quinta-feira, 7 de julho de 2011

Discos que mudam uma vida - 145


Corria o ano de 1994 e estava em Salamanca.
Entrei numa loja de discos e, ao contrário do habitual, a música ambiente que estava a ouvir-se na loja despertou-me muito interesse. Não era música pop nem world music. Tinha guitarras eléctricas mas, ao mesmo tempo, uma voz feminina profundamente exótica e fascinante. Dirigi-me ao funcionário para lhe perguntar o que estava a ouvir. Fiquei então a saber que se tratava da diva do canto argelino do Rai, Cheikha Rimitti.
O disco, intitulado "Sidi Mansour", tinha acabo de ser editado e comprei-o num impulso, sem pensar duas vezes.
Tratava-se de um álbum original: Rimitti, na altura com uns veneráveis 70 anos de idade, tinha colaborado com duas importantes figuras musicais: o guitarrista Robert Fripp (ex-King Crimson) e o baixista Flea (da banda rock Red Hot Chili Peppers). A fusão entre a forma tradicional do canto Rai, a voz poderosa de Rimitti, a vertente pop-rock e eléctrica dos dois músicos ocidentais, resultou neste notável disco. Um disco de fusão, estimulante e irresistível, que aproundou a comunhão de raízes entre duas culturas tão distintas.
Eis o tema-título do álbum:

terça-feira, 5 de julho de 2011

Os livros de cinema nas livrarias


Não compreendo como em Portugal se editam tão poucos livros de e sobre cinema. Durante anos, as edições minimamente regulares foram da responsabilidade da Cinemateca (títulos que nem sempre chegam aos escaparates das livrarias) e, mais recentemente, as Edições Texto & Grafias, que têm lançado com alguma periodicidade, livros importantes relativos à teoria e estética do cinema (o último foi o essencial “Audiovisão” de Michel Chion).
Fora isso, contam-se por uma mão ou duas (se quisermos ser generosos) as boas novidades editoriais que vão surgindo por... ano.
Já aqui referi o meu total êxtase quando entrei na célebre livraria madrilena exclusivamente vocacionada para o cinema, a Ocho y Medio. Mas eu já não pedia, em Portugal, uma livraria só de cinema. Bastava-me uma livraria que tivesse novidades (nacionais ou estrangeiras) com qualidade e com alguma regularidade. O que não acontece. Nem na Fnac, nem na Bertrand (na imagem). Cada vez que consulto na Bertrand a prateleira exígua com os livros sobre cinema, fico decepcionado com a escassez de títulos e da falta de variedade dos mesmos (meia dúzia de livros).
Ok, dir-me-ão: "se queres bons e variados livros de cinema vai à Amazon ou a outra livraria online". Pois eu sei disso e já comprei vários nesta modalidade. Mas a verdade é que, num mundo perfeito, seria muito mais interessante que estivessem disponíveis na livraria, para os poder folhear, tocar, ler passagens, ver o índice, etc.
PS - E só agora reparei na imagem que, no meio dos habituais títulos, está lá perdido um livro cor-de-rosa para as mulheres com o título "Como Estar Fabulosa" (ou algo do género).
Enfim...

Playtime #59

A solução: "A Noite da Vingança" (1994) - Roman Polanski
Quem descobriu: Sam

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #26

Clicar na imagem para aumentar.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Uma questão de prioridades

Às vezez pergunto-me se sou um espectador de cinema "normal".
Ok, não sei definir o que seignifica um espectador "normal". Mas creio que até um cinéfilo mais radical já terá visto, nem que seja como "guilty pleasure", alguns blockbusters que enchem as salas de cinema de miúdos com sacos de pipocas e baldes de coca-cola. É que, no meu caso, posso afirmar que nunca vi nenhum filme das sagas e sequelas e prequelas: "Harry Potter", "Twillight", "Velocidade Furiosa", "Saw", "Hostel","Transformers", "Scary Movie", "X-Men", "Iron-Man", "Homem-Aranha", "Piratas das Caraíbas", "O Último Destino", entre outros.
Não quer dizer que não tenha visto excertos (em zapping na televisão) de alguns destes filmes citados, mas nunca tive interesse em ver nenhum do princípio ao fim.
E sinceramente, não sinto que me façam falta para a minha formação cinéfila... É uma questão de prioridades.

Salas às moscas

Espanha é um dos países europeus que mais tem sentido a crise de espectadores nas salas de cinema. De ano para ano, os números comprovam a curva descendente de afluência às salas do grande ecrã.
Segundo o mais recente estudo, as estatísticas são elucidativas desta tendência negativa: apenas 5 em cada 100 espanhóis vão ao cinema mais do que uma vez por mês; 55,5% dos espanhóis nunca ou quase nunca vão ao cinema durante o ano; 1,8% tem por hábito ir ao cinema uma vez por semana e apenas 0,2% o faz duas ou mais vezes em igual período de tempo.
O próprio cinema espanhol, que habitualmente cobre uma fatia considerável do mercado de distribuição e tem uma expressão comercial significativa, está em queda livre.
Não sei como serão as estatísticas concretas em Portugal, mas acredito que não andarão muito longe deste cenário.
E pela minha experiência, refiro que as três últimas vezes que vi um filme numa sala de cinema dita comercial, não tinham mais de 10 espectadores. A última vez foi numa sessão do filme "A Árvore da Vida": estavam 7 pessoas.

sábado, 2 de julho de 2011

Desenhos de crianças

"Pesadelo em Elm Street"
"O Corvo"
"Titanic"
"O Ataque dos Tomates Assassinos"
"A Idade do Gelo"
"Pulp Fiction"

"Quem Quer Ser Milionário"

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Transformers e a educação pelo cinema

O crítico João Lopes escreveu, no blogue Sound + Vision, o seguinte a propósito da estreia do filme "Transformers 3":

Como é que um espectador formado (?) apenas a ver filmes como este se pode alguma vez interessar por um épico de Griffith, um drama de Bergman ou uma comédia de Jerry Lewis? A resposta é simples: não pode. Porquê? Porque não sabe e, sobretudo, porque foi educado para não querer saber.

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Basicamente, é isto.

Quando Deus é Kubrick

Quando Ingmar Bergman morreu foi para o céu mas São Pedro não o deixou entrar porque Deus não gostava de realizadores de cinema.
Enquanto Bergman deseperava para entrar no céu, viu passar de bicicleta uma figura desastrada, de barbas fartas, algo obesa, vestida de calças manchadas e sapatilhas rotas.
Intrigado com tal personagem, Bergman perguntou a São Pedro:
- "Aquele ali não é Stanley Kubrick?"
São Pedro olhou para Bergman com olhar resignado e exclamou:
- "Não, é Deus. Mas pensa que é Stanley Kubrick!".

450

450 mil visitas e 450 seguidores. É bem.

"A Árvore da Vida" - Impressões breves


Só hoje vi "A Árvore da Vida" de Terrence Malick. Como não tenho tempo para dissertações longas (na blogosfera li autênticos ensaios teóricos sobre o filme), limito-me a expor as minhas impressões telegráficas:

- No cômputo geral, creio que é inegável que estamos perante um filme do qual emana uma sensibilidade muito peculiar e que desafia o olhar comum do espectador.
- Parece-me também óbvia a influência directa do universo estético e temático de Kubrick.
- Julgo tratar-se de uma obra que precisa de alguns anos de amadurecimento para perceber se se trata de uma obra-prima visionária ou de um filme pretensioso que se esgota da sua própria linguagem estética.
- Não me admira que o projecto deste filme tenha demorado mais de dois anos a concluir: a montagem deve ter sido um trabalho extremamente intrincado, complexo e meticuloso.
- A ambição do realizador em construir uma meditação visual sobre a vida, o universo, a morte, as relações familiares, a infância e o amor é desequilibrada. A título de exemplo: apesar de muito bem conseguida visualmente, julgo que a sequência da criação do universo deveria ter ficado de fora da montagem final.
- Apesar da fotografia do filme ser excelente (demasiado "perfeita", diria), há um exagero na utilização de imagens de estética "postal ilustrado": contém dezenas e dezenas de planos com o sol a brilhar com raios atrás de árvores, de edifícios e personagens. Parece que Malick se preocupou em demasia na beleza plástica das imagens em detrimento da história que acaba por não ter a devida profundidade narrativa e dramática.
- Há sequências maravilhosas, extremamente bem filmadas e montadas; outras há que são redundantes, confusas e pretensiosas. Fiquei com essa sensação dúbia no final.
- Percebo o alcance da visão mística e quase metafísica de Malick com a história central do filme, mas acaba por se tornar previsível e sem surpresas. Os últimos 10 minutos resvalam para uma certa confusão entre sonho, memória e realidade.
- O trabalho de mistura e edição de som é magnífico. Idem para a selecção musical, na qual não brilha apenas o compositor Alexandre Desplat mas também clássicos como Brahms, Berlioz ou o contemporâneo Ligeti. A música sempre foi um elemento fundamental em toda a obra de Malick.
- As interpretações são de grande nível, e não é só Brad Pitt que brilha no papel do pai autoritário com as crianças. Já a presença de Sean Penn me parece meramente comercial e subaproveitada em todo o filme. Creio que não tem sequer uma linha de diálogo em todo o filme, limitando-se a vaguear pelos cenários...
- Em suma, "A Árvore da Vida" é uma obra de grande fôlego visual, do tamanho da Humanidade, com um notável trabalho de realização, montagem e fotografia, mas que ainda assim, necessita de um segundo ou terceiro visionamento (daqui a algum tempo) para comprovar se supera as suas inerentes fragilidades (veremos se o tempo atenua ou amplifica essas fragilidades...).
- Concordo com a classificação que um amigo meu atribuiu: 7/10

O Rapaz e o Peixe


Luís Montanha é um jovem estudante de cinema que se encontra actualmente a finalizar a respectiva licenciatura. Como o dinheiro disponibilizado pela instituição onde estuda é pouco ou nenhum para apoiar a realização de um filme para o projecto final de curso, Luís Montanha não ficou parado e abriu uma página para divulgar esse mesmo projecto ("O Rapaz e o Peixe") e solicitar o apoio de quem quiser colaborar.
Para os interessados (nem que seja para conhecer o projecto), eis a página.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O hotel e o cinema


Os hotéis sempre foram espaços importantes no imaginário cinematográfico. Desde o Bates Motel de Hitchcock até ao Overlook Hotel de Kubrick, os hotéis têm sido objecto de muitas e boas histórias (dramáticas ou cómicas).
Neste Link encontramos 10 hotéis famosos (e reais) que serviram de cenário a outros tantos filmes.

Discos que mudam uma vida - 144


The Velvet Underground - "White Light/White Heat" (1968)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Entrevistas Póstumas (10) - Ian Curtis


O Homem Que Sabia Demasiado - Ian Curtis, 30 anos depois, a sua arte continua a fascinar gerações de amantes de música. Como explica isto?

Ian Curtis - Listen to the silence, let it ring on. Eyes, dark grey lenses frightened of the sun. We would have a fine time living in the night, Left to blind destruction, Waiting for our sight.

O Homem Que Sabia Demasiado - E o que me diz das suas letras plenas de negrume existencial, de deseperada lassidão emocional?

Ian Curtis - Heart and soul, one will burn. An abyss that laughs at creation, A circus complete with all fools, Foundations that lasted the ages, Then ripped apart at their roots. Beyond all this good is the terror.

O Homem Que Sabia Demasiado - Era considerado, nos Joy Division, o músico mais tímido e reservado. Como se tornou no líder carismático da banda?

Ian Curtis - Is this the role that I wanted to live? I was foolish to ask for so much. Without the protection and infancy's guard, It all falls apart at first touch.

O Homem Que Sabia Demasiado - A música dos Joy Division tornou-se na marca de uma geração e influenciou dezenas de bandas. Que sentimento e que responsabilidades isto lhe traz?

Ian Curtis - Walk in silence, Don't walk away, in silence. See the danger, Always danger, Endless talking, Life rebuilding, Don't walk away.

O Homem Que Sabia Demasiado - A sua viúva, Deborah Curtis, disse ter odiado o filme "Control" de Anton Corbijn. Que comentário quer fazer?

Ian Curtis - Confusion in her eyes that says it all. She's lost control. And she's clinging to the nearest passer by, She's lost control. And she gave away the secrets of her past, And of a voice that told her when and where to act, She's lost control, again.

O Homem Que Sabia Demasiado - Sei que tinha uma boa relação com a sua mãe. O que lhe diria caso a encontrasse?

Ian Curtis - Mother I tried please believe me, I'm doing the best that I can. I'm ashamed of the things I've been put through, I'm ashamed of the person I am.

O Homem Que Sabia Demasiado - A sua arte como músico e poeta foi construída segundo as suas próprias experiências de vida. Sente que as emoções, a vida e o amor são destruídos pela presença da rotina e pela certeza da morte?

Ian Curtis - When routine bites hard, And ambitions are low, And resentment rides high, But emotions won't grow, And we're changing our ways, Taking different roads. Then love, love will tear us apart again. Love, love will tear us apart again.

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Com esta décima e especial entrevista, termina a série de Entrevistas Póstumas.

Para ler as restantes nove, abrir aqui.

domingo, 26 de junho de 2011

A trip

Ron Fricke, ex-director de fotografia de Godfrey Reggio (responsável pela fantástica trilogia Qatsi), realizou o filme "Chronos" em 1985. Trata-se de uma possante meditação sobre o lugar do homem no mundo. O filme, em forma de documentário unicamente visual, percorre várias regiões do planeta para captar imagens da natureza em confronto com a actividade humana.
O excerto de vídeo de "Chronos" em baixo é, quiçá, o momento mais perfeito de todo o filme. Para captar toda a poderosa informação audiovisual, é imprescindível ligar as colunas de som e colocar o volume bem alto, para sentir a música que acompanha os 3'40'' de imagens frenéticas e assombrosas (até ao clímax final). Um claro exemplo de como a música e as imagens podem aliar-se de forma perfeita na experiência cinematográfica.
Há um comentário no YouTube referente a este vídeo que se adequa na perfeição: "What a trip!". E é disso mesmo que se trata.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O filme falado de Chaplin


E por falar em Charlie Chaplin, eis que a família do actor e realizador veiculou a notícia da descoberta (nos arquivos da família) de um projecto - em forma de argumento - que Chaplin tinha para fazer um filme falado, no qual pela primeira vez, se ouviriam diálogos (muito tempo antes de "O Grande Ditador", primeiro filme falado de Chaplin, em 1940). O filme em causa chamava-se "Bali", para o qual Chaplin terá escrito 50 páginas com diálogos falados.
Como se sabe, Chaplin foi um grande resistente na introdução do som no seu cinema - o filme "As Luzes da Cidade" é a prova disso, realizado 4 anos após o primeiro filme sonoro da história ("The Jazz Singer" de 1927).
A história foi revelada pelo jornal inglês "The Guardian" e reproduzido pelo espanhol "ABC". Link da notícia completa.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

As imagens fortes de Cronenberg

Não esqueçamos que devemos a David Cronenberg algumas das imagens mais emblemáticas, perturbadoras e violentas de todo o cinema contemporâneo, sobretudo devedoras das suas primeiras obras dos anos 70 e 80: