terça-feira, 15 de abril de 2008

Pois pois


Mas alguém acha que ela era santinha?

A cultura dos cromossomas


"Afinal, quantas pessoas se interessam pela cultura?, se põem o problema da vida?, do homem?, se põem a interrogação sobre o que nos rodeia? É um erro tocante o imaginar-se que as pessoas cultivadas se interessam pela cultura. A cultura não vem nos livros, nem nos cursos, nem nas salas de conferências, espectáculos, exposições com uísque ou a seco. A cultura é um problema que tem que ver com os nossos cromossomas e tem a dimensão secreta, oculta, privada, íntima, de uma vivência sagrada."
Vergílio Ferreira, in "Contra-Corrente, nº3"

A mania do DVD


Para quem é cinéfilo e colecciona filmes em DVD, é impossível passar ao lado do mais informado e actualizado site sobre o tema: dvdmania é um site recheado de novidades, fóruns de discussão, críticas, procura e venda de títulos, etc. Um manancial de informação que, não raro, se torna viciante. É mesmo uma mania. Aqui.

O atentado a Hitler


Quem é este homem? Ou serão antes dois? Na verdade, são dois homens mas que significam um só. O retrato da esquerda corresponde ao Coronel Claus von Stauffenberg, oficial Nazi e mentor de um complexo plano que conspirou contra a vida de Adolf Hitler. O rosto da direita é do actor Tom Cruise, sobejamente conhecido no mundo do estrelado de Hollywood. Cruise interpreta o papel principal (o de Stauffenberg, precisamente) no muito aguardado filme (estreia nos EUA apenas em Fevereiro de 2009) "Valkyrie", do realizador Brian Singer. "Valkyrie" era o nome de código da operação para matar Hilter no dia 20 de Julho de 1944, uma cuidada operação que pretendia colocar uma bomba por debaixo da mesa de trabalho de Hilter, num reunião de oficiais alemães. A bomba estava escondida numa mala que Stauffenberg colocou estrategicamente ao lado das pernas do ditador Nazi. O conspirador alegou ter de sair da sala e, poucos minutos depois, explode aparatosamente a bomba. Morreram quatro oficiais de Hitler mas este, miraculosamente, escapa ao atentado praticamente ileso (com escassos ferimentos ligeiros). Stauffenberg e os outros colaboradores (altas patentes da hierarquia militar Nazi) foram descobertos e executados sumariamente. Apesar de ter saído com vida do atentado, Hilter nunca mais foi o mesmo, acentuando ainda mais a sua paranóia pela segurança e pelo medo de novas conspirações. Para os historiadores não há dúvidas: se o atentado tivesse tido sucesso, o rumo da história da 2ª Grande Guerra teria sido bem diferente...
Este foi um dos episódios mais importantes da Segunda Guerra Mundial, ainda que nem sempre devidamente explicado e contextualizado. Durante muitos anos permaneceu obscuro. Apesar de já se saber o rumo da história, o realizador Brian Singer promete um filme repleto de acção e suspense, revelando pormenores históricos nunca antes revelados. Depois do êxito do filme "A Queda" (2005), que retratou os últimos dias de Hilter no bunker de Berlim, este "Valkyrie" continuará a explorar o filão histórico do declínio do 3º Reich. Como apaixonado por esse período da história, só tenho a agradecer e a esperar, ansiosamente, por poder visionar esse filme. Enquanto isso, pode-se sempre espreitar o trailer do filme e demais informação no site oficial.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

5 centenas

E com este já lá vão 500.
Meia centena de posts neste pasquim online actualizado diariamente (como diria Santana Lopes, com "sacrifícios pessoais"). Claro que, enquanto houver um primo ou um amigo chegado a ler o que por aqui se escreve, continuarei a alimentar o blogue. O céu é o limite.
Por isso: bem hajam, pá!

25 anos do outro Tony


Bem pode o outro Tony comemorar os 20 anos de carreira todo os dias na SIC. Nunca fará sombra aos 25 anos deste Tony, o genuíno, o autêntico, o luminoso e excelso entertainer, Tony Silva.

As ideias


"Não percebo porque é que as pessoas têm medo das novas ideias. Eu tenho medo é das velhas."
John Cage

domingo, 13 de abril de 2008

Lee Miller - intrépida mulher e fotógrafa


Ao ler o blogue do Pedro Mexia reparei num post sobre Lee Miller. Havia muitos anos que não lia, via ou ouvia qualquer referência a esta mulher. E Lee Miller não foi qualquer mulher. Foi uma modelo que fascinou Nova Iorque e Paris nos anos 30 e 40. E foi a musa inspiradora dos surrealistas tendo servido de modelo e de objecto estético de Man Ray, de Jean Cocteau e de Picasso. André Breton, Picasso e Max Ernst têm trabalhos sobre ela. Depois, pegou na máquina fotográfica e começou ela a captar o mundo à volta. Retratos, paisagens de diversos países e, sobretudo, a reportagem fotográfica sobre a 2ª Guerra Mundial valeram-lhe reconhecimento internacional. Dizem que era uma mulher desassombrada, corajosa e ousada como poucas. Depois da Guerra investiu o seu talento na revista de moda Vogue e vagueou por Marrocos e pelo Egipto à procura de sombras e de despojamento. A sua fotografia é feita disso mesmo, de sombras, de despojamento, de intrepidez e de grande plasticidade estética.
Na Amazon existe um lista rica e variada de livros e biografias sobre a vida e obra de Lee Miller.

Brincadeiras perigosas

"Funny Games", filme original de 1997 realizado por um dos mais interessantes realizadores europeus da actualidade, o austríaco Michael Haneke, tem agora uma nova versão... pelo mesmo realizador. Sobre este assunto já falei neste post. Seja como for, o original continua a ser um dos mais perturbantes ensaios sobre a violência das imagens e sobre a banalidade da mesma. E repare-se como em pouco mais de 1 minuto, este trailer condensa todo o espírito contraditório do filme: não só pela montagem meticulosa, mas também pela espantosa e inteligente utilização da música, com a doçura da música de Haendel e a crueldade da de John Zorn (Naked City) a conviverem em dois universos paralelos. Impressionante.

Tony e mais Tony e mais Tony

A SIC anda obcecada com a comemoração dos vinte anos de carreira de Tony Carreira (a redundância é propositada). Há já semanas que esta estação divulga pequenas e grandes reportagens sobre o cantor. As peças jornalísticas, sérias e longas em duração, têm passado no horário nobre do Jornal da Noite e em diversos programas de entretenimento. Tudo é pretexto para mostrar os vigorosos 20 anos de êxito do cantor: em concerto no Pavilhão Multiusos ou no Olympia de Paris, em convivência com as fãs, em ambiente de casa, no estúdio de gravação, a reviver as memórias passadas na aldeia natal. Hoje, no Jornal da Noite, mais um excerto de uma reportagem que irá passar na íntegra, amanhã. Pretexto? Saber o que pensa o Tony sobre "assuntos que dividem Portugal" (palavras do jornalista) como o aborto ou a violência na escolas. Assim sim, sobre temas sérios e profundos vale a pena ouvir o Tony!

Teorias para uma evolução radical


É um livro com título extenso e algo bizarro - "Radical Evolution: The Promise and Peril of Enhancing Our Minds, Our Bodies - and What It Means to Be Human" e foi escrito por Joel Garreau, jornalista do Washington Post. É um livro que questiona a fundo o presente e o futuro tecnológico, analisando três correntes de pensamento totalmente distintas: a corrente que acredita numa visão optimista da tecnologia e defendida por Raymond Kurzweil (veja-se esta longuíssima página na Wikipedia sobre o autor), um eminente teórico e ensaísta "futurista" da Cibercultura; outra corrente tem a ver com a visão mais negra e pessimista da utilização da tecnologia na sociedade, defendida por Bill Joy; e, por último, a terceira via, aquela que estipula que a tecnologia não tem um grau de determinismo e influência (para a evolução da Humanidade) tão grande quanto pensamos. Esta tese é defendida pelo guro da cultura digital Jaron Lanier, artista visual, músico e teórico que preconizou a ideia de Realidade Virtual. "Radical Evolution" acaba por sintetizar e analizar, recorrendo a diversas ciências e teorias sociais e humanas, todas estas vertentes possíveis da evolução da Humanidade à luz da tecnologia e da era digital. Seja como for, é mais do que certo que um novo mundo continua a ser fabricado com base nas evoluções e implicações que a tecnologia acarreta para as nossas vidas.

Chronos - o mundo em frenesim

Ron Fricke, ex-director de fotografia de Godfrey Reggio, realizou o filme "Chronos". Uma possante meditação sobre o lugar do homem no mundo. Este é um excerto. Imprescindível: ligar as colunas de som e colocar o volume bem alto, para sentir a música que acompanha os 3'40'' de imagens frenéticas e assombrosas (até ao clímax final). Há um comentário no YouTube referente a este vídeo que se adequa na perfeição: "what a trip!".

A evidência

Pode ler-se aqui mais ao pormenor de que trata a curta-metragem "Evidence". O filme é do premiado realizador Godfrey Reggio, autor da trilogia "Qatsi", já dissecada neste blogue. Basicamente, "Evidence" aborda a reacção expressiva das crianças quando estão a ver televisão (e o subsequente poder que exerce sobre elas), neste caso, o filme "Dumbo". A música, como habitualmente nos filmes de Reggio, é de Philip Glass:

sábado, 12 de abril de 2008

Para não esquecer a banalidade do Mal

Primo Levi é, juntamente com Elie Wiesel, o melhor escritor saído dos campos de extermínio Nazis. "Se Isto é Um Homem" é um espantoso relato sobre os limites do sofrimento humano no âmbito dessa ignomínia chamada Holocausto. Literatura seca e descarnada, afiada como um cutelo ensanguentado. É um livro que deveria constar nos programas curriculares escolares, para que as novas gerações não esqueçam o horror vivido na Europa há apenas seis décadas atrás. Quando morreu (1987), Elie Wiesel disse: "Primo Levi morreu 40 anos depois em Auschwitz". E era verdade. Levi passou a vida atormentado por ter sido um sobrevivente da carnificina, por carregar nas costas o imenso peso da memória do Genocídio. Era como se Primo Levi continuasse e viver agrilhoado à angústia dos terríveis momentos passados no seio da máquina do extermínio alemão.
"A Trégua", editado em 1963, revela as vivências da libertação de Auschwitz, como que num lampejo de expiação espiritual. Uns anos antes da sua morte (os biógrafos falam em suicídio, os familiares referem que foi consequência de uma queda das escadas), Primo Levi lança em 1986 o livro "Os que Sucumbem e os que se Salvam" (Editorial Teorema). De forma lúcida e pragmática, Levi regressa às memórias dolorosas do campo de extermínio, justificando que sentia que a memória colectiva já pouca atenção dava ao Holocausto. Levi terminara uma poderosa trilogia de obras sobre os horrores Nazis, para nunca mais ninguém se esquecer. Na esteira de Levi, "As Benevolentes" de Jonathan Littell renova o interesse universal nesta matéria, ao escrever ao longo de 900 páginas sobre a banalidade do Mal.
PS - Este post foi suscitado com a leitura da crítica ao livro "Os que Sucumbem e os que se Salvam", feita por Luís M. Faria no Expresso de hoje

Paraíso e Apocalipse

Casablanca segundo Madonna


Este é o desvario dos desvarios: Madonna quer relançar a sua carreira no cinema. Até aqui tudo bem. Mas acontece que a rainha da pop tem ambições desmedidas e quer fazer o remake do clássico dos clássicos, "Casablanca" (de Michael Curtiz, 1942). Madonna, cujas passagens pelo cinema foram nada mais que medíocres, quer refazer aquele que é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Já não bastou há uns anos "Casablanca" ser sujeito à horrível colorização, agora ainda temos que levar com uma versão do filme de Curtiz da iniciativa de Madonna. A ideia é que a história de passe no Iraque (muito original), e que a cantora interprete o papel de Ilsa, no filme original entregue à divina Ingrid Bergman. Só falta saber quem fará de Rick Blane (Humphrey Bogart). Quase apostava em George Clooney...
Quanto a mim, as intenções da cantora são de uma vã e fútil vaidade, mas acredito que os fãs de Madonna salivem à espera desta versão cinematográfica.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Jazz & literatura


Em Portugal, que tenha conheciemnto, há apenas um livro que versa sobre a relação entre literatura e jazz. É um livrinho editado na Campo das Letras da autoria de Miguel Martins. Lá fora há vários títulos, mas destaco este: "Ask me Now" de Sascha Feinstein, procura estabelecer pontes de ligação (e há muitas!) entre os músicos de jazz e criação literária. O jazz era a música de eleição da Beat Generation (Kerouac, Burroughs, Ginsberg), e muitos outros escritores mantiveram fortes conexões com esta estética: Boris Vian (que também foi músico), Malcolm Lowry, Georges Simenon, Milan Kundera (foi baterista de jazz!), Sam Shepard, Henry Miller, Julio Cortazár, António Ferro, Carlos Oliveira, Jorge de Sena, etc.
O livro de Feinstein pode ser adquirido na Amazon, o do Miguel Martins andará ainda algum exemplar nalguma livraria (a edição que tenho tem já dez anos).

Anos 80 bem medidos


Os nomes que fizeram a música portuguesa dos gloriosos anos 80 estão em anos80. no.sapo.pt. Nesta onda revivalista convém ter sempre à mão este site, que não é graficamente atraente mas os conteúdos compensam a falta de design. O site contém as biografias de muitas bandas e artistas que fizeram a história da música portuguesa na década de oitenta. Constam por lá as bandas mais desconhecidas com aquelas que marcaram os hits radiofónicos. Discos, compilações, piratas e oficiais. E tem um interessante arquivo de artigos publicados na imprensa nos últimos anos, assim como diversas editoras e espaços de espectáculo míticos. A guardar com sentimento saudosista. Na imagem, o grupo É M'as Foice.

Van Gogh


O gato de Vermeer


Jack sorri

Marge grita


Música amadora?

Chama-se Lasse Gjertsen e é um miúdo norueguês que se dedica à animação, ao vídeo e à música. Como muitos outros, de resto. Acontece que Lasse é um dos maiores fenómenos de popularidade do YouTube. Os seus vídeos de animação foram já vistos por milhões de cibernautas. Recorrendo às ferramentas básicas do Photoshop, de diversos programas de edição de vídeo e som e de grandes doses de criatividade, consegue pequenas pérolas (diria delírios) audiovisuais como este clip "Amateur":

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Pintura e filosofia


"As minhas pinturas devem assemelhar-se ao mundo, de forma a evocarem o seu mistério" - René Magritte
(Nota a propósito: quando frequentei o 10º de escolaridade, a capa do livro de filosofia era esta pintura. Fiquei sempre com a sensação de que era uma imagem de capa ideal para despertar o espírito filosófico num aluno da minha idade. Aliás, toda a pintura de Magritte representa uma inquietação do espírito).

As viagens que faltam

Já agora, Mr. Scorsese, para quando uma viagem pelo cinema alemão, francês, japonês ou espanhol?

Charles Manson - assassino e estrela rock


É uma notícia assaz desconcertante. Charles Manson, a cumprir pena de prisão perpétua pelo assassinato (em 1969) de Sharon Tate, mulher do realizador Roman Polanski, vai lançar gratuitamente um disco pela Internet. Manson, fervoroso adepto de Bob Dylan e dos Beatles, já fazia música no final dos anos 60 quando fundou a temível e fanática seita “The Family”, da qual Manson era o suposto Messias e que acabou por violar e assassinar a actriz em ascensão Sharon Tate (mais outros 4 amigos), à altura grávida de 8 meses. O álbum chama-se “One Mind”, tem 16 canções certamente impregnadas de letras alucinadas com traquejo blues e country. É que Manson tinha como sonho tornar-se numa estrela rock. E pelos vistos ainda continua a manter esse sonho, mesmo atrás das grades.
Que não haja enganos: apesar da repulsa que a figura de Manson provocou na opinião pública mundial por ter sido responsável pelo acto hediondo que impulsionou, circulam pelo mundo muitos fãs de Manson e pessoas obcecadas pela imagem que tem na cultura pop moderna (há imensas alusões no cinema, na literatura e na música pop-rock à figura de Manson). Há tempos li num jornal que Charles Manson poderia sair em liberdade condicional este ano, facto que chocou muita gente. Creio que não se confirmará. Certo é que, apesar de encarcerado na prisão Estatal da Califórnia, Manson irá mesmo assim lançar um disco de canções para o exterior através da auto-estrada da informação que é a Internet. Como, não sei.
Sobre o caso do homicídio de Sharon Tate e a liderança “espiritual” de Charles Manson há um interessante filme recente (2004) que retrata a personagem conturbada e psicótica de Manson: “Helter Skelter – o Caso Sharon Tate”, de John Gray.

A blogosfera mata!


Paradoxos tecnológicos



Acabei de actualizar o meu leitor de mp3, um Creative Zen Vision: M de 30GB de capacidade. Mais música nova, mais fotografias, mais vídeos. No fim faço a contagem do que contém esta caixinha preta: 235 álbuns, 2946 faixas de música, 1465 fotografias e 18 vídeos. Resumindo: muito mais informação do que aquela que consigo usufruir nos dias de hoje. Tanta abundância de música e de informação para tão pouco tempo de fruição. Às vezes penso que ouvia mais música e com mais atenção quando usava o velhinho walkman das cassetes áudio. Quanto mais tecnologia e capacidade, menos o investimento... Paradoxos dos tempos modernos, é o que é.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

3D - revolução a caminho

Há dois anos passei pela experiência de ver cinema não em 3D, mas em 4D. Foi no cinema do parque de diversões do Zoomarine, em Albufeira, naquela que é a primeira sala do país com tecnologia digital de ponta preparada para tal efeito. A quarta dimensão caracteriza-se por incluir elementos ligados aos cinco sentidos, como o vento, a água ou os cheiros para aumentar a sensação de realismo e de envolvimento sensorial. O curto filme abordava as questões do aquecimento global, da exploração dos oceanos e da destruição das florestas húmidas e tropicais. Foram apenas 15 minutos de projecção, com os tais óculos indispensáveis, mas confesso que fiquei impressionado com o poder de emersão que as imagens e todo o ambiente à volta geraram nos espectadores (e as minhas filhas pequenas que o digam!). Alturas houve em que o espectador sentia estar no meio do oceano e ter que se desviar dos tubarões ameaçadores.
O filme U23D dos U2, que neste momento se encontra em exibição em salas tecnologicamente preparadas para o efeito, não possui os elementos reais do 4D - água, vento ou cheiro. Mas pelas experiências já vividas por espectadores e críticos de cinema, consta que a experiência é avassaladora: a sala transforma-se mais numa sala de concerto (em que o espectador se sente no meio da acção) e menos numa sala convencional de cinema. A pergunta instala-se: qual o futuro do cinema? Até que limites a tecnologia continuará a desenvolver a linguagem e a experiência do cinema? Quais as fronteiras que o digital irá impôr no domínio do entretenimento?
Nota: para o Verão está já anunciado um novo filme com visionamento 3D: "Viagem ao Fundo da Terra". O fenómeno promete.

Quem é Clutchy Hopkins?

Dizem que este homem de aparência cansada, de farta cabeleira, barba à eremita e já com uns anos de vida em cima, é Clutchy Hopkins. Dizem, mas ninguém sabe ao certo. Já conhecia o fenómeno de nome, de ter ouvido ou lido algures sobre o personagem, mas só agora, após a leitura da excelente crítica no último suplemento Ípsilon do Público pela pena do João Bonifácio, é que aprofundei a coisa. É quase certo que este Clutchy Hopkins é um personagem criado por um músico e /ou produtor de reconhecida qualidade artística mas que, por qualquer razão (comercial até), prefere cultivar o anonimato (lembremo-nos dos Residents). Especula-se que por detrás deste homem barbudo estejam nomes como Money Mark (ex-Beastie Boys), Madlib (músico de fusão jazz electrónico), DJ Shadow (o mago do sampling) ou Danger Mouse (dos Gnarls Barkley). Se formos rigorosos, qualquer um destes músicos tem características estéticas que os denunciam como possíveis alter-egos de Hopkins. Se tivesse de apostar, apostaria claramente em Money Mark ou DJ Shadow.
Seja quem for (e a verdadeira identidade acaba por não ser o mais importante), o que interessa assinalar é que a música de Hopkins é vigorosa e repleta de elementos de interesse. Já ouvi o excelente segundo álbum do artista (recentemente editado), "Walking Backwards" e, não sendo propriamente revolucionário ou uma obra-prima, é um excelente disco que revigora a linguagem de fusão entre jazz, funk, blues, downtempo, hip-hop e electrónica. O seu primeiro álbum, "The Life of Clutchy Hopkins" (2006) já denunciava uma extrema clarividência estética. Para tentar saber um pouco mais acerca de Clutchy Hopkins ou, quiçá, saber menos, pode-se investigar neste site.

O ofício de Dreyer


O ofício dele era o cinema. E ao longo da vida fez cinema de dimensão artística raramente igualável. O sueco Carl Theodor Dreyer seguia o mesmo lema de Robert Bresson: o cinema não é entretenimento, o cinema é uma escrita. Carl Dreyer foi um cineasta de grande exigência técnica e estética. Desde “A Paixão de Joana D’Arc” (1928), passando por “Vampyr” (1932) até às obras magnas “A Palavra” (1955) e “Gertrude” (1964), Dreyer construiu um universo imagético único, um longo percurso de procura pelo interior das emoções humanas (e religiosas) e pelo sentido existencial das coisas. Sem Dreyer, não teria havido o mesmo Bergman, o mesmo Antonioni ou o mesmo Reygadas. “O Meu Ofício” é um sublime documentário (edição DVD Costa do Castelo) que aborda alguns pontos essenciais da vida e do trabalho criativo do mestre do cinema sueco. Um olhar fascinante sobre um dos mais fascinantes realizadores de sempre.

Trilok Gurtu - o mago da percussão


É considerado o maior percussionista do mundo. Se não é totalmente verdade, andará lá por perto. O indiano Trilok Gurtu tem uma carreira internacional impressionante e tem um espantoso domínio rítmico sobre os instrumentos de percussão (bateria e tabla, o instrumento indiano por excelência que requer uma grande e longa aprendizagem). Gurtu, esse inigualável monstro da world music e mestre da tabla indiana vem mostrar a solo todo o seu virtuosismo e criatividade a duas cidades portuguesas: Águeda e Guarda, para provar (uma vez mais) que o Portugal cultural não se reflecte apenas no que sucede em Lisboa, Porto ou Coimbra. Sábado, dia 12 de Abril, 21h30, Trilok Gurtu ao vivo no Teatro Municipal da Guarda. Imperdível.

Universo Biblioteca


Porto e Lisboa não constituem os centros principais de promoção e organização de eventos culturais. Em cidades ditas secundárias, enfiadas no interior do país, acontecem muitas actividades interessantes que chegam até a fazer sombra ao monopolismo cultural das duas grandes cidades do país. Neste caso específico, refiro-me à Póvoa do Varzim e à sua diversificada programação cultural na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto. Durante o mês de Abril, está programado um interessante ciclo de cinema dedicado ao tema da relação entre a biblioteca, os livros, a literatura e o cinema, tendo como leitmotiv a frase de Borges "O Universo (a que outros chamam a Biblioteca)" integrado nas comemorações do mês de Abril, Festa do Livro e da Leitura da Biblioteca. Do programa constam obras tão lúcidas e empolgantes como "As Asas do Desejo" de Wim Wenders; "Toda a Memória do Mundo" (um curto mas excelente documentário) de Alain Resnais ou "Grau de Destruição" de François Truffaut.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Scorsese e o myspace

E eis que o grande Martin Scorsese aderiu ao myspace (e não é uma página de um fã, como é habitual). Página muito bem construída e repleta de informação. Scorsese sabe o que vale uma página de divulgação (não é que ele precise…) num sítio tão popular como o myspace e não é por acaso que já tem 66 mil “amigos”. Até se deu ao trabalho de colocar pequenos clips de boas-vindas. ah, e cita logo Robert Bresson na página principal! Não há pai para o Scorsese.

Cinema e arquitectura


Leio aqui que vai decorrer no Porto um ciclo sobre as relações entre o cinema e a arquitectura. Tem por título "Cinemarquitectura" e vai decorrer até ao dia 18 de Abril, juntando estudantes, arquitectos e realizadores. Do programa geral constam conferências e debates à volta do tema com cineastas, críticos e arquitectos. Como se pode constatar no programa de filmes programados, vão ser projectados filmes cujas relações entre cinema e arquitectura são evidentes, mas julgo que faltam muitas obras que contextualizam muito melhor essas mesmas relações: "Metropolis" (na imagem) de Fritz Lang; "O Gabinete do Dr. Caligari" de Robert Wiene; "Playtime" de Jacques Tati; "Blade Runner" de Ridley Scott; "Alphaville" de Jean-Luc Godard; "O Último ano em Marienbad" de Alain Resnais; "Chungking Express" de Won Kar Wai; "Hiroshima Meu Amor" de Alain Resnais. E as escolhas estão ainda longe de esgotar...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O melhor Charlton Heston


A recente morte do actor Charlton Heston trouxe-me à memória uma série de filme em que participou. Como é óbvio, não conheço toda a sua filmografia. Mas dos filmes mais famosos há um que ficará para sempre impregnado no meu imaginário cinéfilo no qual Heston desempenha um papel assombroso. Não, não se trata do papel de Moisés no bíblico filme "Os Dez Mandamentos" (1956, de Cecil B. DeMille), ou de Coronel George Taylor no "Planeta dos Macacos" (1968, de Franklin Schaffner) ou, ainda, do invevitável Judah Ben-Hur no épico "Ben-Hur" (1959, William Wyler). Refiro-me à obra maior (quanto a mim) de Orson Welles: "Touch of Evil" (1958). Neste filme barroco e estilizado até à medula de Welles, Charlton Heston interpreta o polícia mexicano Mike Vargas, envolvido num mundo de crime e corrupção liderado pelo sinistro capitão Hank Quinlan (um majestoso Orson Welles). Esse sim, será o Heston para recordar.

4'33'' - O silêncio de John Cage


Não deixa de ser interessante que o Nuno Markl, conhecido humorista nacional e divulgador das manifestações pop do cinema e da música (estas duas observações não têm nada de pejorativo), divulgue no seu blogue uma das obras mais radicais e vanguardistas da história da música: a interpretação da peça 4’33’’ de John Cage por uma orquestra. Cage foi um esteta revolucionário, mais pelo lado conceptual e teórico do que propriamente pelas suas composições musicais. E 4’33’’, apesar de ser porventura o seu trabalho mais conhecido (tratando-se de Cage deve dar-se uma conotação relativa ao termo “conhecido”), é aquela obra que dinamitou convenções musicais e permitiu abrir o espectro sonoro com a inclusão do silêncio na linguagem musical (ainda que não tenha sido o primeiro a fazê-lo, Cage foi o mais radical). 4’33’’ é uma obra sobre o silêncio, mas um silêncio imaginário, visto que John Cage pretendeu que o público “compusesse” a obra com os ruídos produzidos espontaneamente. Claro que, para Cage, tratava-se também de provocar a audiência com um sentido de humor muito próprio.
Nos anos 40 John Cage visitou uma câmara anecóica na Universidade de Harvard. Esta câmara é, basicamente, uma sala projectada de tal modo a cancelar todos os ruídos ambientes, sendo totalmente à prova de som. As câmaras anecóicas são usadas para medir as propriedades acústicas de instrumentos e microfones, e para executar experiências psico-acústicas. Cage entrou nessa câmara com o intuito de ouvir (ou não) o silêncio absoluto, mas como ele escreveu depois, "ouvi dois sons, um alto e um baixo. Quando os descrevi ao engenheiro de som, ele informou-me que o som alto era do meu sistema nervoso, e o baixo o meu sangue em circulação." Depois desta experiência, Cage escreveu (literalmente) a peça 4’33’’ com três movimentos e apresentou-a pela primeira vez ao vivo (com uma assistência atónica) com a interpretação do pianista David Tudor, em Agosto de 1952. Cage abriu, desta forma abrupta, novas portas de percepção sonora, acústica e estética.

Beatbox na publicidade

Joseph "Poolpo" é um jovem francês que pratica uma variante da cultura hip-hop, o beatbox (sons de instrumentos e ritmos com a boca). Concorreu ao programa Ídolos do seu país mas agora é mais conhecido devido à sua participação nesta publicidade à Vodafone. O spot está muito interessante e, não sendo propriamente um Rahzel, Joseph releva em pouco mais de 40 segundos o seu talento e criatividade. Isto revela também que os criativos das agências de publicidade não se restringem apenas aos sucessos comerciais dos tops, abrindo portas a propostas musicais alternativas. Mas agora, para beatbox "comme il faut", é favor ver uma pequena demonstração de Shlomo.

Artistas & artistas - 5


Jonathan Yeo

Artistas & artistas - 4


Artur Barrio

Artistas & artistas - 3


Romain Slocombe

Artistas & artistas - 2


Victoria Diehl

Artistas & artistas


sábado, 5 de abril de 2008

Vida e morte de uma Diva


Vi ontem no canal 2 da RTP um documentário sobre uma das grandes divas do cinema de Hollywood, Bette Davis. Não sendo uma das minhas actrizes clássicas preferidas (eu é mais Greta Garbo, Marlene Dietrich, Maureen O’Hara, Joan Crawford ou Ingrid Bergman), fiquei deveras impressionado com o seu percurso artístico e de vida. Era conhecido o seu feitio intratável e explosivo (na vida familiar e no mundo do cinema), mas talvez só tenha triunfado em Hollywood à custa desse seu temperamento intempestivo, numa época na qual os homens ditavam as regras, na vida social como na artística. Como todas as grandes divas do cinema, Bette Davis também sentiu as emoções do estrelato e as agruras do declínio. A estrela do imortal filme “All About Eve” (1950, de Joseph Mankiewicz) soube ajustar o seu perfil pessoal e o seu imenso talento artístico para marcar a história do cinema. Emocionante foi a sua despedida do cinema quando em 1987 fez o seu último filme, "As Baleias de Agosto" do realizador Lindsay Anderson, repartindo o elenco com outra diva do cinema (mudo, neste caso), Lillian Gish.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Génio" segundo o Google (ou não)


Há fãs para tudo. E o fã que concebeu este banner do google revela ser um grande admirador dos Spiritualized e, especialmente, do seu vocalista e líder, Jason Pierce. A imagem não é clara: no campo de pesquisa search está a palavra “genius”. E assumindo um erro, o Google sugere: “did you mean Jason Pierce?”Não deixa de ser uma ideia inspirada.

O artista louco e genial


- “Como se sente enquanto pintor mais famoso do mundo?
- “Não sei se sou o pintor mais famoso do mundo, porque muitas pessoas que me abordam na rua para me pedirem autógrafos não sabem se sou cantor, escritor, estrela de cinema ou louco. Não sabem quem eu sou”.
É desta forma curiosa e provocadora que começa um documentário sobre a vida e obra do célebre pintor surrealista espanhol, Salvador Dalí. Um filme que pode ser visto na íntegra aqui (com legendas em inglês). Um documentário deveras interessante sobre o pintor que se dizia louco e genial (sobre estes conceitos haveria muito a dizer) e que marcou a história da pintura do século XX.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Taschen - modelo de sucesso


Começou por ser uma simples editora de livros maioritariamente de arte fundada em 1980 por Benedikt Taschen em Colónia, Alemanha. Passaram quase três décadas e hoje a Taschen é uma referência mundial absoluta no mercado de livros e catálogos sobre os mais variados assuntos: para além da arte genérica (sobretudo moderna e contemporânea), há a destacar o design, a arquitectura, o cinema e a fotografia. O sucesso deveu-se, em grande medida, à forma como o seu fundador desenvolveu uma política editorial rigorosa e centrada em dois critérios fundamentais: qualidade das edições (na forma e no conteúdo) e baixo preço (ou preço muito módico comparado com outras edições especializadas). Por isso a Taschen é popularmente conhecida em todo o mundo. Por certo que não haverá um único apreciador de artes (cinema, pintura ou fotografia) que não tenha pelo menos uma edição desta editora nas suas estantes de livros. A Taschen combateu firmemente o elitismo no acesso à literatura sobre arte e as inerentes editoras especializadas em livros de arte (e também a sua política de preços caríssima), possibilitando a formação cultural de um novo público (sobretudo jovem) ao longo destes 30 anos de existência. Longa vida, portanto.

Tom Waits no feminino


É uma notícia há muito anunciada e agora confirmadíssima: o primeiro disco da actriz norte-americana Scarlett Johansson, musa actual do realizador Woody Allen, está prestes a editar o seu álbum de estreia: “Anyywhere I Lay My Head”. Sabe.se que a actriz interpreta 10 canções antigas do mestre Tom Waits e o disco foi produzido pelo guitarrista dos TV on The Radio, David Andrew Sitek. Outro mestre da pop, David Bowie, participa no disco num dueto com Scarlett em dois temas que farão parte integrante do alinhamento do disco e, referindo-se à voz e qualidades interpretativas da actriz de “Match Point”, o Camaleão disse que a actriz - e agora cantora - dá às canções uma toada… “mística”! Esperemos para ver e ouvir se as expectativas altíssimas se cumprem, isto porque, sejamos claros: cantar versões de músicas do inigualável Tom Waits é uma empreitada não só corajosa como hercúlea.

O escritor vs.a personagem


"Eu estou a morrer, mas aquela puta da Madame Bovary viverá para sempre".
Gustave Flaubert

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Os erros dos filmes

Para o cinéfilo o site moviemistakes não é novidade. Trata-se de um sítio onde se compilam, meio a brincar meio a sério, os erros (“goofs”, “bloopers”) que os filmes contêm. Ou seja, erros de continuidade, de montagem, de realização, de efeitos visuais defeituosos, anacronismos históricos, de intromissões visuais inesperadas, interpretações disparatadas, etc. Pessoalmente, é matéria que não me interessa muito porque não tenho tendência voyeurista que me leve a dissecar um filme ao pormenor. E há quem consiga descortinar os erros mais indecifráveis e ocultos que passam despercebidos a 99% dos espectadores (e só possíveis de detectar com o inevitável recurso do DVD)..
Há muito tempo que não consultava o site. E fiquei algo boquiaberto ao constatar que os dois filmes com mais “mistakes são dois dos meus filmes preferidos: “Apocalypse Now” e “The Shining”. O primeiro tem referência de 396 erros detectados (!), o filme do Kubrick tem 299. Custa a acreditar. Seja como for, sendo duas obras geniais, não vou querer saber de que erros alegadamente padecem. Prefiro viver na ignorância e preservar o meu imaginário cinéfilo intacto.

O cinema educa - parte 2


Já escrevi sobre a importância do cinema como recurso pedagógico. Não imaginava era que alguém pudesse levar ao extremo tal premissa. Aconteceu com David Gilmour (não, não é o guitarrista dos Pink Floyd) e o seu filho Jesse. David Gilmour (na imagem) foi crítico de cinema durante 15 anos num famoso programa de televisão. Percebendo que o seu filho de 16 anos não tinha aproveitamento na escola e que iria desistir de a frequentar, propôs-lhe uma proposta arriscada. Gilmour disse ao filho que podia desistir da escola, não trabalhar, e podia dormir até tarde, com uma condição: a obrigação de ver três filmes por semana juntamente com o pai. Foi a via que Gilmour desvendou para educar o filho - trocar os livros da escola pelos filmes.
Durante mais de três anos, pai e filho viram mais de 100 filmes juntos. É o próprio David Gilmour que defende: "sabia que o meu filho ia desistir da escola e eu antecipei-me. Um filme não pode educar no mesmo sentido que a escola, mas foi a única maneira que encontrei de lhe pôr factos na cabeça e de o fazer reflectir sobre o rumo da sua vida". O pai elaborou um plano de visionamento de filmes sobre cada tema curricular (geografia, história, ciência, desporto, literatura, etc). No final de cada filme, pai e filho discutiam sobre a estética e a mensagem de cada filme. Eis alguns exemplos de filmes que ambos viram juntos: "Os 400 Golpes", "A Lista de Schindler", "Apocalypse Now", "O Exorcista" ("com este filme Jesse aprendeu a superar os seus medos), "Casablanca", "Serenata à Chuva", "O Padrinho" ("com o filme de Coppola, Jesse compreendeu os perigos do sedutor submundo da corrupção"), etc.
Por último, David faz uma afirmação que dá que pensar nestes tempos conturbados da educação: "existe uma estranha epidemia no mundo ocidental. Jovens inteligentes, da classe média, estão a desistir da escola e a chumbar. A escola não atrai os jovens, e estes precisam de novos sistemas de ensino que os motivem, temos de pensar de forma ousada, como eu fiz". Este programa intensivo de filmes provocou em Jesse um renovado interesse pelo ensino formal, tendo entrado na universidade. Agora, aos 22 anos, Jesse Gilmour pretende ingressar numa escola de cinema em Praga e ser realizador.

Entretanto, leio na edição online do jornal espanhol El País que esse caso resultou em livro. O título é "Educado pelo Cineclube" e conta a incrível experiência de David Gilmour que educou o filho Jesse com filmes de Frank Capra, Luís Buñuel, David Cronenberg ou Oliver Stone. O livro está traduzido em 13 línguas. Esperemos que uma delas seja a portuguesa.
Para ler a reportagem na íntegra, ver aqui.

O virtual e o real


Vi ontem no canal AXN um episódio da série C.S.I. Nova Iorque. O argumento deste episódio baseava-se num rapariga que aparecia morta. Até aqui nada de novo, uma vez que é o ponto de partida habitual desta série de investigação criminal. O curioso é que essa rapariga estava vestida e maquilhada como um avatar do "Second Life", um popular site de realidade virtual 3D no qual qualquer pessoa pode assumir uma determinada identidade cibernética (há milhões de utilizadores por todo o mundo). Os investigadores não fizeram mais nada: para investigar o caso entraram no mundo virtual do "Second Life", criaram uma personagem e interagiram com o alegado assassino da tal rapariga. Parte do episódio passou-se em total emersão virtual, e era como se os polícias e o criminoso estivessem a jogar um jogo online de realidade virtual em 3D.
Apesar de ser ficção (a história, não o "Second Life"), pareceu-me um exemplo claro dos novos paradigmas de relações sociais modernas, as quais, cada vez mais, se desenvolvem em ambientes virtuais e menos em contacto físico directo. A realidade quotidiana acaba por se misturar com a realidade virtual, sendo o "Second Life" (entre outras plataformas digitais de comunicação) um meio privilegiado para qualquer pessoa poder projectar outra identidade e criar todo um universo pessoal paralelo (com as inerentes fantasias e sonhos que só podem concretizar-se no mundo virtual). Há quem esteja totalmente viciado no "Second Life", quem quase já não distinga o real do virtual, quem dê mais valor à vida criada no ciberespaço do que à vida real. Era o caso da rapariga do C.S.I. Nova Iorque.
Pierre Lévy
, filósofo e ensaísta francês especialista em cibercultura, revelou no seu livro "O Que é o Virtual?", como a sociedade moderna está a padronizar-se, cada vez mais, por modelos de funcionamento moldados pela tecnologia digital. Por outro lado, o paradigma de "Matrix" parece estar enraizado no nosso quotidiano e nas nossas vivências. Estas manifestações de cibercultura hão-de engolir-nos a todos, mais cedo ou mais tarde. E para o bem e para o mal.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Dylan - um ícone indiferente


Estou interessado em ver o filme “I’m Not There” de Todd Haynes (sobre o percurso artístico de Bob Dylan) mas apenas como objecto cinematográfico. Gosto muito do realizador e das suas obras insurrectas – “Seguro” e “Veneno” (menos empolgante me pareceu o excessivo “Velvet Goldmine”), mas confesso que o nome de Dylan me deixa praticamente indiferente. Reconheço-lhe o papel importante na avolução da linguagem folk e pop dos anos 60 e 70, reconheço que foi um artista charneira do seu tempo, decididamente influente para várias gerações de músicos. Sei também que os seus poemas são estudados em universidades americanas. Mas há qualquer coisa na sua música que não me seduz. Pode ser a voz roufenha ou a vertente baladeira. Claro que considero o álbum “Blonde on Blonde” uma obra verdadeiramente ímpar.
Em relação ao filme, as críticas vão no sentido de que se trata de uma notável abordagem que faz jus ao imaginário artístico do songwriter americano, numa obra fragmentada com o bom desempenho dos actores que interpretam a figura de Dylan (dos quais se destaca Cate Blanchett). Mas nunca compraria um bilhete para ver “I’m Not There” com o mesmo entusiasmo com que o fiz para ver “Control”.

Robert Musil


É um dos acontecimentos do ano no que diz respeito ao mercado editorial português: no próximo dia 7 de Abril, vão ser editados os dois volumes da obra literária “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil (1880 – 1942). Traduzido pela primeira vez directamente do alemão pelo competentíssimo João Barrento (tradutor, ensaísta, crítico literário), este romance é tido como o baluarte da pós-modernidade do século XX, ao lado de “À Procura do Tempo Perdido” de Marcel Proust e “Ulisses” de James Joyce (nomes a que se poderá adicionar Franz Kafka). Tal como a obra “Ulisses”, “O Homem Sem Qualidades” é uma obra muito citada e referenciada mas pouco lida. É o meu humilde caso. De Robert Musil li apenas “O Jovem Törless” (o outro livro que Musil escreveu em vida), um possante retrato da juventude através da trajectória existencial de um jovem num internato e das suas perturbações (que vão das dúvidas teológicas até os traumas da diferenciação sexual – obra que influenciou a escrita existencialista de “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira).