domingo, 14 de setembro de 2008

Um disco e um site a descobrir


Um amigo mandou-me por mail um link para descarregar um disco que, dizia-me, iria gostar (não se enganou). O referido disco é "Drumboy" da dupla Elitsa Todorova & Stoyan Yankoulov, editado em 2004. Não conhecia. Elitsa e Stoyan, como também são conhecidos, são dois consagrados percussionistas (ela é também cantora) oriundos da Bulgária e, na verdade, assinaram com "Drumboy" um disco esplêndido, feito de canto búlgaro tradicional, ritmos explosivos e etéreos, e sonoridades da tradição musical balcânica. Um dos temas conta com a colaboração de um dos mais respeitados músicos búlgaros, o clarinetista Ivo Papazov. Recomendo vivamente a audição e a descoberta do disco, o qual pode ser descarregado neste link. Já agora, sugeria também uma visita à página oficial da cantora Elitsa Todorova, que chegou a cantar nos reputados projectos "Mystery of Bulgarian Voices" e "Cosmic Voices from Bulgaria". Após uma breve pesquisa, fiquei também a saber que a dupla participou no festival da Eurovisão em 2007, tendo ficado em 5º lugar com uma canção chamada "Water", manifestamente de teor mais comercial. Pode ser visto aqui.
Mesmo para quem não queira seguir esta minha sugestão de ouvir o fabuloso disco "Drumboy", pode sempre pesquisar o sítio no qual este disco está disponível: Stigma Rest Room, um site que disponibiliza milhares de discos catalogados por dezenas de géneros e tendências musicais diferentes. Por exemplo, existem 223 discos na categoria de "electrónica"; 100 em "world music", 59 em "prog rock" e por aí fora. Discos de muitos géneros e de épocas distintas prontos a instalarem-se no nosso computador à distância de um clique. No que me diz respeito, já comecei a descarregar grande parte da secção "soundtrack" dedicada às bandas sonoras para cinema!


Agora a um preço simpático


Por três ocasiões escrevi - aqui - sobre o génio esquecido de Harold Lloyd (1893 - 1971), uma das grandes figuras da comédia burlesca americana do cinema mudo, a par de Buster Keaton e Charlie Chaplin. Uma dessas ocasiões foi para criticar o preço exorbitante (90€) de uma caixa de 7 DVDs (à venda na Fnac) com a filmografia de Lloyd, e ainda por cima de importação. Ora, a boa novidade é que acaba de ser lançada uma caixa de DVD portuguesa contendo 10 discos com o essencial do cinema de Harold Lloyd e mais um disco de extras (documentários, entrevistas, etc). O preço é bem mais razoável - 49,95€. Segundo o crítico de cinema do Expresso, Manuel Cintra Ferreira, os DVDs têm uma excelente qualidade visual resultante da restauração das imagens originais dos filmes. Sem dúvida uma excelente oportunidade para conhecer, em 24 horas de visionamento dos seus filmes, a obra de Harold Lloyd, referência absoluta na arte da comédia de toda a história do cinema.

sábado, 13 de setembro de 2008

Ana quem? Ana Free!



É um daqueles fenómenos inexplicáveis. Um verdadeiro "case study" para os estudiosos da sociedade da informação digital. Mesmo sabendo quão repentina e global pode ser a fama através da Internet, continuo sem perceber o que está na origem e propagação deste caso. Refiro-me a uma tal cantora chamada Ana Free. É portuguesa (pai inglês) e vive em Inglaterra. Quem é Ana Free?? Pesquise-se o seu nome no Google. O Google devolve mais de 6 milhões de resultados na Internet. Coloque-se o seu nome no YouTube e surgirão dezenas de vídeos da dita cantora filmados de forma absolutamente caseira e acompanhada apenas da guitarra. A cantar canções originais e algumas versões de temas comerciais famosos (Rolling Stones, Ben Harper, Nickelback...). Alguns desses vídeos contam com mais de meio milhão de visionamentos. Meio milhão para alguém que era totalmente desconhecida há um par de meses, não tinha qualquer disco editado nem concertos realizados, nenhum apoio do circuito comercial e zero trabalho de marketing ou publicidade. Só agora editou um single que toca insistentemente na rádio - "In My Place" e saltou para o primeiro lugar do top iTunes Portugal. O sucesso abrupto de Ana Free foi aproveitado para uma publicidade televisiva da Zon (aqui), o que lhe garantiu ainda mais exposição mediática (e repare-se como os publicitários tiveram o cuidado de indicar uma legenda a dizer "uma história verídica"). A imprensa e as televisões, quais tubarões com fome vampiresca de mediatismo, já começaram a apontar holofotes para a Ana Liberdade.
Nos últimos dois anos surgiram diversos grupos e músicos que despontaram para o êxito maciço a partir da Internet como única plataforma de promoção (dos Artic Monkeys a Mika), mas o caso de Ana Free reveste-se de contornos ainda mais extremos em termos de disseminação virtual. A questão coloca-se deste modo: Ana Free é uma intérprete (cantora e guitarrista) absolutamente mediana, como há milhares de outras em todo o mundo - o Myspace tem 8 milhões de bandas/músicos amadores registados. Não canta mal, é certo, toca guitarra como mandam as regras, mas não se lhe vislumbra uma centelha de criatividade ou originalidade na abordagem musical. Colocou os seus vídeos no YouTube como milhões de outros jovens. Tem legítimas aspirações ao estrelato como milhões de outros jovens. Ora, como foi possível que uns vídeos caseiros de uma vulgar jovem a cantar umas canções acústicas insossas tenham servido de base para tamanha exposição planetária, quando há milhares de outros músicos amadores (porventura bem mais talentosos e inspirados) que não conseguem tal feito? Como se propaga, na sociedade da comunicação digital global, um fenómeno destes, em detrimento de tantos outros? Da mesma forma como surgiu de rompante este fenómeno, que continua a crescer, poderá com a mesma velocidade estatelar-se no limbo do esquecimento. É uma questão de tempo para verificar o resultado desta bola de neve imparável. A Internet pode ser o "eldorado" das oportunidades, mas também pode tornar-se no cemitério súbito para aqueles que se deslumbram com o sucesso imediato. Concluindo: daqui a uns poderemos ter esquecido completamente o nome de Ana Free, ou então, poderemos vê-la a encher o Parque da Bela Vista num mega-concerto para 60 mil pessoas (porventura para os mesmo fãs que Domingo vão ver a Madonna).

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O concerto mais esperado


É um dos concertos mais esperados do ano. Não propriamente esperado pelos 60 mil espectadores que vão ver a Madonna, mas sim por uma pequena franja de entusiastas de música que ousa quebrar barreiras estéticas. Refiro-me ao grupo americano Secret Chiefs 3, que se apresenta pela primeira vez em Portugal no espaço Plano B do Porto, no próximo dia 30 de Setembro. A banda liderada pelo multi-instrumentista Trey Spruance, ex-músico dos seminais Mr. Bungle de Mike Patton (e colaborador de John Zorn), é uma das mais estimulantes e vanguardistas propostas musicais da última década. Numa amálgama de referências musicais – que pode ir do death-metal à música árabe e indiana, do psicadelismo ao surf-rock, da electrónica ao blues – os Secret Chiefs 3 rompem com as convenções estilísticas com sórdido sentido criativo que os torna absolutamente únicos (na esteira dos Estradasphere e dos defuntos Mr. Bungle).
Os Secret Chiefs 3, para além de extraordinários músicos e de visionários exóticos, são também devotos de filosofias orientais místicas e bizarras – facto que se revela nas letras, no trabalho gráfico das capas, nos títulos das músicas e nas indumentárias dos músicos. Surpresa, energia e criatividade serão elementos certamente presentes no muito aguardado concerto desta super-banda americana.

A máscara

"Toda a acção é necessariamente mal conhecida. Para que não expressemos contradições de momento a momento, precisamos de uma máscara - como acontece se quisermos ser sedutores. Mas é preferível conviver com os que mentem conscientemente, porque esses também sabem ser verdadeiros conscientemente. Porque, a sinceridade habitual não passa de uma máscara, da qual não temos consciência."
Friedrich Nietzsche, in "A Vontade de Poder"

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Díptico - 27


"Voo 93" (2006) de Paul Greengrass e "World Trade Center" (2006) de Oliver Stone

11 de Setembro - onde está a verdade?


Passam hoje 7 anos dos fatídicos acontecimentos do 11 de Setembro. 7 anos que mudaram a nossa percepção do mundo. O acontecimento mais marcante deste início de século e de milénio. Nestes 7 anos escreveram-se centenas de livros sobre os atentados, dezenas de documentários, milhões de páginas na internet, com informação a rodos sobre os mais diversos pontos de vista acerca do acontecimento que derrubou a suposta segurança inviolável dos EUA. Ou será que não? Políticas de esquerda e de direita à parte, a verdade é que, para o cidadão comum, subsistem muitas pontas de solta por esclarecer. A versão oficial ("The 9/11 Commission Report") continua a não saber - ou não querer - responder e explicar dezenas (centenas) de questões fundamentais e de contradições sobre os acontecimentos do 11 de Setembro. No seio da própria América, crescem, de ano para ano, movimentos e associações de cidadãos anónimos (bem como de personalidades influentes na sociedade americana - de cientistas a escritores) inconformados com as lacunas de informação que não explicam tudo e que levantam fortes suspeitas de encobrimento de factos. É o caso do The 9/11 Truth Movement, uma organização séria e compenetrada que pretende investigar as raízes do 11 de Setembro e que defende a responsabilidade do Governo americano nos atentados - "inside job".

O sítio http://patriotsquestion911.com/, por exemplo, informa que 140 oficiais superiores das forças armadas, responsáveis de serviços de inteligência e polícias dos EUA põem em causa a versão oficial, assim como 530 engenheiros e arquitectos, 120 pilotos e profissionais da aviação, 300 professores, 210 sobreviventes e familiares das vítimas do 11/Set e 160 artistas e profissionais dos meios de comunicação. Só a título de exemplo, pilotos civis e militares, com larga experiência de voo, consideram que é impossível que os alegados terroristas, manifestamente amadores, tenham conseguido efectuar manobras de extrema complexidade e precisão de cariz militar num avião como um Boeing.


Dylan Avery é um jovem realizador que começou a reunir indícios que apontavam para a possibilidade de os ataques de 11 de Setembro de 2001 poderem não ter sido orquestrados por Bin Laden ou membros da Al Qaeda, mas pelo governo norte-americano ou por altas instituições militares. Esta perspectiva é uma perspectiva verdadeiramente apocalíptica, aterrorizante e, para aqueles que acreditam numa tal democracia, devastadora. Dylan Avery reuniu a informação para colocar em causa a versão oficial dos acontecimentos e lançou o filme na Internet - "Loose Change", considerado o primeiro "blockbuster" produzido especificamente para a rede digital. Na altura, este documentário causou um eco mediático sem precedentes, já que foi visto por milhões de pessoas e comentado por outros tantos. Muitos sugeriram que "Loose Change" não passava de um infindável chorrilho de suposições sem provas. Mas a questão aparenta ser bem mais complexa. Não se trata apenas de devaneios fantasistas oriundas de obscuras teses da conspiração. Algumas das questões levantadas pelo documentário, mais tarde exploradas por outros documentários e analistas, são verdadeiros barris de pólvora que carecem, ainda hoje, de explicação plausível - impacto do avião no Pentágono, razões da derrocada das torres gémeas e da torre 7 do WTC, a não actuação da força aérea militar para impedir os ataques aéreos, as contradições das agências de informação informação dos atentados, a queda ou abate do avião que caiu na Pensilvânia, o som de explosões sucessivas segundos antes da derrocada das torres, entre dezenas de outros assuntos pertinentes.
Dylan Avery levanta fortes dúvidas e coloca em causa, do princípio ao fim, a versão oficial dos acontecimentos. O documentário "Loose Change" vai já na sua terceira e definitiva versão ("Final Cut"). Em cada nova versão, Avery acrescenta novos dados e estuda- novas linhas de investigação. Especulação? Charlatanice? Devaneios? Factos infundados? A política dita séria e institucional também goza destas características. Dylan Avery pode ser um louco fantasista sem remissão, mas quem sabe se um dia a história não lhe dará (parcial ou totalmente) razão pelos argumentos que apresenta. E mesmo que não o documentário não prima por grande rigor factual, "Loose Change" tem pelo menos o mérito de estimular o debate de ideias à volta de um tema sobre o qual, digo eu, dificilmente se saberá algum dia a verdade toda.
Para ver "Loose Change - Second Edition" com legendas em português abrir o link.
PS -
Apesar da série de documentários "Loose Change" ser a mais conhecida e comentada, nos últimos anos têm surgido outros inúmeros documentários que apontam explicações alternativas face à versão oficial do 11 de Setembro.

Red Carpet


Pode ser descarregada aqui a edição online da revista de cinema Red Carpet, número de Setembro. Fazendo download directo ou lendo directamente no site, de forma simples, pode ler-se: críticas a filmes estreados recentemente, artigos de opinião, análises de séries de televisão, destaques do mercado DVD, retrospectiva da vida e obra de Meryl Streep e de José Mojica Marins (com retrospectiva no festival de cinema Motel LX, os musicais da história do cinema, uma interessante reportagem acerca do guarda-roupa no cinema, entre outros temas interessantes.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O que é ser rebelde na televisão



As televisões vivem de chavões, de conceitos de moda. Quanto mais previsíveis e fúteis, melhor. Depois da exploração do conceito de "radical" para tudo e para nada, o espectador constata que o que está na moda é o conceito "rebelde". A rebeldia tornou-se o novo paradigma da ficção portuguesa: a nova série juvenil da SIC chama-se "Rebelde Way" e os "Morangos com Açúcar" da concorrente TVI adaptou o subtítulo "Geração Rebelde". Só que a rebeldia juvenil veiculada nestas séries é uma rebeldia que se confunde com pura má educação (entre amigos, pais e filhos), desvios sociais no limite da delinquência e actos pueris de insubordinação comportamental (basta ver 5 minutos de cada uma das séries para confirmar estes dados). Nestes tempos formatados por uma mentalidade que quase anula o espírito crítico (e o "think for yourself"), a rebeldia que interessa ver nestas séries era outra. Uma rebeldia de princípios morais, sociais e culturais. Uma rebeldia ousada, com base numa sólida formação de valores e de atitude crítica. Uma rebeldia de cariz intelectual e defensora de ideais diferentes, inconformista, mas assente em padrões de saudável convivência social. Mas estas acepções de rebeldia são meras miragens. Os argumentistas julgam que usam a rebeldia como conceito para seduzir uma juventude genericamente amorfa. E tentam espicaçá-la com a ideia de rebelde, do tipo "só com rebeldia é que a juventude se pode afirmar na sociedade". Estes actores, que supostamente desempenham papéis de rebeldes, nada têm a ver com a rebeldia de James Dean em "Rebel Without a Cause" ("Fúria de Viver", 1955) de Nicholas Ray. Aliás, saberão estas jovens actores quem foi James Dean ou Marlon Brando?
A rebeldia dos jovens dos "Morangos com Açúcar" e "Rebelde Way" confina-se aos insultos gratuitos aos pais, às bebedeiras colossais em festas inócuas, à verborreia de frivolidades, ao sexo casual e desprotegido, à busca do sucesso imediato e efémero, e por aí fora. Confunde-se o culto da libertinagem vadia com o da irreverência sadia. Por isso faz sentido o vaticínio de uma psicóloga educacional que analisou o conteúdo destas novas séries juvenis: "duvido da sanidade mental de jovens entre os 15 e os 24 anos que vejam isto com entusiasmo". Eu também duvido.

Díptico - 26


"O Declínio do Império Americano" (1986) e "As Invasões Bárbaras" (2003) - Dennys Arcand

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Do heavy-metal à música clássica



Há dias, no portal de informação IOL Portugal Diário, surgia uma notícia curiosa, cujo título era um verdadeiro achado: "Fãs de música clássica e de heavy-metal são parecidos". O estudo foi realizado numa universidade da Escócia e os resultados foram obtidos após entrevistas a 36 mil amantes de música. A ideia do estudo era a de identificar características comuns de personalidade conforme gostos musicais específicos. Assim, o estudo determinou que os fãs de jazz são criativos e extrovertidos, enquanto que os que gostam de música pop tendem a ter pouca criatividade.
No âmbito dos estudos musicológicos e da psicologia da música, estes dados não são propriamente novidade. A música é uma linguagem e uma expressão artística capaz de agregar e unificar traços de personalidade comuns. Por isso é que a música pode ser considerada um dos principais paradigmas de identidade cultural, de hoje como de ontem. Na verdade, tem de haver traços de personalidade muito distintos entre um fanático de free-jazz e um fanático de música pop comercial. Um ouvinte de jazz tem, à partida, um carácter mais libertário, um gosto mais atento à experimentação e ao risco estético (que pode estender-se à vida quotidiana). Uma pessoa que ouça a RFM todos os dias será, certamente, alguém muito mais conformista e apegado às convenções. A música tem essa fulgurante capacidade de gerar tribos à volta de um mesmo ideal, de um mesmo espírito e identidade.
A originalidade deste estudo tem mais a ver com a revelação de uma relação, mais estreita do que se esperava, entre as personalidades dos fãs de música clássica e de heavy-metal, dois géneros musicais que se poderia supor existirem em pólos opostos. "Como é que se pode ter dois estilos tão diferentes com grupos de fãs tão parecidos?", perguntou o coordenador do estudo. A resposta está, para o investigador, no aspecto "teatral e dramático" dos dois estilos. Não sei se a explicação será tão linear, mas uma coisa é certa: ainda persistem grandes preconceitos e estereótipos relativamente aos fãs de heavy-metal e suas múltiplas variações estilísticas. Ao contrário do que esse dogmatismo intelectual preconiza, os fãs destes géneros musicais extremos não são violentos nem suicidas, não defendem a anarquia social ou o culto do satanismo. E se o fazem, é basicamente para promoverem o culto de uma imagem, de uma identidade tribal (como o fazem outros fãs de outros géneros musicais) ou, igualmente válido, para mera promoção junto dos media e do público. Os fãs de black metal, de Marilyn Manson, de Moonspell ou dos Cradle of Filth gostam da música destes artistas porque têm em comum o gosto pela imagem, pelo visual gótico (caras pintadas, aparência demoníaca), pelas letras lúgubres. O resto é secundário. Não são géneros musicais opostos, possuem até elementos em comum. De resto, são cada vez mais as bandas de metal que integram na sua música sonoridades, digamos, clássicas (com sintetizadores e samples, é certo).
Conheci muitos amantes de heavy-metal que eram, de facto, pessoas normalíssimas e até tímidas. Mas assim que ouviam o crepitar de um riff de guitarra dos Sepultura, parecia que levitavam os pés do chão. É esse lado teatral e dramático que é destacado no estudo, e que se torna também extensível à música clássica (ou alguma dela, uma vez que é sempre perigoso generalizar). A ópera wagneriana sempre foi a tentativa de celebração da arte total, grandiloquente e majestática. Os grandes concertos de orquestras em grandes teatros, idem aspas. É o apelo a todos os sentidos, como grosso modo, acontece num concerto de uma grande banda de heavy-metal. E quando as facções morais da sociedade acusam o heavy-metal de ser uma música do demónio e que serve para levar ao abismo a mente dos jovens, não esqueçamos que os oficiais Nazis, educados e cultos, colocavam Wagner a tocar bem alto nos campos de extermínio e de concentração!
Por conseguinte, acaba por não chocar a ideia de que seja possível a existência de muitos amantes de música que sejam, simultaneamente, amantes de Stravinsky e de Sepultura, de Debussy e de Slayer, de Bartók e de Dillinger Escape Plan. Tão possível que eu próprio me assumo como fã destes grupos/compositores e nem por isso denuncio quaisquer distúrbios psicológicos ou outros. Ou seja, incluo-me numa categoria à parte que não sei se é analisada na referida investigação.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Hector Zazou



Há um nome comum a todos estes músicos: Suzanne Vega, Björk, John Cale, Värttina, Laurie Anderson, Robert Fripp, Jane Birkin, Lisa Germano, David Sylvian, Carlos Nuñez, Ryuichi Sakamoto. Esse nome comum é Hector Zazou, compositor francês que colaborou com todos estes (e outros) grandes nomes da música contemporânea ao longo de uma profícua carreira de mais de 30 anos.

Infelizmente, Hector Zazou faleceu esta manhã num hospital francês, vítima de doença que começou a sofrer apenas em Janeiro último. Tinha 60 anos. Foi uma das figuras mais singulares da música dos últimos 30 anos - um dos músicos mais criativos na exploração da fusão do ambientalismo neo-clássico com sonoridades electrónicas, étnicas e pop. De resto, Zazou foi o músico mais importante de uma das editoras europeias mais emblemáticas, a belga Crammed Discs. Na década de 80, Zazou editou 10 discos por esta editora - o último dos quais está previsto ser lançado ainda este mês.

Chaplin vive


Coincidência curiosa que ocorreu comigo: este fim-de-semana revi em DVD o filme "Chaplin" (1992) de Richard Attenborough, sobre a vida e obra do génio Charlie Chaplin. E eis que, um dia depois, ao ler o programa do Lisbon Village Festival, constato que um dos destaques deste festival de cinema é uma inédita exposição retrospectiva sobre... Charlie Chaplin. Mais: o festival contará com a presença de Geraldine Chaplin (será alvo de uma homenagem), filha de Charlie e Oona Chaplin (última mulher do autor de "The Kid"). Geraldine nasceu em 1944, é actriz de longa carreira, interpretou no filme "Chaplin" de Attenborough a mãe de Charlie Chaplin (ou seja, Geraldine fez o papel da sua avó paterna); participou em diversos filmes do espanhol Carlos Saura, sendo que a sua última grande actuação num filme foi no recente "O Orfanato", já abordado neste post.
O filme "Chaplin" é uma bela homenagem a um dos mais amados e influentes cineastas de sempre. Apesar do, por vezes, irritante academismo formal do veterano realizador Richard Attenborough, a verdade é que o filme retrata fielmente o percurso essencial da vida e da obra de Chaplin (da criança pobre à velhice exilada na Suíça, dos êxitos profissionais aos fracassos pessoais). Charlie Chaplin é interpretado pelo actor Robert Downey Jr, numa belíssima encarnação de Chaplin que lhe valeu a nomeação ao Óscar de Melhor Interpretação de 1993. O filme termina de forma bela e emocionante, quando se vê um Chaplin velho e cansado a receber o único (!) Óscar da carreira (Honorário, em 1972), enquanto vêem passagens dos seus mais brilhantes filmes. Em suma, uma elegia sentida a um dos maiores mestres da Sétima Arte.
Mesmo após 30 anos da sua morte, é salutar que a figura imortal de Charlie Chaplin seja exposta aos olhos das novas gerações de espectadores, como acontece agora com esta importante retrospectiva.

Díptico - 25


"Satyagraha" (1980) e "Akhnaten" (1987) - Philip Glass

domingo, 7 de setembro de 2008

O homem mais superficial do mundo


"Sou completamente louco por livros. É uma doença da qual nunca vou ficar curado. Quero aprender tudo, quero saber tudo. Os livros são a tragédia da minha vida. Tenho 300 mil livros espalhados pelas minhas casas de Paris, Nova Iorque e Mónaco. Mas não sou um intelectual nem gosto da sua companhia. Não quero parecer um daqueles professores velhos. Nunca tenho conversas sérias: aborrecem-me de morte. Eu sou o homem mais superficial do mundo".
Karl Lagerfeld, estilista
In: Daily Telegraph

sábado, 6 de setembro de 2008

Abba - ouvir de novo



O musical "Mamma Mia" estreou esta semana. Sempre achei a música dos Abba um manifesto pop piroso, indigno de constar no patamar mais alto da cultura musical popular. Em parte, esse sentimento teve a ver com a década de 80, claramente virada para a glorificação de uma estética excessiva e desvairada, com a qual nunca consegui identificar-me. Lembro-me que, quando era mais novo, se alguém ousasse afirmar gostar da música dos suecos, era logo acusado de letal heresia. "Gostar" dos Abba era o mesmo que assumir um gosto musical fútil, banal, medíocre. Conheço bem as canções dos Abba porque cresci a ouvi-las na rádio e na televisão (bem, não sou tão velho ao ponto de ter assistido ao Festival da Canção em que interpretaram "Waterloo" em 1974!). Como em tudo na vida, as convicções vão-se moldando e evoluindo. Não é por causa deste retorno do "hype" revivalista à volta dos Abba, mas hoje não tenho a mesma opinião que outrora. Os preconceitos na avaliação de um objecto artístico podem ser terríveis e causar uma parcialidade que não corresponde à verdade dos factos. Há dias dei-me ao trabalho de volta a ouvir algumas das canções mais populares (e menos populares) dos Abba. E nesta reavaliação acabei por reconhecer que aquele grupo, vestido de lantejoulas e fatos berrantes, marcou a música popular de forma indiscutível. O trabalho ao nível da construção melódica, a forma como os refrões são construídos, a instrumentação utilizada, as vozes das cantoras, a própria simplicidade e eficácia na estrutura do formato de canção, conferem aos Abba um estatuto superior na história da música pop (como muito bem explanou o crítico do Público, João Bonifácio, no último Y na análise que fez das canções do grupo). Quer queiramos quer não, a sua influência continua a ser notória em muitas bandas pop da actualidade.
Quanto ao filme "Mamma Mia", não tenho intenção de o ver, não só porque continuo a não ser admirador da música dos Abba como assumo não ser grande apreciador do género musical no cinema.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Zizek: um novo olhar sobre o cinema


É o filósofo do momento. O filósofo que não se resigna apenas a ser filósofo, uma vez que se tornou quase numa espécie de figura académica da cultura pop contemporânea. Por onde passa a dar conferências - desde universidades conceituadas de todo o mundo a espaços culturais alternativos - como a portuguesa Fábrica de Braço de Prata (onde esteve em Julho último), deixa um rasto de inteligência, cultura e humor (há vídeos no YouTube que comprovam o seu sentido de humor "nonsense"). Extravasa, com a mais desconcertante facilidade intelectual, as fronteiras rígidas dos objectos de estudo convencionais da filosofia, e acrescenta ao seu método de análise temas como psicanálise, cinema experimental, música pop, sexo, literatura, linguística, sociologia, teoria da cultura de massas, cibernética, entre outros.
O esloveno Slavoj Zizek representa esta figura cultural pluridisciplinar, observando a realidade social, política e cultural sob os mais diversos ângulos possíveis, como se fosse o rosto crítico da globalização neo-liberal. Conheci o autor quando editou em Portugal o livro "Bem-Vindo ao Deserto do Real" (Relógio D'Água, 2006). Uma obra em que, partindo do filme "Matrix" e de toda a sua ideologia da "falsa realidade", propunha uma análise crítica das complexidades do mundo actual, sobretudo a partir dos desafios políticos impostos com o 11 de Setembro e suas consequências. A sua escrita, apesar das múltiplas referências à cultura popular, nem sempre é de fácil inteligibilidade, dado que o seu pensamento se desdobra em conceitos filosóficos, psicanalíticos, sociológicos e culturais. No entanto, da explanação das suas ideias saltam sempre motivos fortes de reflexão para o leitor, seja em que terreno temático for. A argúcia como interliga conceitos tão dispersos e os liga de forma coerente, revela um pensador que tem consciência clara que escreve/fala tanto para o público erudito/iniciado, como para o público leigo/popular (à falta de melhor classificação...).
O seu último livro, recentemente editado pela editora Orfeu Negro, "Lacrimae Rerum", é um conjunto de quatro ensaios sobre a semiótica do cinema, particularmente, de quatro realizadores: Kieslowski, Hitchcock, Lynch e Tarkovski. Sendo que três dos meus cineastas preferidos são os três últimos referenciados, não poderia deixar de me aventurar na leitura do livro. O ensaio que achei mais interessante foi o que Zizek escreveu sobre o universo de David Lynch, talvez porque o seu cinema estabeleça uma ponte, mais ou menos óbvia e directa, com a psicanálise. Sobre o cineasta russo Tarkovski, Zizek aprofunda as raízes e motivações de ordem política e cultural da Rússia do realizador de "Stalker" para caracterizar a essência de um autor metafísico e complexo. Sobre os ensaios de Hitchcock e Kieslowski, ainda só li passagens inconclusivas.
Seja como for, o livro "Lacrimae Rerum", com os seus ensaios focados na estética e na semiótica das imagens, levanta novas perspectivas críticas em relação ao cinema, ao seu poder de intervenção no real e ao simbolismo filosófico que representa na cultura contemporânea. Uma leitura surpreendente, desafiadora e exigente.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Díptico - 24


"Kids" (1995) e "Ken Park" (2002) - Larry Clark

Voz, trailer, cinema


O trailer de cinema é um recurso privilegiado em relação ao lançamento e promoção de qualquer filme. E é uma arte conseguir condensar em menos de dois minutos e meio (a duração média de um trailer) a essência narrativa de um filme. Montagem, música e locução são elementos que devem interagir de forma equilibrada para que o produto final se torne apelativo e estimulante junto do espectador. Desses três elementos, um dos que desempenha preponderante função é a locução (voz off). Uma voz expressiva, de timbre grave e bem colocada (sempre masculina, por sinal), representa metade da eficácia de um trailer. Por norma, são os chamados “voice actors” que emprestam a voz para fazer a locução dos trailers, os quais são, geralmente, especialistas em dobragens de filmes de animação e de voz off para publicidade televisiva/radiofónica. Um dos mais conhecidos a afamados “voice actors” da actualidade é Dan Castellaneta, criador da voz emblemática de Homer Simpson e de muitos outros personagens da série de animação de Matt Groening.
Ora, na passada segunda-feira faleceu aquele que era considerado o maior “voice actor” dos últimos 30 anos: o norte-americano Don LaFontaine (na imagem de cima). No dia a seguir, morreu outra lenda do mesmo ofício: o animador mexicano Bill Meléndez, conhecido por ser a voz do cão animado Snoopy e do seu pássaro Woodstock, morreu aos 91 anos. Meléndez criou a voz pachorrenta de Snoopy mas não tinha a elasticidade e carisma vocal da grande referência da dobragem no cinema de animação - Mel Blanc (apelidado de “homem das mil vozes”), criador que fez as vozes célebres dos cartoons da Warner e da Hanna-Barbera – a sua expressão mais conhecida é a eterna exclamação “That’s All Folks!”, que servia de despedida para os cartoons da Warner Bros.
Don LaFontaine, por seu lado, (faleceu com 68 anos) era dono de uma voz de timbre grave e magnética, especializou-se na narração off de filmes de Hollywood e de spots publicitários ao longo de uma intensa carreira de 40 anos. Tornou-se a voz oficial da Paramount e chegou a fazer a narração de 5 mil trailers de filmes e dezenas de milhar de anúncios para a televisão (Coca-Cola, General Motors, Ford, etc). Alguns dos mais célebres trailers de filmes das últimas décadas contaram com a voz inconfundível de Don LaFontaine – “O Padrinho”, “O Bom, o Mau e o Vilão”, “Exterminador Implacável 2”, "Indiana Jones", “O Homem Elefante”, “Batman”, “Atracção Fatal”, entre milhares de outros. Devido ao timbre grave e poderoso da sua expressividade vocal, LaFontaine preferia narrar trailers de filmes de terror e de suspense. Daí que o seu trabalho de “voice actor” preferido foi o que fez para o filme “Sexta-feira 13”. Ouvindo a sua locução, compreende-se porquê.
Na verdade, qualquer espectador regular de cinema terá visto, em algum momento, um trailer com a voz de Don LaFontaine. Uma voz que alguns diziam ser “um trovão” e a representação terrena da “voz de Deus”. É um lugar-comum afirmar que, por norma, não identificamos o rosto de um “voice actor” ou não conhecemos o seu nome. Normalmente trabalham na sombra e não têm projecção mediática como um actor de cinema (LaFontaine era já uma estrela de Hollywood fruto da sua experiência acumulada de décadas de trabalho). Porém, facilmente reconhecemos a voz em múltiplas produções audiovisuais (com o enfoque nos trailers e na publicidade).

Definitivamente, após o desaparecimento de Don LaFontaine, os trailers não voltarão a ser o que eram.

75 anos de BFI


O British Film Institute comemora este ano 75 anos de existência. Para assinalar a efeméride, os responsáveis desta instituição dedicada ao cinema e ao audiovisual, decidiram lançar duas iniciativas: primeiro, uma promoção muito apetecível de venda de filmes (DVD)clássicos e de autor a um preço reduzido - £9,99. São 75 títulos do próprio e excelente catálogo do BFI.
Em segundo, uma votação intitulada "Visions For The Future", solicitada a 75 personalidades ligadas ao cinema e às artes, para cada uma delas, nomear apenas um filme que seja uma marca para o futuro do cinema. Entre artistas consagrados e desconhecidos, constatam-se algumas boas surpresas: a actriz Cate Blanchett escolheu "Stalker" de Tarkovski; o realizador Ken Russell, optou por "Metropolis"; Julien Temple seleccionou a obra-prima de Jean Vigo, "L'Atalante"; para o compositor Michael Nyman, o filme que marcará o futuro é "Silent Light" do mexicano Carlos Reygadas (de quem se diz ser o maior discípulo de Tarkovski); o produtor Mark Herbert escolheu um dos últimos filmes de Werner Herzog, "Grizzly Man".
Outros filmes escolhidos: "Do The Right Thing" de Spike Lee, "Pulp Fiction" de Tarantino, "Raging Bull" de Scorsese, entre dezenas de outros. A lista pode ser consultada aqui. Para além da votação das opções dos artistas, o site permite ainda a intervenção dos cibernautas através de debates online.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Filme de Medvedkine, música de Kubik

É certo que são apenas 10 minutos de uma actuação de 60. Mas esta pequena montagem de excertos do cine-concerto que o meu projecto Kubik deu no Alentejo no final de Agosto (Évora, Montemor, Arraiolos e Estremoz), já dá para ter uma ideia do que aconteceu. Para quem não está lembrado, é favor ler isto.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Afinidades e contrastes

Há quem ache a notícia descabida e bizarra. Eu acho-a interessante e passível de boas surpresas. Refiro-me à notícia de uma sessão musical improvisada entre três nomes improváveis: Carla Bruni, Metallica e Paul McCartney, a acontecer no próximo dia 16 no célebre programa "Later With Jools Holland" (BBC2).
Carla Bruni e os Metallica vão estar no programa a promover os novos álbuns, juntando-se a estes, o ex-Beatle. Ao que parece, o próprio apresentador do programa vai tocar piano para acompanhar o trio. Efectivamente, são três personalidades musicais e artísticas muito diferentes, mas talvez sejam essas diferenças que podem originar uma reunião improvisada estimulante. Os contrastes são, não raras vezes, mais propiciadores de resultados originais do que as semelhanças e afinidades (a história da música pop tem registado múltiplos exemplos). Por isso, pegando no caso referido, gostaria um dia de ver uma reunião musical entre:
- David Bowie + John Zorn + Diana Krall
- Tom Zé + Public Enemy + Massive Attack
- Anthony Braxton + Eric Clapton + Wim Mertens
- Nick Cave + Rage Against The Machine + Steve Reich
- Michael Nyman + Portishead + Goran Bregovic
- Camille + Tricky + Arcade Fire
- Gogol Bordello + The National + Autechre
As divagações especulativas (e quiçá absurdas) poderiam continuar...

Patton: a colaboração que faltava


Era inevitável. Mike Patton, o talentoso e multifacetado músico/vocalista camaleónico que tem pautado o seu intenso percurso artístico por milhentos projectos musicais paralelos, abarcando diversos espectros estéticos (jazz, rock, pop, experimental, improvisação, metal, hip-hop, electrónica...) e colaborando com dezenas de músicos e grupos à escala planetária, colaborou há quase três meses com uma orquestra. Era um desejo antigo expresso pelo ex-cantor dos Mr. Bungle. Mike Patton deu ao projecto o nome de "Mondo Cane", título de um filme italiano de 1962 realizado por Paolo Cavara, um documentário chocante sobre violência animal, rituais macabros e comportamentos perversos (um imaginário bem ao gosto do cantor, portanto).
E em que consistiu "Mondo Cane"? Basicamente, pegar num rico e variado repertório de canções tradicionais italianas das décadas de 50, 60 e 70, e apresentá-las ao vivo com novos arranjos e interpretados por Mike Patton (voz) e pela holandesa Metropole Orchestra. Os arranjos e orquestrações das canções foram da responsabilidade do compositor italiano do momento - Danielle Luppi, com experiência em música para cinema. O concerto de apresentação deste espectáculo aconteceu no passado dia 12 de Junho no Paradiso - Main Hall de Amesterdão. O resultado desta junção entre a voz de Mike Patton e a orquestra clássica (com instrumentos de banda rock como guitarra eléctrica e bateria) é sublime. Patton assume a postura de um verdadeiro "crooner" à antiga, cantando em italiano, as canções românticas, sentimentais e semi-trovadorescas que marcaram o imaginário musical italiano durante décadas. Ao longo das diversas canções, Mike Patton desfila invejável carisma e total entrega na interpretação vocal. Apenas num tema se revela a veia mais enérgica do cantor, quando dá largas à sua irrepreensível expressividade vocal.
Não admira esta paixão de Patton pela música italiana, visto que é um confesso admirador de compositores como Ennio Morricone (a sua editora, Ipecac Recordings, lançou há dois anos um disco de Morricone), Nino Rota ou o cantor Paolo Conte.
Seria interessante que este espectáculo resultasse em disco.
Todo os temas do espectáculo podem ser visionados (e ouvidos) neste sítio.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Discos que mudam uma vida - 26


The Sound - "In The Hothouse" (1985)

Hulot e as férias

Não há uma única vez que regresse de férias que não me lembre das mais fantásticas férias protagonizadas em filme: "As Férias do Sr. Hulot", de Jacques Tati. Quando vi o filme pela primeira vez em criança, recordo como me tocaram as aventuras destravadas do Sr. Hulot, na esteira de um Buster Keaton (desajeitado mas educado), só que com outra leveza interpretativa, outro sentido do humor. Um sentido de humor atento aos mais ínfimos pormenores visuais - dos objectos físicos ao comportamento humano. Apetece dizer que é um humor ternurento, afável, como só Tati sabia fazer.
Um filme que prova que as férias podem dar muito trabalho. Mas um trabalho feliz.
Pronto, era só isto.

domingo, 17 de agosto de 2008

Interregno: praia e cine-concertos


Este blogue vai finalmente entrar num período de poisio temporário: até final de Agosto, pouca actualização haverá. Motivo: Uma semana de praia e outra de trabalho (criativo, entenda-se). Durante a última semana de Agosto vou tocar quatro vezes - com o meu projecto Kubik - em quatros cidades alentejanas diferentes, naquilo a que se designou chamar-se "cine-concerto" (filme mudo musicado ao vivo):

Montemor-O-Novo, Auditório do Parque Urbano, 26 de Agosto, 21h30
Évora, Praça do Sertório, 27 de Agosto, 22h
Arraiolos, Espaço junto à Biblioteca Municipal, 28 de Agosto, 21h30
Estremoz, Casa de Estremoz, 30 de Agosto, 21h30
Depois da minha experiência aquando da composição da música original para os filmes mudos "Un Chien Andalou" (1928) de Luís Buñuel e Salvador Dalí; "Entre'Acte" (1924) de René Clair e o filme português "João Ratão" (1938) de Jorge Brum do Canto, desta vez fiz a música para o filme mudo "Felicidade" (1934) do russo Alexander Medvedkin. O convite partiu do Festival de Performance e Artes da Terra "Escrita na Paisagem" (com sede em Évora).
Alexander Medvedkin foi contemporâneo de eminentes cineastas soviéticos como Eisenstein, Pudovkin, Dovjenko e Vertov, mas nunca chegou a ter a projecção e o reconhecimento destes realizadores compatriotas. "Felicidade" (na imagem) é um notável filme sobre a repercussão da Revolução Bolchevique no povo anónimo. Ao contrário da seriedade dos filmes de Eisenstein, Medvedkin opta antes pelo género de comédia do burlesco, directamente influenciado por Buster Keaton. O resultado é um filme repleto de gags visuais, de crítica social e de grande rigor estético e formal. O realizador e documentarista Chris Marker foi um dos que reabilitou a figura e a importância de Medvedkin no cinema soviético, ao realizar o documentário "The Last Bolchevik" (1993). A Amazon.com prepara-se para lançar, no início de Setembro, um DVD contendo o filme "Felicidade" e o documentário de Chris Marker. Sem dúvida uma oportunidade para conhecer o trabalho de um realizador esquecido.
Quanto à música que irei tocar para acompanhar o filme ao vivo... A questão maior foi: que música é adequada para um filme de humor mudo anti-bolchevique banido na Rússia durante 40 anos? Num filme feito de uma fina e subtil estrutura formal e narrativa, só faz sentido uma música que consiga corresponder a essas características. Pretendi que houvesse uma relação dinâmica entre a imagem e a música, recorrendo a múltiplas sonoridades, texturas, ambientes e estilos musicais (com programações electrónicas e instrumentos avulsos - concertina, guitarra eléctrica, harmónica, flautas, xilofone, percussão....
Por conseguinte, se alguém passar por estas terras nesses dias, está desde já convidado a assistir a um destes cine-concertos. Nem que seja para ver o que vai sair dali...
Entretanto, acaba de ser lançado pela netlabel (editora digital) MiMi Records o novo EP de Kubik intitulado "How Blue Was My Sky" que pode ser descarregado gratuitamente no site da editora.

A RTP tem bom gosto


Há três dias escrevi num post mais abaixo uma pequena abordagem ao documentário "Naqoyqatsi" e eis que ontem foi transmitido na RTP uma reportagem sobre a arquitectura de Pequim e o inerente crescimento económico. O que é que tem a ver uma coisa com a outra? Muita coisa. Desde logo, porque a música dessa reportagem televisiva é exactamente a mesma do filme de Godfrey Reggio e Philip Glass. Depois, a própria realização e montagem foi claramente inspirada na estética visual do documentário. Já para não falar nas semelhanças em termos de conteúdo e mensagem: quer a peça jornalística quer o filme, abordam as questões de fundo da vivência do homem em contexto urbano, subjugado à megalómana arquitectura das cidades e dos seus absorventes ritmos de vida (que por sua vez são ditados pela imparável vida económica). Depreende-se, pois, que o jornalista da RTP conhece a linguagem audiovisual contemporânea e, em particular, da trilogia Qatsi.
Mais do que acusar o jornalista de plágio (seria ridículo), parece-me mais interessante e justo felicitá-lo pelo trabalho de criação de uma peça jornalística que vai buscar referências audiovisuais de qualidade, ponto por ponto, ao filme "Naqoyqatsi". E é mais uma prova de como este filme (e os outros dois da trilogia) influenciaram grande parte da produção audiovisual dos últimos 20 anos: documentários sobre natureza, publicidade, videoclips musicais, televisão, etc. Afinal, ainda há surpresas no meio jornalístico televisivo.
A reportagem da RTP pode ser vista aqui - "Arquitectura em Pequim".

Sofrer para vencer

Como acontece em todos os desportos e, consequentemente, em todas as provas desportivas, o êxito vive paredes meias com o fracasso. A vitória com a derrota. A alegria com o pesar. Com a qualidade jornalística habitual a que nos habituou a agência Reuters, vejamos algumas fotografias de atletas que não conseguiram atingir o almejado sonho Olímpico. Sangue, suor e lágrimas em magníficos retratos de esforço (sobre)humano. Link.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Mais um ano neste dia

Neste dia feriado, dia da Assunção de Nossa Senhora, nasceu Napoleão Bonaparte e morreu René Magritte. Neste 15 de Agosto teve também início o primeiro dia do histórico festival de Woodstock. É um dos dias mais fortes de festividades pimba, um pouco por todo o país. Um dia de muitos casamentos de emigrantes e festarolas populares. Um dia de início ou fim de férias para milhares de portugueses e turistas. Um grande dia nacional, portanto.
E é o dia em que o Homem Que Sabia Demasiado comemora mais um aniversário. Mais um ano passa por este dia.

Didjeridoo


O didjeridoo é um instrumento de sopro oriundo das tribos aborígenes australianas. Tradicionalmente, é um tronco longo de eucalipto ou de bambu oco por acção das térmitas. Tem um som característico e pode variar entre a austeridade tímbrica e a suavidade mística. O didjeridoo está longe de se restringir à música étnica, uma vez que tem sido utilizado (e continua a ser) em muitos grupos de música e géneros musicais ocidentais. Aliás, é um instrumento tão popular como o djambé. Apesar de não parecer, tocar didjeridoo não é fácil e requer treino persistente, sobretudo para o músico conseguir controlar a chamada técnica de "respiração circular", que permite emitir sons de forma contínua (expira-se com a boca e inspira-se pelo nariz ao mesmo tempo).
Em Portugal há um excelente executante deste instrumento australiano: faz parte do grupo Olivetree, um trio de músicos constituído por um tocador de didjeridoo, um baterista e um percussionista. Os seus concertos ao vivo (vi-os uma vez) são uma verdadeira e alucinada celebração rítmica (como se fosse drum'n'bass tribal). Por esse mundo fora há muitos músicos que tocam didjeridoo, de forma amadora ou profissional. Um dos maiores especialistas no didjeridoo é Stephen Kent, um músico australiano que fez parte do grupo Trance Mission. No vídeo que se segue podemos vê-lo a tocar com o baterista americano Tony Royster jr., um jovem e talentoso músico de 23 anos (começou aos 10!). A junção dos sons graves e ondulantes do didjeridoo com os ritmos da percussão conferem uma proposta musical deveras inusitada e contagiante.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A violência como forma de vida

"Naqoyqatsi" encerra a brilhante trilogia "Qatsi" da dupla Godfrey Reggio (realizador) e Philip Glass (música). O documentário, baseado em imagens de arquivo, é uma verdadeira reflexão filosófica sobre o estado do mundo actual e da relação do homem com a tecnologia (referido já aqui). Neste último capítulo da trilogia, Godfrey Reggio aborda a violência global como tema do seu trabalho com as imagens, enquanto o compositor Philip Glass e o prestigiado violoncelista Yo-Yo Ma compõem uma música que pontua, em notável crescendo, a montagem endiabrada das imagens.
Estes 9 minutos são os mais intensos e inebriantes de todo o filme (visual e musicalmente falando), culminando em imagens pungentes de sofrimento humano. Na net, alguém escreveu, a propósito desta sequência de "Naqoyqatsi": "nunca pensei que um "art film" me fizesse chorar". Não duvido.

Génios atrás das grades



Para além da literatura, o que têm em comum Dostoiévski, William Burroughs, Jean Genet, Oscar Wilde, Cervantes, Paul Verlaine, Ken Kesey, Alexander Soljenítsin, Thomas More ou Marquês de Sade? Todos estiveram presos em determinada circunstância das suas vidas por distintos motivos (desde atentados ao pudor a questões políticas e pequenos delitos). A par de escritores, podia-se juntar uma lista de actores, músicos e desportistas, consagrados e famosos, que já experimentaram ver o sol atrás das grades. A genialidade criativa também tem o seu lado obscuro e demente, prova de que todo o homem se resume a um comum mortal com fraquezas e debilidades.
Como dizia o filósofo Kierkegaard, "a vida é um território sem fim de possibilidades e a cada momento somos forçados a escolher qual o caminho a percorrer". Definitivamente, o mundo é igual para todos e os ímpetos mais negativos e destrutivos da natureza humana não escolhem profissões, estatuto social ou condição artística.

Discos que mudam uma vida - 25


Dissidenten - "Sahara Electrik" (1983)

Alguém me gravou este disco numa cassete áudio pelos meados dos anos 80. Das várias centenas de cassetes que acumulei durante essa década, confesso que a cassete com o viciante disco "Sahara Electrik" dos Dissidenten foi das que mais rodou na aparelhagem (ao ponto da fita se ter estragado). À altura, era para mim um disco com uma sonoridade totalmente nova e estimulante, em que sons do Médio Oriente e da Ásia se misturavam com ritmos electrónicos, na esteira do álbum "My Life in the Bush of Ghosts" (editado dois anos antes) de David Byrne e Brian Eno.
Os Dissidenten são um colectivo alemão (ainda em actividade) que criou alguns álbuns essenciais (este é o principal) para a evolução da estética "fusionista" entre a world music e a sensibilidade puramente pop (que viria a desenvolver-se posteriormente com outros grupos). De resto, o tema "Fata Morgana" dos Dissidenten foi um dos temas mais populares nas pistas de dança alternativas da primeira metade dos 80 em países como Espanha, Itália, Alemanha e Canadá. Ouça-se "Fata Morgana" aqui. "Sahara Electrik" é um disco de pura energia e encantamento melódico e rítmico, concebido por um grupo de alemães fascinados pela tradição musical de Marrocos, Argélia e Índia (colaboraram com alguns músicos destes países).
Para quem quiser conhecer ou recuperar este disco dos Dissidenten, basta carregar neste link e o disco estará pronto a ser degustado em todo o seu esplendor!

Díptico - 23


Mão Morta: "Müller no Hotel Hessischer Hof" (1998) e "Maldoror" (2008)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Brazilian Girls


"New York City" é o terceiro álbum do projecto Brazilian Girls, um quarteto de Nova Iorque cujos elementos nada têm a ver com o Brasil (dois americanos, um argentino e uma cantora italiana que canta em várias línguas). Um disco multicultural que assenta na confluência de gostos e sensibilidades díspares. A sonoridade deste grupo é a certa para o Verão: mistura de pop electrónica com bossa nova, reggae, rock, jazz, ritmos exóticos e ambientes de cabaret (ouça-se a viciante canção "Berlin" do myspace do grupo). Diz-se que não costumam ensaiar: sobem ao palco e vão criando e improvisando as suas músicas. Irreverência visual e atitude provocatória são outros atributos dos Brazilian Girls. A título de exemplo, veja-se e ouça-se esta magnífica prestação ao vivo no programa de David Letterman (com um tema referente ao álbum anterior):

Nova Take


Já se encontra disponível a revista portuguesa de cinema Take, número de Agosto. Basta abrir este link e desfolhar página a página ou descarregar directamente o respectivo PDF. A estreia do filme de animação "Wall-E" é a capa da Take, que conta ainda com as habituais secções (críticas, entrevistas, retrospectivas de cinematografias...). Especial atenção para um texto do crítico Lauro António no qual disserta sobre o prazer da escrita e da crítica de cinema (com base na sua própria experiência como jornalista).

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Guitarra e guitarristas


Aprendi a tocar guitarra com 10 anos. Como é habitual no ensino deste instrumento, primeiro aprendi guitarra clássica, para depois passar para a eléctrica. Nunca primei pela técnica ou pelo virtuosismo. Toco o suficiente para a música que faço. Ponto. Sempre menosprezei o virtuosismo pelo virtuosismo, a técnica pela técnica, como é apanágio de muitos músicos (e ouvintes). E nunca apreciei os chamados "guitar heroes". Por isso nunca gostei de Eric Clapton, Carlos Santana, Steve Vai, Joe Satriani, Jeff Beck, Stevie Ray Vaughan e afins. É certo que têm o seu lugar na história da música rock e da guitarra eléctrica, mas musicalmente dizem-me praticamente zero. É aqui que reside o fulcro da questão: posso reconhecer capacidades instrumentais num guitarrista mas não me identificar, de todo, com a sua música. De resto, esta premissa é válida para muitos outros instrumentistas e intérpretes.
Aos tecnicistas ferozes, que debitam 30 notas diferentes a cada segundo (escalas atrás de escalas), prefiro sempre os guitarristas que fazem da guitarra um instrumento de combate sonoro. Guitarristas que dão mais importância à exploração tímbrica e rítmica do instrumento. Que abordam a guitarra com total emoção em detrimento da técnica. Guitarristas que preferem a subtileza e a simplicidade eficaz do que os solos intermináveis. Bastam dois ou três acordes para fazer música interessante - depende é de como se utilizam e exploram esses acordes (o punk-rock é um exemplo). Neste capítulo, há melhores guitarristas do que os de blues? Bo Diddley (recentemente falecido), Buddie Guy, (o grande) Robert Johnson, Lightnin' Hopkins, B.B. King, Big Bill Broonzy, Johnny Lee Hooker, Muddy Waters. Todos os grandes guitarristas - do rock ao jazz - aprenderam com os mestres do blues. Foram os verdadeiros visionários no dedilhar das cordas da guitarra, como se esta fosse a manifestação sonora da alma humana.
Na história do rock há um nome incontornável e decisivo: Jimi Hendrix, considerado por muitos o melhor guitarrista de sempre. Tinha técnica, é verdade, mas a sua mestria foi posta ao serviço de ideias musicais incendiárias e de formas de tocar revolucionárias. Os densos riffs de guitarra dos The Velvet Underground, as malhas noise de Glenn Branca, de Lee Ranaldo e Thruston Moore (Sonic Youth), os primeiros Jesus and Mary Chain, o inventivo The Edge (U2), o rítmico Dick Dale, os inovadores Robert Fripp, Fred Frith, Jim O'Rourke e John Fahey, o elegante Ry Cooder, são apenas exemplos de guitarristas que tocam com o coração nas mãos. Com um estilo totalmente distinto da mediania dos guitarristas mundiais, "guitar heroes" incluídos.
A revista Rolling Stone, citada pelo site Hotguitarrist.com, lançou mais uma das suas habituais listas em que se seleccionam os 100 melhores guitarristas de sempre. A questão é que nunca se sabe quais os critérios destas listas: o que significa "melhor guitarrista"? Aquele que corresponde ao paradigma da capacidade técnica ou aquele que priveligia a criatividade e a inovação? Seja como for, subjectividades à parte, o certo é que o primeiro lugar é inquesionável: o guitarrista canhoto que um dia cantou "Hey Joe, where you're walking with that gun in your hand?". Ver aqui lista

Donnie Darko

O filme "Donnie Darko" (2001) de Richard Kelly é um dos melhores filmes independentes da última década, tendo-se tornado num autêntico fenómeno de culto. Com um notável e original argumento, Richard Kelly realizou um filme que é uma belíssima peça de relojoaria surreal sobre os tormentos de um adolescente (um jovem Jake Gyllenhaal) que tem visões de um coelho gigante que o força a cometer crimes. Obra com narrativa bizarra mas altamente sugestiva para os sentidos. Não admira que tenha sido comparado com outro filme bizarro - "Mulloland Drive" de David Lynch, estreado também em 2001.
"Donnie Darko" tem um início de filme fulgurante, no qual a fotografia, os movimentos de câmara (montanha, bicicleta) e a música (inesquecível "Killing Moon" dos Echo & The Bunnymen) compôem um quadro audiovisual perfeito durante os primeiros 4 minutos de filme.