
Há dias, no portal de informação
IOL Portugal Diário, surgia uma notícia curiosa, cujo título era um verdadeiro achado:
"Fãs de música clássica e de heavy-metal são parecidos". O estudo foi realizado numa universidade da Escócia e os resultados foram obtidos após entrevistas a 36 mil amantes de música. A ideia do estudo era a de identificar características comuns de personalidade conforme gostos musicais específicos. Assim, o estudo determinou que os fãs de
jazz são criativos e extrovertidos, enquanto que os que gostam de música
pop tendem a ter pouca criatividade.
No âmbito dos estudos musicológicos e da psicologia da música, estes dados não são propriamente novidade. A música é uma linguagem e uma expressão artística capaz de agregar e unificar traços de personalidade comuns. Por isso é que a música pode ser considerada um dos principais paradigmas de identidade cultural, de hoje como de ontem. Na verdade, tem de haver traços de personalidade muito distintos entre um fanático de free-jazz e um fanático de música pop comercial. Um ouvinte de jazz tem, à partida, um carácter mais libertário, um gosto mais atento à experimentação e ao risco estético (que pode estender-se à vida quotidiana). Uma pessoa que ouça a RFM todos os dias será, certamente, alguém muito mais conformista e apegado às convenções. A música tem essa fulgurante capacidade de gerar tribos à volta de um mesmo ideal, de um mesmo espírito e identidade.
A originalidade deste estudo tem mais a ver com a revelação de uma relação, mais estreita do que se esperava, entre as personalidades dos fãs de música clássica e de heavy-metal, dois géneros musicais que se poderia supor existirem em pólos opostos. "Como é que se pode ter dois estilos tão diferentes com grupos de fãs tão parecidos?", perguntou o coordenador do estudo. A resposta está, para o investigador, no aspecto "teatral e dramático" dos dois estilos. Não sei se a explicação será tão linear, mas uma coisa é certa: ainda persistem grandes preconceitos e estereótipos relativamente aos fãs de heavy-metal e suas múltiplas variações estilísticas. Ao contrário do que esse dogmatismo intelectual preconiza, os fãs destes géneros musicais extremos não são violentos nem suicidas, não defendem a anarquia social ou o culto do satanismo. E se o fazem, é basicamente para promoverem o culto de uma imagem, de uma identidade tribal (como o fazem outros fãs de outros géneros musicais) ou, igualmente válido, para mera promoção junto dos media e do público. Os fãs de black metal, de Marilyn Manson, de Moonspell ou dos Cradle of Filth gostam da música destes artistas porque têm em comum o gosto pela imagem, pelo visual gótico (caras pintadas, aparência demoníaca), pelas letras lúgubres. O resto é secundário. Não são géneros musicais opostos, possuem até elementos em comum. De resto, são cada vez mais as bandas de metal que integram na sua música sonoridades, digamos, clássicas (com sintetizadores e samples, é certo).

Conheci muitos amantes de heavy-metal que eram, de facto, pessoas normalíssimas e até tímidas. Mas assim que ouviam o crepitar de um riff de guitarra dos
Sepultura, parecia que levitavam os pés do chão. É esse lado teatral e dramático que é destacado no estudo, e que se torna também extensível à música clássica (ou alguma dela, uma vez que é sempre perigoso generalizar). A ópera wagneriana sempre foi a tentativa de celebração da arte total, grandiloquente e majestática. Os grandes concertos de orquestras em grandes teatros, idem aspas. É o apelo a todos os sentidos, como grosso modo, acontece num concerto de uma grande banda de heavy-metal. E quando as facções morais da sociedade acusam o heavy-metal de ser uma música do demónio e que serve para levar ao abismo a mente dos jovens, não esqueçamos que os oficiais Nazis, educados e cultos, colocavam
Wagner a tocar bem alto nos campos de extermínio e de concentração!
Por conseguinte, acaba por não chocar a ideia de que seja possível a existência de muitos amantes de música que sejam, simultaneamente, amantes de Stravinsky e de Sepultura, de Debussy e de Slayer, de Bartók e de Dillinger Escape Plan. Tão possível que eu próprio me assumo como fã destes grupos/compositores e nem por isso denuncio quaisquer distúrbios psicológicos ou outros. Ou seja, incluo-me numa categoria à parte que não sei se é analisada na referida investigação.