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quinta-feira, 16 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
A "realidade" da praia de Mangualde
Hoje a comunicação social fez eco da notícia da praia artificial de Mangualde, uma pequena cidade do interior do país a 100 km da verdadeira costa. A praia tem não sei quantas toneladas de areia, não sei quantas toneladas de água salgada e até possui um cenário de céu azul e nuvem a servir de horizonte.
Isto fez-me lembrar o filme "The Truman Show" (1998) de Peter Weir, com um soberbo Jim Carrey no papel de um malogrado homem que desconhecia viver num mundo de total ficção num contexto de reality show televisivo. A partir de um determinado momento, Truman desconfia da "perfeição" da sua aparente cidade e resolve conhecer o resto do mundo, apesar de ser dissuadido a tal pela sua alegada família. Então, num dia parte com o seu pequeno barco à procura desse novo mundo e, não sem espanto desesperado, bate contra um cenário gigantesco que representava o céu azul (na imagem). Aí toda a sua vida se desmoronou, e compreendeu que toda a sua vida tinha sido artificial, montada numa espécie de super-produção televisiva moderna da "Alegoria da Caverna" de Platão.
Ora, com a praia artificial de Manteigas, acontece um pouco do mesmo: a praia também possui os elementos aparentemente reais mas essa "realidade" desmorona-se quando olhamos para o horizonte: a praia tem montado um cenário praticamente igual ao do filme do Peter Weir. E há outra diferença significativa: enquanto que Truman desonhecia a grotesca realidade da sua vida e do seu mundo à volta até ter batido contra o cenário que o aprisionava, os turistas que usufruem da praia artificial, vêm do mundo real para um mundo artificial, de ficção, e de forma totalmente consciente.
E chegamos à questão eterna: a realidade imita a ficção ou é o inverso?
Entrevistas Póstumas (9) -James Dean
O Homem Que Sabia Demasiado - É um caso único na história do cinema: fez apenas três filmes e tornou-se rapidamente num mito da cultura popular.
James Dean - Nunca procurei ser um símbolo de uma geração, ainda que o filme "Rebeldes Sem Causa" (1955) tenha ajudado a tal. O realizador Nicholas Ray estava sempre a dizer-me que aquele filme iria transformar-me num símbolo de rebeldia juvenil, mas eu nunca quis, conscientemente, assumir tal destaque. A rebeldia da juventude nasceu com o Rock 'n'Roll na década de 50 e mais tarde com o fenómeno Hippie. Eu fui apenas um actor que fiz o melhor nos poucos filmes em que participei.
O Homem Que Sabia Demasiado - E que grandes filmes! O filme "A Leste do Paraíso" (1955) realizado pelo notável cineasta Elia Kazan, é talvez o filme em que "explode" como actor do método do "Actor's Studio" de Lee Strasberg. A sua magnífica interpretação como jovem incompreendido e angustiado, valeu-lhe quase a classificação de génio.
James Dean - Mais uma vez, julgo que é uma classificação desmesurada. É verdade que trabalhei muito para conseguir ter aquela interpretação natural, quase espontânea, com alguma improvisação à mistura. Porém, a direcção de actores de Kazan foi essencial para ter conseguido tirar o máximo de potencial das minhas capacidades.
O Homem Que Sabia Demasiado - No seu filme seguinte, "Giant" (1956), que estreou já depois de ter falecido no trágico acidente de carro, fechou uma espécie de triângulo magistral no universo da interpretação, numa ascensão que parecia imparável.
James Dean - "Giant" foi um filme do qual não gostei muito de participar, ao contrário dos dois anteriores. Durante as filmagens houve um clima constante de guerrilha de estrelas entre Elizabeth Taylor e Rock Hudson e o realizador, George Stevens, não conseguia dar um rumo ao filme, até porque houve sérios problemas financeiros e de produção.
O Homem Que Sabia Demasiado - É verdade que se dizia que Marlon Brando era o seu único rival no que dizia respeito a actores jovens e muito talentosos?
James Dean - Conheci Brando e gostava muito dele. Houve rumores que afirmavam que ambos tínhamos uma relação homossexual, mas era tudo fantasia da comunicação social. Mas respondendo à pergunta: havia outro grande actor que competia, se quiser, pelo lugar de "jovem actor talentoso": Montgomery Clift. Um actor de grande personalidade e potencial.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Buñuel e a religião: compilação
Luis Buñuel, que se dizia "ateu graças a Deus", foi um cineasta cuja filmografia reflectiu, de forma contundente, sobre os principais dogmas da igreja católica: a fé, o castigo, o pecado, a salvação, o papel dos padres na sociedade, as provas da existência de Deus, a Virgem Maria, a moral católica, entre outros. Ao longo dos seus filmes, desde o surrealista mudo "Un Chien Andalou" (1928), Buñuel introduziu no seu cinema inúmeros episódios sobres estes assuntos, não sem ter granjeado discussões e muita polémica.
Um jornalista espanhol, de nome Eloy Domínguez Serén, deu-se ao trabalho de fazer uma montagem minuciosa (18 minutos) contendo os momentos mais importantes dos filmes de Buñuel nos quais surgem retratados os temas de temática religiosa (quase todos de carácter controverso).
Uma espécie de compilação desses momentos deste realizador tido pela igreja conservadora como insolente e blasfemo. Neste link.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Talvez o melhor filme de Woody Allen

Revi o filme "Stardust Memories" (1980) de Woody Allen e confirmei uma ideia que já tinha há muitos anos quando o vi pela primeira vez: este é, porventura, o melhor filme do cineasta de Nova Iorque. Já se sabe que será sempre objecto de discussão eterna saber qual o "melhor" filme de Woody, mais a mais, tratando-se de uma filmografia tão rica.
Mas não tenho pejo em afirmar que, pessoalmente, "Stardust Memories" ficará sempre no topo da lista dos meus filmes preferidos de Allen, ao lado de "Manhattan" (1979), "Zelig" (1983), "Annie Hall" (1977) ou "Match Point" (2005).
Esta película de Woody Allen, cujo título português (não totalmente fiel ao original, como é habitual) é "Recordações", acaba por ser uma síntese de todo o seu cinema, quer em termos de conteúdo, quer em termos formais e estéticos: condensa todos os temas centrais da sua obra (a criação artística, as relações humanas, as questões existenciais, a morte, a religião, o amor, o desejo, o cinema, a arte...) e revela-se uma belíssima homenagem e citação ao filme "8 1/2" do mestre Fellini (fotografia a preto e branco, abordagem à fama fugaz das celebridades, a fogueira das vaidades do circo mediático, a solidão do artista, etc). E "Stardust Memories", apesar da sua propensão melodramática, tem algumas das tiradas humorísticas mais inspiradas de toda a carreira do realizador.
Ah, e não esquecer que, na sequência incial do filme, claramente "bergmaniana", surge, pela primeira vez no cinema, a actriz Sharon Stone:
domingo, 12 de junho de 2011
Um western povoado de aliens?
Hollywood já não sabe o que fazer para inovar em ideias cinematográficas e os argumentistas e produtores recorrem às histórias mais bizarras no ensejo de cativar novos públicos às salas de cinema. É o caso do filme "Cowboys & Aliens" de Jon Facreau ("Homem de Ferro") que irá estrear no final de Julho.
Apesar de ter um elenco de qualidade e de ser produzido por Steven Spielberg, "Cowboys & Aliens" parece-me uma proposta inconsequente e redundante que mistura dois géneros totalmente antagónicos nas suas próprias premissas. Nem vai recuperar o western como linguagem nem vai regenerar a ficção científica (também, não me parece que seja essa a intenção do realizador). Servirá, quando muito, como objecto de entretenimento fátuo de "balde de pipoca" na mão durante o Verão que se avizinha.
O verdadeiro cinema segue dentro de momentos.
(O que diria John Ford desta variante do Western que ajudou a elevar à condição de arte?)
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Blu-Ray - canto do cisne?

Durante muitos anos o formato VHS era o único formato para ver filmes em contexto doméstico. Depois surgiu a qualidade da definição digital com o DVD que matou de vez o VHS. Entretanto, há uns dois ou três anos tem-se implementado, com muita lentidão, o formato Blu-Ray. Só que este formato, apesar do incremento de qualidade digital face ao DVD, não está a ser um sucesso a nível comercial. E suspeito que seja muito tarde que o Blu-Ray consiga destronar o DVD, pelo menos com a mesma rapidez com que o DVD destronou o VHS.
Para já, porque a pirataria continua a condicionar as vendas comerciais de filmes; depois, o Blu-Ray exige um leitor bastante mais caro do que um leitor de DVD; e por fim, porque cada filme em Blu-Ray custa o dobro ou o triplo do homólogo em DVD. E nos tempos de profunda crise económica que vivemos, este factor económico é determinante para o sucesso ou fracasso de um produto como este.
Por exemplo, acaba de ser editado no mercado o filme "Cisne Negro" de Aronofsky, disponível em qualquer Fnac. Quanto custa? 30€. E pensamos: 30€ para ter um filme que até já vimos em cinema?! Ou seja, só quem tenha boas condições económicas é que poderá fazer uma colecção de filmes em Blu-Ray.
E depois há outra questão: valerá a pena substituir os filmes que todos temos em DVD pelos filmes em formato Blu-Ray? Sinceramente, não me parece...
Resumindo: ou o custo de venda médio deste formato desce de forma considerável ou dificilmente subreviverá comercialmente.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
O caldeirão da arte
Que artista sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar o surrealismo (egocentrista) de Salvador Dalí, a expressividade (temperamental) de Jackson Pollock, a provocação (pop) de Andy Warhol e as paisagens (melancólicas) de Edward Hopper?
Que compositor sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a simplicidade (genial) de Erik Satie, a efervescência (rítmica) de Stravinsky, a exploração (tímbrica) de Edgar Varèse e o nacionalismo (musical) de Bartók?
Que realizador sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a frieza (emocional) de Bergman, o humor (absurdo) de Groucho Marx, a violência (estilizada) de Sam Peckinpah e a perversidade (da carne e da mente) de David Cronenberg?
Que escritor sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a verve (erótica) de Henry Miller, a visão (pessimista) de Schopenhauer, a loucura (desenfreada) de Ezra Pound e a placidez (contagiante) de Albert Cossery?
Que banda sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a pop (decadentista) dos Tindersticks, o humor (cáustico) dos Butthole Surfers, a convulsão (sónica) dos Einstürzende Neubauten e o lirismo (noir) dos Dead Can Dance?
Que fotógrafo sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a plasticidade (perturbadora) de Diane Arbus, a beleza (etérea) de Sebastião Salgado, a irreverência (sexual) de Robert Mapplethorpe, e a espontaneidade (histórica) de Robert Capa?
Bollywood

Há Hollywood e há Bollywood, a meca da indústria cinematográfica da Índia.
Desde sua origem na década de 1920, a indústria cinematográfica de Bombaim, conhecida como Bollywood, criou um negócio único com uma produção anual média de 500 filmes por ano. Uma enormidade, mesmo para um país com a dimensão gigantesca da Índia.
Os filmes de Bollywood desenvolveram uma linguagem visual muito especial, repleta de cores exuberantes e montagem muitas vezes frenética. Os posters, pintados antigamente à mão por artistas e designers, constituem um verdadeiro tratado visual e estético do cinema de Bollywood.
Os temas da grande maioria destes filmes radicam quase sempre na essência dramática de qualquer argumento romanesco: amores e desamores, conflitos familiares, eternas histórias de amizade e traições, vingança e também alguma violência.
Confesso que só vi uma vez na vida um filme tipicamente de Bollywood e não gostei da experiência. O meu gosto cinematográfico está longe do universo estético assumidamente kitsch destes filmes indianos. Bem sei que alguns cineastas ocidentais se têm deixado fascinar (e até influenciar) pelo cinema de Bollywood, mas a mim não me entusiasma minimamente.
Mal por mal, prefiro Hollywood...
terça-feira, 7 de junho de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Thurston Moore a solo
Thurston Moore, um dos mais influentes guitarristas rock dos últimos 30 anos à frente dos seminais Sonic Youth, deixou por momentos de lado as guitarras assanhadas da sua banda de sempre e editou um álbum a solo surpreendente, de título "Demolished Thoughts".
Um disco recheado de canções melodiosas, com violoncelos, guitarras acústicas, sem vestígios de bateria. Dir-se-ia que Thurston vive um período de grande serenidade e contemplação estética. "Demolished Thoughts" conta com a produção do experiente Beck e revela, em todo o seu esplendor musical, uma outra faceta (sublime) de Thurston Moore.
domingo, 5 de junho de 2011
Os grandes finais

Houve um dia um realizador (não me recordo qual) que disse que os dois momentos mais importantes de um filme eram os primeiros minutos e os minutos finais. Tudo o resto que acontecia pelo meio era secundário.
Passe o exagero da afirmação, creio que há alguma verdade nela. Isto porque, se um filme tiver um bom arranque e um memorável final, serão motivos para que o espectador nunca mais apague da sua memória esse mesmo filme.
No que se refere aos finais propriamente ditos dos filmes – o último minuto e não os últimos 15 minutos de filme -, há muitos e bons exemplos na história do cinema. Finais surpreendentes, reveladores, de narrativa aberta ou fechada, com ou sem “twists”, com ou sem clímax…
Quem esquece o último minuto do clássico “Casablanca”, com a célebre frase de despedida de Humprhrey Bogart - "I think this is the beginning of a beautiful friendship”? Ou o final de “Citizen Kane” com a revelação do significado de “Rosebud”? Ou a última imagem de "O Padrinho III" (na imagem), com a morte lenta e solitária de Don Corleone?
No site Filmcritic consta uma lista dos 50 melhores finais de sempre, aqueles momentos finais de filmes que, por diversos motivos, ficaram para sempre na memória colectiva dos cinéfilos (atenção que a leitura destes finais contêm spoilers.)
No site Filmcritic consta uma lista dos 50 melhores finais de sempre, aqueles momentos finais de filmes que, por diversos motivos, ficaram para sempre na memória colectiva dos cinéfilos (atenção que a leitura destes finais contêm spoilers.)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Burton e Taylor no cinema

O estúdio de cinema Paramount anunciou que adquiriu os direitos para adaptar ao grande ecrã a relação tumultuosa entre Richard Burton e Elizabeth Taylor. Os dois actores viveram juntos durante várias décadas, com dois divórcios, dois casamentos, traições e muita paixão violenta à mistura. Um caso raro e especial mesmo nos meandros pouco ortodoxos de Hollywood.
Para realizar este filme fala-se de Martin Scorsese. No entanto, para os lugares de Burton e Taylor ainda não há nomes ventilados, mas certamente que não faltarão actores em Hollywood desejosos de interpretar estas ímpares figuras da história do cinema.
Aceitam-se apostas, portanto (cá para mim, a primeira opção dos produtores para o papel de Richard Burton vai recair no inevitável George Clooney).
O eterno Couraçado

"O Couraçado Potemkine" (1925) de Sergei Eisenstein é um prodigioso objecto cinematográfico sobre a rebelião dos marinheiros do navio Potemkine. O cineasta que tantos problemas teve com Estaline e o poder soviético foi o criador de uma linguagem visual assente no poder da "montagem das atracções", uma ferramenta (técnica e estética) indissociável da vanguarda russa (com Dziga Vertov e Pudovkin) - a arte de colar um plano a seguir ao outro de forma a criar ritmos e significados distintos, formas de expressão visual específicas, conforme as necessidades da narrativa fílmica. Sobre o filme "O Couraçado Potemkine" (1925) não há muito a dizer de tanto que já se disse e escreveu, visto ser, porventura, um dos filmes mais estudados, comentados e citados de todo o mundo. Como fez Brian de Palma no seu filme "Os Intocáveis" (1987), no qual cita (homenageia, ao mesmo tempo) a célebre sequência da escadaria de Odessa - um carrinho de bebé que desce as escadas descontroladamente enquanto se gera um tiroteio.
Lembro-me bem quando vi esta obra-prima de Eisenstein numa sala de cinema. Foi em 1995, inserido num programa de comemorações dos 100 anos do cinema. Já o conhecia da televisão e do vídeo, mas vê-lo numa sala escura e em ecrã gigante era um momento imperdível. A experiência de ver o filme em sala escura foi portentosa, só perturbada por um grupo de estudantes de comunicação (ensino superior) que não sabia ao que estava a assistir. Daí os comentários ingénuos: "filme a preto e branco?". "Ainda por cima mudo e russo?!" Claro que o professor acompanhante não tinha preparado os estudantes para o que iriam ver. Era preciso ter feito uma contextualização histórica, social e artística do filme.
"O Couraçado Potemkine" é um filme que contribuiu enormemente para a evolução estética da linguagem cinematográfica, e uma ode à força do espírito humano, à libertação face à repressão do homem pelo homem. No final, não existe apenas um único herói na revolta do Potemkin, existe também a heroicidade do povo, das massas anónimas.

Para todo sempre, ficará sempre gravada na memória esta que é, porventura, a mais espantosa sequência jamais filmada: o massacre da escadaria de Odessa. A arte da montagem em todo o seu esplendor, a violência gráfica e emocional dos acontecimentos, a tensão psicológica patente no grito mudo da mulher com o filho morto nos braços, os passos ritmados dos soldados cossacos (guarda imperial do Czar russo) a descer a escadaria, as sombras e os esgares do povo a ser trucidado, as estátuas que parecem erguer-se perante tamanha carnificina, em suma, o puro fascínio das imagens a que designámos de arte sétima.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Entrevistas Póstumas (8) - Luis Buñuel

O Homem Que Sabia Demasiado - É verdade que os seus filmes são anti-clericais?
Luis Buñuel - Como sabe, eu sou ateu graças a Deus, e em muitos dos meus filmes manifesto esta minha inquetude. Acredito que é preciso ter fé, mas uma fé não necessariamente de cariz religiosa, cristã. Eu fui educado na mais fundamentalista fé cristã, até que fui para Paris muito novo e comecei a ter contacto com a fascinante vida mundana e artística. Este contacto abriu-me novas portas de percepção, de entendimento do mundo.
O Homem Que Sabia Demasiado - O facto de ter conhecido um artista tão especial como Salvador Dalí contribuiu para isso?
Luis Buñuel - Sem dúvida. Fui grande amigo do Salvador nos anos 20, assim como do Garcia Lorca, grande poeta de língua espanhola. Com o Dalí realizei o meu primeiro filme, "Un Chien Andalou", que escrevi a meias com ele. Depois ainda começámos a escrever o argumento de "L'age D'or" mas depressa me zanguei com o Salvador. O seu ego era, já nessa altura, insuportável de aturar.Nas décadas seguintes só falei umas poucas vezes com ele.
O Homem Que Sabia Demasiado - É verdade que tinha pedras no bolso durante a estreia de "Un Chien Andalou", para o caso do público não gostar do filme e assobiar?
Luis Buñuel - Eh eh eh... É verdade. Estava escondido atrás do ecrã, ansioso pelo final do filme para perceber a reacção do público. Mas para meu espanto, quase todos gostaram e aplaudiram. Mas essa estreia não fez com que tivesse imensos problemas com as autoridades morais e religiosas nos meus filmes seguintes.
O Homem Que Sabia Demasiado - Por causa da sua veia irreverente e até subversiva...
Luis Buñuel - Hum... Não sei se me qualifico como tal. Sempre fiz o cinema em que acreditei, sobre as minhas próprias obsessões, sem pensar em chocar mentalidades específicas. E como já sei que me vai perguntar quais são as minhas obsessões, digo-lhas já: sexo, morte, religião, padres, liberdade, Deus, burguesia, mendigos, surrealismo, freiras, erotismo, fé...
O Homem Que Sabia Demasiado - Arrepende-se de alguma coisa?
Luis Buñuel - Bom... Talvez de não ter casado com a Catherine Deneuve. Ela era fogo, um verdadeiro vulcão de sensualidade.
O Homem Que Sabia Demasiado - O que achou do facto de Manoel de Oliveira ter feito uma espécie de continuidade ao seu filme "Belle de Jour" com o filme "Belle Toujours"?
Luis Buñuel - Achei óptimo. O Oliveira é um cineasta com uma forte identidade, mas eu sei que o meu cinema o influenciou. Para mim funcionou como uma homenagem.
O Homem Que Sabia Demasiado - Filmou em Espanha, México e França. Foram experiências muito diferentes?
Luis Buñuel - Sim. O meu exílio forçado no México acabou por ser benéfico, uma vez que fiz lá um dos meus filmes preferidos, "Los Olvidados". E em França foi o país onde realizei os filmes com mais sucesso.
O Homem Que Sabia Demasiado - Na sua autobiografia, "O Meu Último Suspiro", refere no final do último capítulo, que gostaria que, depois de morrer, voltar ao mundo de dez em dez anos para ler os jornais e saber em que estado se encontram o homem e a sociedade. Ainda faz isso?
Luis Buñuel - Oh, não! Já não sinto saudade deste mundo, não me interessa. A última vez que li notícias sobre o estado do mundo prometi desistir de voltar a fazê-lo. É um mundo deprimente, cheio de injustiças, de sofrimento, de selvajaria, de intolerância a todos os níveis. Deixe-me cá estar sossegadinho!
Dia Mundial da Criança
No Dia Mundial da Criança, recordo um dos melhores filmes feitos sobre esta fase da idade. “Conta Comigo” (“Stand by Me”, 1986) de Bob Reiner.
Baseado num conto do mestre do terror Stephen King, “Conta Comigo” relata uma bela história de quatro amigos de 12 anos que se envolvem numa aventura durante dois dias. Nesse espaço de tempo e durante esse percurso, cada uma das crianças revela os seus medos e sentimentos, num jogo de partilha e união entre todos. Os verdadeiros laços da amizade, do companheirismo e da experiência do crescer estão reflectidos neste filme original.
Dois factos: 1) Stephen King prova que não é apenas um notável especialista na manipulação do medo, mas também um escritor sensível à exploração das emoções humanas; 2) River Phoenix tem neste filme o início da sua fulgurante e curta carreira, visto ter morrido aos 23 anos, após ter participado na saga Indiana Jones.
terça-feira, 31 de maio de 2011
"Stalker" com outra música
Volta e meia descubro pequenas preciosidades no YouTube feitas por meros anónimos. É o caso desta sequência inesquecível do filme "Stalker" de Andrei Tarkovski.
A música original do filme do realizador russo foi composta pelo compositor Eduard Artemiev, um dos pioneiros da música electrónica nos anos 70 e habitual colaborador de Tarkovski.
O que um anónimo fez nesta sequência foi retirar a música original e colocar, por cima, uma música que ele próprio (anónimo) compôs. Apesar de ser uma atitude ousada e muito arriscada (heresia para os fãs mais acérrimos do cineasta), a verdade é que a colagem entre esta música de cariz electrónica e ambiental com as belas imagens de "Stalker" resulta muito bem. A música realça todo o misticismo e o carácter onírico do cinema de Tarkosvki.
O fim do clube de vídeo

Creio que hoje entrei, pela última vez, num clube de vídeo. Dificilmente voltarei a este espaço.
Durante muitos anos - ainda do tempo áureo do velhinho formato VHS e quando era impensável haver uma coisa chamada DVD - vi muitos filmes sendo sócio de um clube de vídeo. Numa cidade pequena como a minha, sem salas de cinema que exibissem cinema minimamente condigno, ir ao clube de vídeo era uma forma de poder, na medida do possível, acompanhar as novidades do cinema. Havia muita oferta comercial e sem interesse, mas sempre conseguia alugar aqueles títulos mais independentes e alternativos, filmes de autor, alguns clássicos, com inegável qualidade cinematográfica.
Nos últimos anos, com advento dos canais temáticos por cabo e com a internet, parece que a oferta dos clubes de vídeo entrou em completo e inexorável declínio. Há alguns meses que não entrava no último clube de vídeo existente na minha cidade. Resultado: saí enfadado ao fim de 5 minutos de vistoria à oferta disponível. Com o acesso fácil à internet e aos canais televisivos de cinema por cabo, os clubes de vídeo não tem capacidade de concorrência e de acompanhamento das novidades. Daí que a sua própria sobrevivência esteja praticamente condenada.
Os títulos que vi expostos para o cliente não passam de filmes comerciais que já passaram nas televisões, já se encontram nas bancas dos supermercado a um custo irrisório ou já estão disponíveis há muito na internet. Para quê, pois, gastar 2 euros para alugar um DVD? Das centenas de títulos, apenas vislumbrei dois ou três que seria capaz de alugar, mas este facto não era motivo suficiente para me fazer sócio. Em suma: os clubes de vídeos, tal como os conheci há muitos anos atrás, estão em fase progressiva de decadência até à morte definitiva. Creio que hoje seria já impossível alguém dizer que formou o seu gosto cinéfilo num clube de vídeo moderno - como disse em tempos Quentin Tarantino quando trabalhou, na sua juventude, numa clube de vídeo.
É o resultado da evolução dos tempos que impõem novas formas de consumo cultural e de regras de mercado. Para o bem ou para o mal.
domingo, 29 de maio de 2011
Dead Can Dance - o regresso!
Um das grandes novidades dos últimos dias no mundo da música é a notícia oficial da reunião dos Dead Can Dance. Ou seja, Lisa Gerrard e Brendan Perry. Ambos vão juntar-se, ao fim de muitos anos separados, para comporem um novo álbum que estará pronto no Verão de 2012. Mais: haverá uma digressão internacional de dois meses até final desse ano.
Se tivesse que escolher uma - e só uma - discografia completa de um músico ou grupo para levar para uma ilha deserta, qual escolheria? Uma discografia que fosse (quase) perfeita do princípio ao fim, de grandeza artística intocável, de dimensão estética inesgotável? Após várias indecisões, escolheria a discografia completa dos Dead Can Dance. Precisamente porque, quanto a mim, a discografia do grupo de Lisa Gerrard e Brendan Perry reúne estes e outros predicados de qualidade. Os seus discos são pérolas de brilhantismo sonoro de prazer ilimitado, capazes de fazer estremecer de comoção os espíritos mais severos. Será despropositado pensar em DCD no contexto de uma ilha deserta? Talvez o seja para quem não goste da música do duo... Considero a discografia dos DCD como isenta de momentos menores, uma discografia coerente e personalizada como poucas.
Ouvi pela primeira vez os Dead Can Dance com o álbum "Spleen and Ideal" (1986) e foi um choque. Na altura ouvia sobretudo música pós-punk, free-jazz e industrial; um dia um amigo gravou-me a cassete com esse disco e disse-me: "Ouve este disco, é diferente de tudo o que já ouviste até agora". Conhecia bem a editora 4AD (Cocteau Twins, Birthday Party, Clan of Xymox, Bauhaus...) mas nunca tinha ouvido DCD. A sonoridade neo-clássica (mas também neo-barroca e neo-renascentista) dos DCD, aliada à voz resplandecente de Lisa Gerrard, trouxe-me uma nova experiência estética e emocional como ouvinte de música. Experiência que se foi aprofundando com todos os restantes álbuns do duo. Na verdade, sempre achei incrível como um músico - Brendan Perry - vindo de uma vulgar banda punk, tinha conseguido transformar-se num compositor com tamanha sensibilidade artística, trabalhando com quartetos de corda e instrumentos de raiz étnica.
Com a notícia, tão ansiada pelos fãs, do regresso dos Dead Can Dance, talvez possamos esperar que o grupo de Lisa e Perry venham a actuar, pela primeira vez, em Portugal.
Kubik - "I Think I Am..."
Depois de "Shina-Kak", eis o segundo videoclip com base num tema do álbum "Psicotic Jazz Hall" (recentemente editado) de Kubik.
sábado, 28 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Lights in a Fat City
O didjeridoo é um instrumento de sopro oriundo das tribos aborígenes australianas.
Tradicionalmente, é um tronco longo de eucalipto ou de bambu oco por acção das térmitas. Tem um som característico e pode variar entre a austeridade tímbrica e a suavidade mística. O didjeridoo está longe de se restringir à música étnica, uma vez que tem sido utilizado (e continua a ser) em muitos grupos de música e géneros musicais ocidentais. Apesar de não parecer, tocar didjeridoo não é fácil e requer treino persistente, sobretudo para o músico conseguir controlar a chamada técnica de "respiração circular", que permite emitir sons de forma contínua (expira-se com a boca e inspira-se pelo nariz ao mesmo tempo).
Foi no já longínquo ano de 1989 que ouvi, pela primeira vez, o som fascinante deste instrumento. Era tocado por um músico ocidental chamado Stephen Kent, que foi o motor criativo de um notável projecto musical denominado Lights in a Fat City, que partia da sonoridade do didjeridoo e o fundia com ritmos tribais e alguma electrónica a condizer. O resultado foi o magnífico álbum "Somewhere", fascinante viagem espiritual pelos ritmos aborígenes hipnóticos à mistura com uma relevante sensibilidade pop.
Lights in a Fat City só editaram um álbum, mas Stephen Kent prosseguiu uma interessantíssima carreira com o grupo Trance Mission e em diversas colaborações com músicos reputados da world-music como Robert Rich, Jon Hassell, Airto Moreira ou Steve Roach. Sempre procurando novas texturas e envolvências para o seu didjeridoo.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O realizador - criatura
"O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura"
Manoel de Oliveira
Bob Dylan - uma questão de gosto

Bob Dylan comemorou 70 anos de idade.
A propósito desta efeméride, as rádios e a imprensa escrita têm dado bastante atenção ao autor de "Mr. Tambourine Man". A verdade é que, para mim, Dylan nunca foi um músico de eleição. Reconheço-lhe qualidades como compositor e é indiscutível que o seu lugar na história da música popular está garantido há muitos anos, mas ainda assim, nunca nutri grande admiração por este autor. Talvez pelo timbre da voz e pela forma de cantar tão particular (que para os fãs será interpretado como uma marca original), ou por ter dedicado a sua carreira à folk, género musical que nunca me atraiu por aí além.
A verdade é que, como noutras coisas da arte e da vida, o motivo pela minha renúncia a Dylan reside simplesmente numa questão de gosto: não me fascina a obra de Bob Dylan, naquele sentido em que, inversamente, me fascina a música de um Tom Waits ou de um Leonard Cohen (ressalvando as devidas diferenças, obviamente).
Já da sua escassa incursão pelo cinema gosto muito da actuação de Bob Dylan no grande western de Sam Peckinpah, "Pat Garrett & Billy the Kid" (1973), filme para o qual Dylan escreveu diversas músicas.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Criptografia metálica


Os nomes das bandas de heavy metal (e estilos afins - death metal, grindcore, black metal...) são muito originais, sem dúvida. O imaginário da morte, do terror, do sofrimento e do sangue está sempre presente, de forma implícita ou explícita, na designação das bandas. Assim como a forma como são escritos esses nomes, usando um tipo de letra (lettering) a fazer lembrar hieróglifos crípticos impossíveis de decifrar por um mortal leigo na matéria. Este tipo de músicos gosta de praticar uma espécie de caligrafia hermética.
Uma caligrafia... "metálica".
Já chega de "Só Grandes Músicas"!

O semanário Expresso publicava esta semana um interessante artigo sobre os efeitos nem sempre benignos da música em excesso. E da necessidade do nosso cérebro trabalhar em silêncio. Mas na nossa era é praticamente impossível vivermos e trabalharmos sem música de alguma espécie. E os estabelecimentos e locais públicos são grandes responsáveis deste fenómeno. Sobretudo se estiverem a transmitir músicas de certas rádios...
É o caso da inefável RFM, a estação de rádio nacional especializada em divulgar os êxitos comerciais da actualidade, perdão, dos anos 80. A RFM, cujo ambicioso lema é "Só Grandes Músicas".
Entre-se em qualquer loja comercial, repartição pública, consultório, táxi ou café e as estatísticas provam que, se houver uma rádio sintonizada – na senda de querer dar musica ambiente ao cliente – há fortíssimas probabilidades de estar sintonizada na bolorenta RFM ou na esclerosada Rádio Comercial. Não falha. Como, ainda por cima, a cultura dos eighties está na moda, estas duas estações são as “special ones” na vanguardista tarefa de divulgar os hits de antanho do Elton John, do Lloyd Cole, do Phil Collins, do Rod Stewart, dos Waterboys ou bandas afins.
A música dos 90 ou da actualidade, praticamente não existe. Há quem goste de ouvir milhares de vezes as mesmas canções pop-corn de outrora (como em tudo na vida), mas no meu caso, quando entrei há dias numa loja e ouvi o locutor, expedito e expansivo, a anunciar a próxima “grande musica”, quase me deu vontade de ir ouvir antes um discurso político do Sócrates.
Ah, a grande música a que se referia o animador radiofónico era a “Dancer in The Dark” do boss Springsteen. Pois.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Malick divide

Como muitos críticos apontaram, o filme "The Tree of Life" de Terrence Malick ganhou a cobiçada Palma de Ouro do Festival de Cannes. Ao contrário do que seria de esperar, dada a qualidade artística inegável do realizador em causa, o filme não teve uma reacção unânime por parte da crítica: uns acharam uma obra magnífica, de extraordinária dimensão humana e estética; outros, pelo contrário, fizeram um juízo de valor mais negativo, apontando fragilidades no argumento e soluções visuais redundantes.
Julgo que foi bom ter havido esta disparidade de opiniões (na esteira de "Anticristo" de Lars Von Trier, lembram-se?), uma vez que a unanimidade crítica levanta quase sempre desconfiança. Deste modo, o espectador ou cinéfilo fará a sua análise de forma mais despretensiosa e livre. Sem constrangimentos.
E não vamos ter que esperar muito tempo, uma vez que esta última e tão esperada obra de Malick vai estrear já esta semana em Portugal.
A violência segundo Haneke

"O meu cinema é centrado na violência, porque é algo impossível de evitar na sociedade moderna em que vivemos. Gostaria que me considerassem um especialista na representação da violência nos media. A nossa cultura está marcada pelo judaísmo e cristianismo, e isso faz com que tenhamos nas entranhas o sentimento de culpabilidade. Não sou um adepto da culpabilidade, mas a ideia de filmá-la tem sido uma grande obsessão para mim.
"The White Ribbon" é sobre as raízes do mal, sobre a perversão da natureza humana. O meu objectivo foi mostrar como aqueles que definem os princípios – religiosos, políticos ou ideológicos – de maneira absoluta se convertem em verdadeiros monstros, num sistema de educação muito restrito e rígido para as crianças, cujos acontecimentos ocorreram 20 anos antes do surgimento do nazismo."
Michael Haneke
(Na imagem: "Funny Games" - 1997)
domingo, 22 de maio de 2011
sábado, 21 de maio de 2011
Amon Tobin - escultor sonoro
É o regresso em grande do músico Amon Tobin, depois do excelente álbum "Foley Room" de 2007. Amon gosta de referir que "ISAM" é mais um trabalho de "escultura sonora" do que propriamente musical. E faz sentido. Depois das incursões geniais na manipulação de samples, do trabalho meticuloso ao nível dos ambientes jazzísticos, dos intricados ritmos e das atmosferas cinematográficas (David Lynch é o seu cineasta preferido), Amon Tobin vira-se, agora, para uma exploração sonora mais pessoal, revelando uma evolução estética verdadeiramente assinalável (Amon deixou de lado a manipulação alheia dos samples e procurou gravar e criar os seus próprios sons).
"ISAM" é, por isso, um complexo manifesto sonoro extremamente rico na estrutura e em pormenores que dão corpo a uma música electrónica original, consumando, assim, uma viragem mais experimental e vanguardista no trabalho habitual de Amon Tobin.
Amon Tobin é um espantoso "cientista dos sons", um pesquisador da matéria sonora mais inaudita, e "ISAM"está aí para provar todo o seu talento criativo e para proporcionar novas descobertas a cada audição do álbum.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Entrevistas Póstumas (7) - Leni Riefenstahl
O Homem Que Sabia Demasiado - A sua reputação como cineasta é enorme, apesar de só ter realizado 8 longas-metragens. Como explica este facto?
Leni Riefenstahl - Bom, o meu percurso foi bastante longo, de cerca de sete décadas, mas estive muitos anos sem filmar depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Fiz os meus filmes sobretudo entre 1932 e 1945, depois do fim da Guerra, como sabe, tive imensos problemas para desenvolver os meus projectos.
O Homem Que Sabia Demasiado - A que se deveram, no seu entender, esses problemas?
Leni Riefenstahl - Basicamente, por causa da minha ligação a Adolf Hitler e os dois filmes que fiz para o regime Nazi: "O Triunfo da Vontade" (1934) e "Olympia" (1938). O mundo inteiro acusou-me de colaboradora do regime hitleriano, mas isso não é bem verdade. Apesar do que se diz, não fui eu que ofereci os meus serviços como realizadora a Hitler. Ele é que me convidou depois de ter visto o meu primeiro filme, "A Luz Azul" (1932). Eu ainda declinei, sugerindo que fosse convidado um grande realizador alemão, Walter Ruttman, mas Hitler insistiu que fosse eu e, como estava ansiosa de trabalhar num grande projecto, resolvi aceitar. Como aconteceu a muita gente, eu fiquei fascinada quando ouvi o poder de oratória do Kaiser, e era difícil resistir ao seu incrível magnetismo. Nos anos em que fiz os filmes, desconhecia ainda as atrocidades cometidas contra os Judeus. Pode-ma chamar de ingénua, mas foi isso que aconteceu.
O Homem Que Sabia Demasiado - Acha justo que critiquem os seus filmes pela inevitável propaganda política mas que os elogiem, ao mesmo tempo, pela sua inovadora linguagem estética e formal?
Leni Riefenstahl - Sim, não me importo que as pessoas façam essa análise. Tive muitos meios técnicos ao meu dispor para filmar a convenção Nazi de Nuremberga e por isso inventei novos enquadramentos, novos movimentos de câmara, novas formas de montar as imagens.
O Homem Que Sabia Demasiado - Muitos anos depois, na década de 70, desiste do cinema e torna-se fotógrafa, fazendo reportagens nas tribos do Sudão.
Leni Riefenstahl - Desisti do cinema porque achava que já tinha tido as experiências estéticas que me realizaram. E como senti sempre obstáculos e boicotes para continuar a filmar por causa da minha alegada simpatia com o Nazismo, então experimentei a fotografia, uma outra arte nobre e extremamente gratificante. E com 80 anos descobri outro prazer único: a fotografia submarina! Em 2002, quando fiz 100 anos de idade, realizei um documentário sobre esse fascinante mundo subaquático.
O Homem Que Sabia Demasiado - O seu percurso artístico é indissociável do percurso político do regime Nazi e de Hitler. Há pouco tempo, o estilista John Galliano disse que simpatizava com a figura de Hitler; ontem o realizador Lars Von Trier, referiu que compreendia Hitler e se sentida nazi. A que se deve este fenómeno de "empatia" com uma figura tão terrível da hstória?
Leni Riefenstahl - É difícil explicar, ainda mais para mim, que vivi todos aqueles anos loucos e frenéticos na Alemanha de Hitler. Não creio que Hitler seja citado por ser uma personalidade cruel e responsável por milhões de mortes. Creio que é referenciado porque existe uma total ausência de liderança política na Europa e Hitler, para o bem e para o mal, encarnou um líder carismático, determinado, seguro e com grande poder de fascínio junto das populações. Se houvesse um líder político europeu actual com estas características, mas sem a brutal carga maléfica que lhe é atribuída, talvez as pessoas se esquecessem rapidamente que Hitler existiu.
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