbows" Terá sido manobra de marketing concertada entre os agentes de Britney e dos Radiohead?
PS - Imagine-se se Britney Spears fosse vista com um CD dos Einstürzende Neubauten...

Mr. Bean minimal e repetitivo


Qual é a lógica da RTP em insistir, Domingo após Domingo, na transmissão dos mesmos episódios da série Mr. Bean? Há longos meses que a programação da RTP ao meio-dia é sempre a mesma: um episódio do personagem criado e interpretado por Rowan Atkinson. Sabendo que a série esteve originalmente no ar entre 1989 e 1995, o número de episódios disponíveis é bastante limitado. Ora, a RTP programa os mesmos episódios ("Mr. Bean Goes to Town", "Mr. Bean in Room 426", "Mind the Baby, Mr. Bean", etc), já vistos e revistos à saciedade. Sempre ao Domingo, sempre às 12h30. No próximo Domingo não percam a emissão, pela enésima vez, de mais um velho e repisado episódio de Mr. Bean. É tão certo como a morte e o pagamento de impostos.

Negativland - desconstruir para criticar


O mítico grupo norte-americano Negativland vem a Portugal pela primeira vez actuar no Porto em Serralves (dia 18) e em Lisboa (dia 17). Conheci o trabalho dos Negativland com a edição do álbum "Escape From Noise" (1987), um disco que subvertia os cânones da criação musical ao manipular fontes sonoras alheias. A crítica à religião já estava explícita nesse álbum, com o polémico tema "Christianity is Stupid". O mundo da publicidade, da cultura de massas e suas múltiplas formas de expressão foram objecto de desconstrução pelos Negativland. O conceito de "direito de autor" também foi cilindrado (polémica com os U2). Juntamente com os Residents, os Negativland constituem a referência do experimentalismo vindo dos EUA.
Entretanto, no dia dia 16 de Maio, no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Mark Hosler (na imagem), elemento fundador do grupo, vai dar uma conferência no âmbito do ciclo "Reflexões Sobre o Social". O Expresso deste Sábado traz uma interessante entrevista (conduzida pelo jornalista João Lisboa) ao próprio Mark Hosler. Ficamos a saber que a performance que os Negativland vão fazer em Lisboa e no Porto, intitulada "It's All in Your Head FM", se centra na forma como a religião e a fé condicionam os mecanismos de acção e consciência humanas. O título e o conteúdo da performance baseiam-se num programa de rádio sobre religião que existe em Berkeley. Uma crítica que se espera extremamente mordaz e frontal. Mark Hosler refere na entrevista: "Nos EUA, nestes últimos anos, a religião tornou-se um tópico extremamente presente nos media e, curiosamente, de um ponto de vista muito crítico. Subitamente, parece existir pela primeira vez uma vontade e uma nova liberdade pra criticar a religião sem se ser amaldiçoado pela população em geral. As pessoas começaram a reparar mais nos efeitos perniciosos da religião, que sempre existiram, mas que agora são muito mais evidentes."

Rock e fotografia


Esta fotografia é da autoria de uma estrela rock. Bryan Adams. Apesar de não gostar da sua música, acho interessante o seu trabalho fotográfico. Paralelamente, sugiro uma espreitadela ao site da American Photo, o qual apresenta uma secção intitulada "Visions of Rock". São músicos da área do rock que apreentam ao mundo as suas fotografias: Lou Reed, Patti Smith, Michael Stipe, Andy Summers, Perry Farrell, Graham Nash, Lenny Kravitz e, claro, Bryan Adams. Algumas destas fotos devem contar boas histórias...

sábado, 10 de maio de 2008

Adeus definitivo?


Gwyneth Paltrow anunciou a sua retirada definitiva do cinema. Aos 36 anos, a vencedora do Óscar de Melhor Actriz por "Shakespeare in Love" (1999), diz-se farta da pressão do showbizness e dos paparazzi e quer dedicar-se à família. Será bluff ou manobra de marketing?

Santogold


Certa crítica nacional de música anda empolgada com o disco de estreia de Santogold (cognome artístico de Santi White). Não me parece que haja assim tantos motivos para regozijo e elogio estético ao referido objecto. Diz-se que Santogold é um sucedâneo da M.I.A., relação que até tem razão de ser. O universo musical entre ambas artistas é assaz similar, com abordagens à pop descontrutivista, com fusões de funk, dub, electro e hip-hop. "Santogold" tem dois ou três temas realmente muito bons, mas em 16 é dizer pouco. Falta-lhe mais ousadia formal, mais insinuações experimentais para fugir a um certo estereópito estrutural a que não consegue fugir. Mas será de certeza um álbum mais interessante e arrojado do que o último da Madonna, por exemplo...

E não se podem exterminar?


- Chega de "ef-erre-ás" e "xi-ri-bi-tá-tá-tá-tás!
- Chega de capinhas, fatinhos, sainhas e chapéuzinhos!
- Chega de Quim Barreiros e Xutos e Pontapés!
- Chega de pimbalhada e boçalidade!
- Chega de falso espírito académico!
- Chega de guerrinhas histéricas entre cursos!
- Chega de comas alcoólicos e bebedeiras hercúleas!
- Chega de figuras tontas e deprimentes!
- Chega de pretensa superioridade académica!
- Chega de serenatinhas e tunazinhas irreverentes!
- Chega de associações académicas inúteis!
- Chega de universitários ignorantes e mal-educados!
- Chega de festas académicas previsíveis e repetitivas!
- Chega, chega, chega!

Hitler, outra vez


Depois do filme "A Queda" sobre os últimos dias de Hitler no bunker de Berlim, , eis que surge um novo filme sobre o ditador alemão. Trata-se de um filme em que Adolf Hitler surge retratado como um artista falhado em Viena. Os historiadores referem que foi devido ao seu falhanço como pintor que o motivou a seguir a carreira política. Consta-se que o filme será uma espécie de comédia e estreará no próximo ano na Alemanha. A ver vamos.
Entretanto, o facto mais importante referente a Hitler e à Segunda Guerra Mundial é este: morreu há dias o último sobrevivente do grupo que tentou matar Hitler em 1944 com a operação "Valkyrie", cuja adaptação ao cinema está a ser ultimada como referi neste post. Esse último sobrevivente chamava-se Philipp von Boeselager (na imagem), era um oficial Nazi que se revoltou contra a política de extermínio nazi de Hitler, tinha 90 anos e teve nas suas mãos a possibilidade de assassinar a tiro Hilter numa determinada ocasião. Depois, integrou o grupo que liderou a conspiração para matar Hilter à bomba, operação liderada pelo general Claus von Stauffenberg (no filme de Bryan Singer este general é interpretado por Tom Cruise). O atentado falhou, e dos responsáveis pela operação "Valkyrie", Boeselager foi dos poucos que sobreviveu, tendo-se escondido e refugiado da predadora Gestapo. Boeselager viveu o resto dos seus dias obcecado com a ideia de que podia ter mudado o rumo da história quando teve oportunidade de matar Hilter: "vejo Hitler a menos de um metro de mim e penso: deveria ter disparado." As decisões de uns meros segundos poderiam ter ditado a alteração radical do rumo da guerra e Philipp von Boesalager teve nas mãos essa possibilidade. A comunicação social também perdeu a oportunidade de falar deste facto e de lembrar a heroicidade de homens que não se submetem ao jugo paranóico de outros homens. No entanto, praticamente ignorou a morte deste resistente. Seria uma boa forma de lembrar a opinião pública de que o Holocausto foi há pouco mais de 60 anos. Há tão pouco tempo que só há dias morreu o último sobrevivente dos oficiais alemães que tentaram assassinar Hilter.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Manuela Moura Guedes - regresso em grande estilo


A notícia é - imagine-se - capa do Público de hoje: Manuela “Foram-Cardos” Moura “Foram-Rosas” Guedes vai voltar a apresentar o Jornal Nacional da TVI. A jornalista que se julga a personificação de um jornalismo aguerrido e irreverente volta a ser o pivô principal da estação de televisão privada. Bingo. Era a solução que a TVI precisava para aumentar as audiências. Os famosos trejeitos da apresentadora, os esgares faciais e os comentários abstrusos sobre as notícias que vai veiculando, são os ingredientes que podemos esperar para dar colorido e expressão à informação. A piscadela de olho, os sorrisos matreiros e o abanar da caneta de José Rodrigues dos Santos vão ter concorrência à altura a partir de hoje. Como sabemos, o tratamento da informação na televisão já anda pelas ruas da amargura – tudo se resume ao espectáculo e à frivolidade. Agora, com o contributo inestimável da Moura Guedes, a fasquia da boçalidade vai aumentar um bocadinho mais. Ou talvez um bom bocado mais. Ou não fosse a esposa de Eduardo Moniz capaz de nos surpreender e superar as expectativas mais elevadas.

Salas vazias e o futuro do cinema


O cinema na sala escura continua em acentuada queda em termos de frequência. Veja-se a mais recente estatística referente ao mês de Abril: segundo dados do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), as salas de cinema registaram uma quebra de 43,1% nos espectadores.
No mês passado, a afluência às salas cifrou-se em 842.376 espectadores, menos 638.456 do que no mesmo mês em 2007. Por outro lado, nos primeiros quatro meses do ano foram vendidos 5.064.791 ingressos, menos 196.476 do que no período homólogo. Para resumir: em média, as salas de cinema perderam 1.624 espectadores diários no primeiro quadrimestre deste ano.
Ou a indústria do cinema se adapta rapidamente às novas formas de consumo de filmes e à pirataria (oferecendo propostas como o 3D, baixando o preço dos bilhetes, explorando o filão do digital...), ou prevê-se que dentro de 5 a 10 anos, as salas de cinema tal como as conhecemos actualmente, deixarão de existir. Como vai ser a distribuição e fruição do cinema no futuro? Simples: com o aumento gradual da velocidade de acesso à Internet e pagamento pelos conteúdos, a tendência vai ser as distribuidoras de cinema disponibilizarem online o download dos filmes após o pagamento de determinada quantia (já houve experiências nesse sentido). Ou seja, o espectador terá acesso directo à distribuição através da internet. Estudo de empresas confirmam que o cinema vai sofrer alterações profundas na forma como é distribuído e exibido. O filme vai deixar de estrear numa sala escura para passar a "estrear" no computador do consumidor. O novo mundo tecnológico, digital e globalizado dita as novas regras de consumo cultural, no presente e no futuro. Eu sei: é um rude golpe para a militância cinéfila e para o prazer de ver um filme em sala escura, que sempre foi (e é) o espaço histórico primordial para a fruição das imagens.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Prefab Sprout - a melodia pop perfeita


Sempre considerei como trio de referências pop dos anos 80 três grupos: XTC, The Go-Betweens e Prefab Sprout. Apesar da capa duvidosa, este é um dos discos pop mais perfeitos e viciantes da década de 80. Que digo eu? Da década de 80 e 90. "Steve McQueen" dos Prefab Sprout. Foi editado em 1985 e ainda me lembro da primeira vez que ouvi uma das canções mais belas do disco, "Appetite". Foi no saudoso programa "Som da Frente" do António Sérgio (Rádio Comercial, todos os dias às 4h) e durante semanas esteve no top de preferências dos ouvintes. Depois comprei o vinil e foi o fascínio. Paddy McAloon, líder e vocalista do grupo, era um notável letrista e cantor e este disco está recheado de canções povoadas por melodias sublimes e letras desencantadas.
Lembrei-me deste disco porque, ao entrar hoje no carro ao meio da tarde e sintonizar a Antena 3, ouvi o belíssimo tema "When Loves Breaks Down", que faz parte do alinhamento de "Steve McQueen".

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pop libertária


"Free Pop" (1987) - Pop Dell'Arte
É este o melhor disco dos anos 80 da música portuguesa?

Google: Deus é o mais popular?


Os números valem o que valem. Esta amostra é apenas uma curiosidade: a ideia foi fazer uma pesquisa aleatória por nomes conhecidos (e menos conhecidos) da cultura, desporto ou sociedade, no Google e reter os respectivos resultados dessas mesmas pesquisas. Como é óbvio, a fiabilidade dos resultados que o Google apresenta não é totalmente garantida, mas não deixa de ser curioso constatar que God (Deus) detém o maior número de resultados: 450 milhões (para 77 milhões de Allah, 18 milhões para Buda e apenas 2 milhões para Jesus Cristo); Segue-se Harry Potter que também ultrapassa a fasquia dos 100 milhões de resultados. Impressionante é o número de 77 milhões de resultados para o jogo de vídeo GTA (Grand Theft Auto). Os Radiohead superam em resultados os Beatles e os Rolling Stones (talvez devido ao mediatismo recente do álbum gratuito "In Rainbows"). David Beckham com 14 milhões e o golfista Tiger Woods, com 12 milhões de resultados são os desportistas mais populares (Ronaldo fica-se pelos 8 milhões) e Tom Waits fica-se por uns módicos 5.700.000 resultados. Harvey Lee Oswald, o assassino do presidente Kennedy, tem apenas 156 mil referências, enquanto o realizador russo Andrei Tarkovski consegue um total de 680.000. Por sua vez, a pesquisa por Carla Bruni oferece mais resultados do que Hitchcock ou Chaplin. Porque será?

Estão de seguida mencionados por ordem decrescente os resultados das pesquisas. No fundo, estes números nem surpreendem e muitas outras comparações poderiam ser feitas. Isto é uma brincadeira, mas há estrelas mediáticas por esse mundo fora que usam este método para atestar a sua popularidade.


God: 458.000.000
Harry Potter: 116.000.000
Britney Spears: 90.700.000
Allah: 77.100.000
GTA (GrandTheft Auto): 76.000.000
Madonna: 67.000.000
Código DaVinci: 48.200.000
Mozart: 40.900.000
Angelina Jolie: 36.100.000
George Bush: 31.700.000
Radiohead: 33.000.000
Rolling Stones: 25.200.000
Bill Gates: 21.900.000
The Beatles: 19.600.000
Buda: 18.900.000
David Beckham: 14.000.000
Tiger Woods: 12.100.000
Monty Python: 9.130.000
Cristiano Ronaldo: 8.650.000
Woody Allen: 7.690.000
Carla Bruni: 7.640.000
Dalai Lama: 6.510.000
Tom Waits: 5.760.000
Portishead: 5.400.000
Charlie Chaplin: 5.170.000
Alfred Hitchcock: 5.000.000
Anthony Braxton: 2.730.000
Jesus Cristo: 2.230.000
Maria Callas: 2.170.000
Fernando Pessoa: 1.510.000
Gore Vidal: 1.240.000
Amon Tobin: 1.100.000
Diamanda Galás: 1.070.000
Boris Vian: 857.000
Luís de Camões: 776.000
Andrei Tarkovski: 683.000
Guy Debord: 400.000
Camané: 215.000
Harvey Lee Oswald: 156.000
Luigi Russolo: 147.000
Mário Laginha: 130.000
Pedro Burmester: 24.000
Artavazd Pelechian: 15.000
...

Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê - a retórica vencerá


O Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê é um grande partido. É preciso que o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê combata o eng.º Sócrates. Só assim o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê pode voltar a ter a força e o carisma do Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê de Sá-Carneiro! O Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê vai mostrar ao país porque é que só o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê pode ser governo. As bases do Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê estão comigo e com o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê. Juntos tornaremos o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê num partido pluralista, como só o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê sabe fazer. Os críticos que atiram a toalha ao chão não são dignos de integrar as fileiras do Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê, porque eu quero um Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê que não seja o espelho do Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê de antigamente. Quero um Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê à Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê e não um Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê moribundo! Viva o Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê! Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê! Pê-Pê-Dê-Pê-Ésse-Dê!...

Em primeiro lugar? Como é possível?

Como se isto representasse alguma novidade.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Truffaut fez um grande filme português

"O melhor do cinema está aqui" refere o site brasileiro melhoresfilmes.com.br. Só que o slogan é enganador. A ideia do site é compilar os melhores filmes por diferentes categorias: género, país, década, realizador e actor. Um pouco à semelhança da referência Imdb.com.
Não se sabe muito bem quem faz ou fez a selecção dos filmes, nem quem atribuiu as respectivas pontuações ou que critérios foram utilizados. Parece que este tipo de informação não interessa. Talvez seja por isso que haja omissões e erros graves. Por exemplos: na categoria de Melhores Filmes da Rússia, não aparece nem um do Eisenstein, do Vertov ou - heresia! - do Tarkovski. Já a categoria de Melhores Documentários está mais bem conseguida, mas espanta ver "O Triunfo da Vontade" apenas na 45º posição! Na secção Melhores Comédias, o genial "As Férias do Sr. Hulot" de Tati só merece uma modesta 31ª posição e nenhum filme do Woody Allen surge antes do 18º lugar (e logo com "Manhattan", filme que não arriscaria categorizar como comédia).
Na categoria Thriller, fiquei assombrado quando vi o "Contos da Lua Vaga" de Mizoguchi na 5ª posição, ente o "Taxi Driver" de Scorsese e o "A Sede do Mal" de Orson Welles! Mizoguchi na categoria de thriller?! No Musical, eis que ficamos a saber que o filme "O Pianista" de Roman Polanski não é um filme de guerra ou um drama, mas sim um musical, no sentido em que "Cabaret" ou "Serenata à Chuva" o são.
Mas o descalabro maior vai para a categoria por país. Portugal. Segundo este site, o "melhor filme português de sempre" é... "Três Vidas e Uma Só Morte". Quê? De que realizador? Ora, do chileno Raoul Ruiz, esse cineasta "português" dos sete costados. Ou será que pelo facto de Ruiz ter tido como produtor o português Paulo Branco, tem direito a ser considerado português? Mas há mais. No segundo lugar vem "Aniki-Bobó" de Oliveira. Muito bem. Mas logo a seguir, outra retumbante surpresa: "A Janela da Frente" do realizador de Trás-os-Montes Ferzan Ozpetek. Isso mesmo: Ferzan Ozpetek, nascido e criado na Turquia. O resto da lista é anedótica: João César Monteiro e Manoel de Oliveira convivem alegremente com o francês François Truffaut e com o brasileiro Walter Salles!
Haverá mais erros, gralhas e omissões, mas depois destas leituras breves, perdi toda a vontade de ver o que quer que fosse...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Ler Debord


Para quem quiser ler na íntegra o livro que influenciou a geração de Maio de 68 - "A Sociedade do Espectáculo" de Guy Debord, poderá fazê-lo lendo online ou guardá-lo e imprimi-lo para ler mais tarde. Para tal, é favor carregar aqui.

Harold Lloyd ou arroz?


Está bem que é um pack que reune 7 DVDs com o melhor do cinema burlesco de Harold Lloyd mas quem desembolsa... 90€ por este objecto (Fnac)? Numa época de crise, este montante dá para comprar uns bons quilos de arroz. Por enquanto a cultura ainda não mata a fome. Por enquanto.
(é como o conjunto dos dois livros "O Homem Sem Qualidades" de Musil - 50€?) Ugh...

Cinema sem mulheres?!


Estaremos perto do fim da presença feminina no cinema (pelo menos no cinema mais comercial?). Exagero? Basta ler um intrigante artigo do New York Times online para deduzir que a inclusão de personagens femininas nos filmes americanos é cada vez menor, quase residual. No cenário actual seria quase impossível uma actriz como Greta Garbo (na imagem) fazer carreira. E é verdade que as grandes actrizes actuais - sobretudo as de meia idade - se queixam que há cada vez menos papéis para elas. Estaremos entregues a produtores machistas e irresponsáveis? Ler aqui o artigo.

Fotografia truncada


Afinal, esta fotografia que era um ícone histórico da vitória sobre os Nazis, tirada no cimo do Reichstag alemão no fim da Segunda Guerra Mundial (1945), é falsa. Mais: representa uma das primeiras manipulações à photoshop da história da fotografia - ou pelo menos da fotografia jornalística. É o que diz o jornal espanhol El Mundo nesta reportagem.
Depois desta revelação, importa questionar: que outras fotografias de valor histórico terão sido truncadas?

A verdadeira Pin-Up


A revista Única do Expresso trazia na capa uma sensual pin-up. Lá dentro, uma reportagem desenvolvida sobre o número cada vez maior de jovens portuguesas (na casa dos 20 anos) que encarnam personagens ao estilo cabaret e vaudeville, imitando as pin-ups que fizeram sucesso nos calendários, publicidade e cinema dos anos 30 a 50 na Hollywood gloriosa desas décadas. Femmes Fatales como Lauren Bacall, Mae West, Jean Harlow, Rita Wayworth ou a inevitável Marilyn Monroe servem de modelos para estas jovens que cultivam nomes artísticos com Lady Gin, Miss Saucy Minx ou Miss Lucky Lu. Nada contra. Acho piada ao culto por fenómenos culturais vintage, ainda que tenha sempre uma certa reserva a quaisquer tipos de revivalismos. Mas esta introdução serve apenas para chamar a atenção que há três anos foi lançado para o mercado de exibição cinematográfica, de forma totalmente despercebida, um filme que retratava a mais famosa das pin-ups americanas: "The Notorious Bettie Page", de Marry Harron (que fizera o perturbante "American Psycho"). Bettie Page foi uma rapariga que passou de menina tímida e bem comportada para o papel de modelo ousado, subversivo e independente. Page foi das primeiras mulheres a expor-se diante de uma câmara fotográfica em cenários sado-maso e bondage, criando uma verdadeira áurea mítica de mulher independente do pós-guerra. Algumas das suas fotografias mais ousadas ainda fazem corar algumas mentes conservadoras de agora. O filme regista essa evolução e o impacto que essa figura teve no espírito de Bettie Page e dos seus familiares. A verdadeira pin-up é personificada por Bettie, que simboliza o mito da sensualidade feminina emancipada.

A borboleta salvou-lhe a vida


É uma das mais belas manifestações de cinema dos últimos anos e não é por acaso que conquistou o prémio de melhor realizador em Cannes 2007. Julian Schnabel, artista plástico (amigo do pintor Jean-Michel Basquiat), baseou-se no livro "O Escafandro e a Borboleta" de Jean-Dominique Bauby para realizar um filme com o mesmo título. E que filme.
Estamos em 8 de Dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral (AVC) mergulha o jornalista (editor da prestigiada revista de moda ELLE francesa) Jean-Dominique Bauby num coma profundo. Ao acordar, descobre que todas as suas funções motoras estão deterioradas. Está encerrado no seu corpo - apenas consegue controlar o movimento de um olho. E será esse órgão a sua ligação com o mundo e com a vida. Será a piscá-lo que começa por indicar "sim" ou "não" até avançar para a sinalização de letras do alfabeto, construindo palavras e frases. Será assim também que escreverá "O Escafandro e a Borboleta", cujas frases memorizou antes de ditar. Uma história que noutras mãos resvalaria para o sentimentalismo bacoco, na visão de Schnabel torna-se uma forma de expressão de desejos interiores. De emoções que brotam através da comunicação de um só olho. O trabalho de realização e de movimentos de câmara são um verdadeiro tratado. No início do filme apenas vemos o que o protagonista vê (a câmara treme, resvala, embacia quando o olho vê as coisas turvas...), na primeira pessoa. Lemos os seus pensamentos (alguns bem irónicos), sentimos na pela aquela angústia pelo corpo aprisionado. Aos poucos, a libertação vai tomando força, Bauby sente o prazer de viajar com o pensamento, a imaginação.
A espaços, a formação de pintor de Schnabel faz-se ver de forma óbvia - a composição plástica das imagens e matizes de cores revelam isso mesmo. Mathieu Amalric, que interpreta o malogrado Bauby (era para ser Johnny Depp!), é um espanto de contenção emocional, visto que o vemos no decorrer do filme totalmente imóvel mas, ao mesmo tempo, imensamente expressivo. "O Escafandro e a Borboleta" é um filme profundamente humano, um hino à necessidade de sonhar (a metáfora da borboleta), à preserverança. Sem cair na fácil lamechice (até por se tratar de uma história verídica), Schnabel soube equilibrar as várias pulsões em jogo - as da morte e as da vida. Não queria dizer isto - por ser um cliché - mas aqui vai: é uma autêntica lição de vida.

Memórias activadas por telemóvel



Tenho um amigo que, sempre que vai a concertos de artistas de quem sou admirador, me telefona em directo do concerto para me dar a ouvir excertos do mesmo. Ontem aconteceu mais uma vez com o espectáculo dos alemães Einstürzende Neubauten, na Aula Magna de Lisboa. Pelos sons roufenhos que ouvi pelo telemóvel, rapidamente me vieram à memória as recordações da primeira passagem por Portugal do grupo do carismático Blixa Bargeld. Estávamos em 1993 e a actuação foi na sala lisboeta da Voz do Operário (perto do Largo da Graça). As expectativas eram altíssimas por ver ao vivo um dos mais consagrados e míticos grupos do rock dito industrial. A primeira parte dos Neubauten foi feita por um projecto fugaz mas muito interessante da música portuguesa - Lucretia Divina (de Viseu). O espectáculo dos Einstürzende Neubauten foi memorável, não só porque era o primeiro concerto do grupo em Portugal, como também porque viviam, quanto a mim, o período áureo da sua criatividade (tinham acabado de editar o álbum "Tabula Rasa").
Esse meu amigo também esteve lá, na Voz do Operário, há 15 anos atrás. Aposto que não foi o único a querer reviver, ontem, os momentos únicos daquele primeiro concerto em solo nacional da banda de "Halber Mensch".

O legado de Guy Debord


Ana Cristina Leonardo (semanário Expresso) escreveu no suplemento Actual uma recensão crítica ao livro "Guy Debord" (antígona), uma espécie de biografia não ortodoxa de Debord escrita pelo ensaísta Anselm Jappe. Já tinha aqui feito uma citação breve ao livro "A Sociedade do Espectáculo". Ainda não li o livro de Jappe, mas o texto da jornalista é suficientemente esclarecedor acerca da essência do que está em causa: apurar a dimensão conceptual do pensamento político e artístico de um dos mentores da Internacional Situacionaista. E mais apropriada se torna a sua aquisição quando, neste mesmo mês, se celebram 40 anos do Maio de 68 (Ana Cristina Leonardo também chama a atenção para o facto de muitos slogans do movimento terem sido repescados do livro "A Sociedade do Espectáculo" editado um ano antes).
O suicídio de Debord (1994) foi o corolário de um sentimento de não pertença a esta sociedade e a este mundo, de refutação das leis que a regem e que instigam ao estrangulamento da liberdade. A radicalidade das teses de Debord acabam por "explicar" o acto autodestrutivo. Não esqueçamos que, para além de um notável agitador de mentalidades instituídas, Debord foi também um efémero mas distinto cineasta, abrupto e radical. Para comprovar aqui.

domingo, 4 de maio de 2008

Autocarro para Beelzebub

"Get on the bus that's going to take you back to Beelzebub" cantava Mike Doughty no grupo Soul Coughing, um dos mais originais (e meteóricos) projectos pop dos anos 90. Conheci-os porque um dia, numa entrevista, o João Peste (Pop Dell'Arte) falou deste grupo como sendo a grande revelação de 1994. Depois ouvi o tema "Bus to Beelzebub" e o extraordinário álbum de estreia "Ruby Vroom". Os Soul Coughing eram uma prodigiosa máquina de consulsões estéticas, ironia absurda e refinada, desvarios vocais de Doughty e gosto desmedido por soluções rítmicas e melódicas menos óbvias (há canções dos Soul Coughing que parecem surgir da gaveta de Captain Beefheart).

sábado, 3 de maio de 2008

Saul Bass - a arte da criação do cartaz


Segundo a revista Premiere americana, estes são dois do melhores cartazes de cinema jamais feitos, seleccionados de uma lista de 25 títulos - consultar aqui. São os cartazes dos filmes "Anatomy of a Murder" (1959) de Otto Preminger e "Vertigo" (1958) de Alfred Hitchcock. Curiosamente, ambos os filmes são protagonizados pelo mesmo (grande) actor, James Stewart. A autoria destes dois cartazes é do mesmo autor: Saul Bass, considerado um dos mais originais e criativos designers gráficos da indústria de Hollywood (e não só: o seu trabalho estende-se à publicidade). Saul Bass criou alguns dos mais marcantes cartazes e genéricos de filmes dos anos 50 e 60, como já tinha referido neste post sobre genéricos no cinema. Os cartazes de "Anatomy of a Murder" e "Vertigo" representaram uma ruptura conceptual na arte de criar cartazes para cinema. Ao invés de representar imagens dos actores, glamorosos e famosos, Bass optou por imagens gráficas não figurativas e uma geometria visual mais estilizada, pontuadas por cores de fundo fortes e minimalismo na informação escrita (apenas título do filme, realizador e actores principais). A linha criativa de Saul Bass continua a influenciar a estética de cartazes e de genéricos cinematográficos. Basta constatar que o genérico do filme "Apanha-me se Puderes" de Spielberg é claramente decalcado da linha visual que Bass criou. Saul Bass, falecido em 1996, dedicou os seus últimos anos de vida à colaboração com Martin Scorsese.

Funky master

Se fosse vivo, este senhor faria hoje 74 anos.

Get up!

Maio de 68? Ainda não tinha nascido...


Como referi uns posts mais abaixo, já começaram as iniciativas para comemorar os 40 anos do Maio de 68. O jornal Público vai desenvolver uma série de eventos para marcar a efeméride. Sexta-feira passada apresentou no P2 um inquérito a 300 estudantes universitários sobre o evento que agitou Paris em 1968. Os resultados são surpreendentes: na generalidade, 60% dos inquiridos não sabem o que foi o Maio de 68. Mas o que espanta mais é a discrepância de conhecimentos consoante a área académica dos alunos: 70% dos alunos da área científica não sabem; 75% dos alunos das ciências sociais e artes, sabem. Como é possível haver este extremar de conhecimentos entre alunos de áreas distintas? Terão os estudantes de ciências sociais e artes muito mais formação cultural geral que os de áreas científicas? Será legítimo depreender esta conclusão? Parece-me perigoso arriscar tal pensamento, mas que deixa que pensar...
Houve uma aluna que justificou a sua ignorância da seguinte forma desconcertante: "Em 68 ainda não tinha nascido, como é que querem que eu saiba?". Isto é, para esta aluna, só é suposto ter conhecimento de qualquer acontecimento ou facto que tenham ocorrido após o seu nascimento (quase que arriscaria que tendo o 25 de Abril acontecido já depois do seu nascimento, que também não saberia o que foi)! Do outro lado da barricada (ou seja, do lado dos professores), o professor e político do Bloco de Esquerda Fernando Rosas veio colocar água na fervura dizendo que tem de se "relativizar as coisas": "se perguntassem aos alunos da minha geração o que tinha sido o regicído, muitos também não saberiam". Fantástica resposta que nada justifica. Pelo contrário, parece que desculpabiliza um certo embrutecimento cultural dos estudantes actuais, como quem quer dizer que não há grande importância que os universitários ignorem o que foi um dos mais marcantes acontecimentos da segunda metade do século XX. É que depois da chamada de atenção do Presidente da República para o crescente afastamento dos jovens da vida política (decorrente de uma sondagem que indicava uma indiferença e desconhecimento dos jovens sobre o 25 de Abril), custa cada vez mais assistir, passivamente, a estas manifestações de ignorância quase militante.
PS - só depois de ter escrito este post é que fui parar a um artigo de Manuel Maria Carrilho sobre a mesma temática - aqui.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Carpenter em documentário


Ainda há dias falava aqui de um filme do John Carpenter a propósito do "Assalto à 13ª Esquadra", e eis que o sítio Filmchatten disponibiliza o documentário “John Carpenter: Fear Is Just the Beginning... The Man and His Movies” de Gary S. Grant (realizado em 2004). Uma excelente oportunidade de ficar a conhecer a vida e a obra daquele que é um dos mais acarinhados realizadores de culto dos últimos 30 anos. Para ver aqui.

Reinventar a música pela imagem


A ligação da música com o videoclip (anteriormente designado teledisco) tem mais de 25 anos de história e foi impulsionado massivamente com o canal musical MTV e com esse ícone da cultura audiovisual que é "Thriller" (1983) de John Landis (com respectiva música de Michael Jackson). Já tinha dissertado sobre a grande (mas subestimada) arte de fazer videoclips, focando o exemplo paradigmático do realizador Chris Cunningham. A imagem passou a ser um elemento crucial na promoção do objecto musical. Agora queria chamar a atenção para um livro cuja especialidade é, precisamente, a abordagem a todo o universo da criação audiovisual contemporânea - com o sugestivo título "Reinventing Music Video: Next-generation Directors, Their Inspiration and Work". Entrevistas a realizadores, artistas visuais, processos de criação, equipamento técnico utilizado, análises ao trabalho criativo de cada videoclip ou realizador, entre muitos outros assuntos relacionados, fazem parte do teor deste livro. Um olhar crítico extremamente útil e exemplar sobre o efervescente mundo dos videoclips. Pode ser adquirido aqui.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Way Out - New Music From Portugal


Um leitor regular deste espaço, Jorge Silva, chamou-me a atenção para um blogue estrangeiro vocacionado para a divulgação da música dita alternativa intitulado The Things on the Doorstep. O autor desse blogue faz recensões críticas a discos e artistas de vários países, entre os quais Portugal. Neste post analiza uma compilação sobre nova música portuguesa na qual participei com uma música. Trata-se da compilação "Way Out: New Music From Portugal Vol. 2", que compilou vários artistas portugueses ligados às tendências estéticas mais experimentais (electrónica, sound-art, improvisada, electroacústica...). Nunca foi minha intenção aproveitar este espaço como veículo para promover o meu trabalho criativo, mas não posso deixar de me sentir particularmente surpreendido pelo nível de conhecimento revelado sobre o meu trabalho, assim como uma certa lisonja pela análise que faz do mesmo:

Victor Afonso aka Kubik is a portuguese musician living in Guarda, a city lying near Serra da Estrela (Star Mountain) at some 1000 meters above the sea level. He has been releasing music under the name Kubik (2 albums) as well as in many other projects. Oblique Musique and Metamorphosia albums recorded as Kubik showed up a musician deeply inspired by cinema and also by a great variety of music, from eastern europe folk to contemporary drumnbass. This alloy allowed Kubik to develop a very personalized and surrealistic sound, which defies the listener imagination with a wave of references sequenced in a way that take shape in the form of musical pieces. Infinite Territory is his new release. It is a departure from earlier works, because here Victor Afonso decided to explore electronic music more close to the IDM genre. It is obvious from Infinite Territory that musicians like Amon Tobin or Aphex Twin play an important role as sources of inspiration. This EP is very well balanced between ambient soundscapes and bursts of drillnbass, showing Kubik at the maximum of his skills and inspiration. From phantasmagorical pieces like Bona Fide, to kinetically unstable tracks like Infernis, Plus Ultra and the surrealistic Non Hilum (perhaps the track more related with his previous works), Kubik shows up his personal view of what electronic music (or IDM) can be, with a great capability to create images in the mind of the listener, rather than being purely another kind of dance music. Infinite Territory is therefore a kind of a soundtrack of a lost science-fiction movie, lost in the outskirts of the galaxy (or, more precisely, of the mind), exploring lost territories and lost spirals that liewithin the more pristine forces of nature.

Próxima paragem: Madrid


É uma ideia que já tenho há muito tempo: ir a Madrid só para visitar esta livraria e perder-me pelos seus escaparates. A última vez que visitei a capital espanhola não tive tempo de passar por lá, mas da próxima vez não falha. Falo da livraria Ocho y Medio (8 1/2), especializada exclusivamente em livros sobre cinema, vídeo e audiovisuais. Tem um catálogo de 15 mil títulos editados um pouco por todo o mundo (pode ser consultado online) com obras teóricas, técnicas, históricas, ensaios, biografias, de tudo o que se queira imaginar. Ou seja, uma verdadeira perdição para amantes de cinema, amadores ou profissionais de audiovisuais ou meros curiosos pelas coisas da 7ª Arte. Consultar aqui.

Beethoven teria gostado

Sinfonia nº 5 de Beethoven... Em copos de vinho com água!

China à frente?

O mundo da internet não cessa de surpreender. Um estudo recente indica que o número de criadores de blogues já atingiu 184 milhões a nível mundial. Segundo o mesmo estudo, a China tornou-se na comunidade virtual com maior número de bloggers, com 42 milhões de cibernautas a escrever on-line, um valor superior à soma dos Estados Unidos com a Europa. A China? Não será gralha? Um país onde o acesso à sociedade da informação é fortemente limitada (quando não censurada) é o país com mais bloggers do mundo? Hum...

Mulheres Dada


Numa pesquisa na Amazon sobre literatura Dada (Dadaísmo) constatei um surpreendente número de 15 a 20 livros deveras interessantes sobre o tema (directa ou indirectamente). O que mais me chamou a atenção foi este: "Woman in Dada". Ou seja, mulheres dadaístas ou esposas/familiares de dadaístas que desempenharam um papel importante no desenvolvimento teórico e artístico desta corrente revolucionária entre 1916 e 1924.
Reitero a minha surpresa: mulheres Dada?!...