domingo, 23 de maio de 2010

Woody Allen e a velhice


"A minha opinião sobre a morte continua a mesma: sou completamente contra. Se conseguisse estar em forma como Manoel de Oliveira, gostaria de ser centenário. Mas envelhecer não traz quaisquer vantagens. Não ficamos mais inteligentes nem mais generosos. Aceitem o meu conselho: evitem envelhecer".
Woody Allen em declarações no Festival de Cannes

sábado, 22 de maio de 2010

Um filme para os tempos de hoje


Vivemos um tempo histórico que parece manipulado e dirigido pelos grandes grupos de interesses (económicos, políticos, culturais...) à escala global. Um tempo de profundo descrédito das instituições que julgamos defenderem os interesses da sociedade. Um tempo de paranóia informativa, de puro desnorte de valores válidos. Estes pensamentos trouxeram-me à memória um filme. Um filme que, de forma arrasadora, aborda todos estes assuntos.
Falo de "Bug", do realizador William Friedkin, película que passou ao lado de muita gente quando estreou em Portugal, em Julho de 2007 (o Verão não é altura propícia para se dar atenção a este tipo de filmes).
Do mesmo realizador do essencial thriller dos anos 70 "Os Incorruptíveis Contra a Droga" (1971) e um dos mais assustadores filmes de terror de sempre, "O Exorcista" (1973), "Bug" é um filme-catarse dos traumas reminiscentes do pós-11 de Setembro. Um filme sobre as conspirações do Estado sobre o indivíduo, sobre a crescente loucura que se apodera do homem quando este se sente ameaçado pelo medo e pelo desespero.
A história decorre numa contenção rara de recursos - um cenário de hotel decrépito e 4 personagens - o argumento é baseado numa peça de teatro de sucesso.
Paranóia, viagem aos abismos negros dos fantasmas interiores, claustrofobia psicológica, metáfora política em jeito de pesadelo kafkiano num filme portentoso capaz de colocar em causa toda a ideia de segurança humana, social e política contemporânea.
Um filme cada vez mais actual para a sociedade em que vivemos.

Tom Waits e a MOJO


A revista MOJO celebra, em Julho, a edição nº 200. Por ser um número especial, convidou, nada mais nada menos do que Tom Waits para editar a revista. Esta edição especialíssima vai ser acompanhada por um CD com músicas escolhidas por Waits e artigos exclusivos.
Certamente que estará à venda nos quiosques portugueses dentro de pouco tempo.

O tributo a Ian Curtis

O último número do New Musical Express tem na capa Ian Curtis.
Para além disto, no respectivo site multiplicaram-se iniciativas, ao longo desta semana, para assinalar os 30 anos do desaparecimento do líder dos Joy Division.
Neste link, podem ver-se 14 fotografias pouco conhecidas (como esta a cores) de Ian Curtis, assim como outros tantos testemunhos - em jeito de tributo - de músicos famosos sobre o que tornava tão especial o letrista e vocalista dos Joy Division.

"I started a Joy Division covers band when I was 17 - I really do think he's the greatest lyricist rock has ever seen." - Moby
"The work that he left behind really had the ability to touch your heart. That's soemthing that nobody can take away from him. It's timeless." - Brandon Flowers, The Killers

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Momentos e Imagens - 65

Fotografia histórica que marcou uma fase decisiva de dois jovens artistas no ano de 1976: Philip Glass (compositor e músico) e Robert Wilson (encenador, coreógrafo, performer - trabalhou com William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Tom Waits e David Byrne).
Glass e Wilson trabalhavam na altura na ambiciosa ópera-que-revolucionou-a-ópera "Einstein on the Beach", na qual o compositor norte-americano revelou, em todo o esplendor estético, a sua inovadora música minimal-repetitiva.
Não menos importante: a fotografia foi tirada por um dos mais importantes fotógrafos americanos dos anos 70 e 80: Robert Mapplethorpe

A pior sequela de sempre?


Há listas de filmes verdadeiramente surpreendentes. Diria mais: listas quase patéticas. Nesta lista procura-se saber quais as piores sequelas jamais realizadas. Interessante proposta. A lista começa numa contagem decrescente (10 para 1). Começo a ver os títulos obviamente dispensáveis: "American Pie", "Batman and Robin", "Crank 2: High Voltage" e outras sequelas igualmente medíocres. Eis quando, finalmente levo o cursor do rato até ao 1º lugar da lista (supostamente a "pior sequela de sempre") e constato que é... "O Padrinho III" de Francis Ford Coppola!
E qual o argumento invocado? Apenas um: Sofia Coppola (e por acréscimo, George Hamilton, que substituiu Robert Duvall). Claro que a filha do realizador teve uma má prestação (a primeira da sua vida) no filme, mas é razão suficiente para classificar negativamente a terceira parte da saga da família Corleone. Claro que não. Apesar de "O Padrinho III" ser o filme mais fraco da trilogia de Coppola, mantém, ainda assim, grandes atributos e fecha, com chave de ouro, a trilogia. E nem o óbvio erro de casting de Sofia Coppola mancha a qualidade do filme (e é até infame ver este título de Coppola misturado com sub-produtos comerciais como "American Pie").

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mobília humana

É uma ideia que um qualquer artista surrealista não desdenharia: uma estante de livros feita de corpos humanos. Corpos vivos e quentes, mas hirtos e imóveis como estátuas.
Desvarios simbolistas à parte, a verdade é que se trata de uma construção visual magnífica da série "Human Furniture" do fotógrafo espanhol David Blázquez.
[clicar para melhor resolução]

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dissecar "Control"


Quando revi em DVD os extras do filme "Control" de Anton Corbijn, fiquei a conhecer inúmeros pormenores e curiosidades em relação aos Joy Divison, a Ian Curtis e à concepção do próprio argumento e filme:
- Sam Riley (que interpreta Ian Curtis) passou várias noites em clínicas de cura de epilepsia para melhor compreender os sintomas e detalhes da doença.

- A cena final de Deborah Curtis (a actriz Samantha Morton) a gritar desesperadamente na rua quando se apercebe do suicídio de Ian, foi uma das primeiras cenas a ser filmadas. Corbijn revela que Samantha Morton revelou grande domínio emocional para interpretar esta difícil cena logo no início das filmagens.

- A maior parte dos figurantes que constituem a assistência dos concertos dos Joy Division são verdadeiros fãs actuais do grupo, recrutados pelo realizador em vários sites de devoção à banda de Ian Curtis. Este facto tornou mais exigente a interpretação de Sam Riley, uma vez que os figurantes eram verdadeiros fãs do grupo e não meros figurantes.

- Numa das cenas finais de um concerto dos Joy Division (quando interpretam a canção "DeadSouls"), vê-se na primeira fila do público a filha de Ian Curtis, Natalie Curtis, vestida de punk, numa simbólica homenagem ao pai.

- O filme foi filmado em película a cores e só depois transferido para preto e branco em formato 35m, uma vez que o preto e branco inicial tornava-se demasiado granulado.

- Devido à formação de fotógrafo de Anton Corbijn, o próprio assume que o filme parece mais como uma sequência de fotografias do que propriamente uma montagem de planos em movimento (há de facto uma grande predominância de planos fixos).

- As cenas do interior da casa de Ian e Deborah foram filmados em estúdio devido à exiguidade da verdadeira casa, na Barton Street de Macclesfielfd.

- Os actores que interpretam os vários elementos da banda aprenderam a tocar os instrumentos em apenas 2 meses (só o actor Joe Henderson sabia tocar guitarra, mas ainda assim teve de aprender a tocar baixo para encarnar Peter Hook).

- A guitarra eléctrica branca que Sam Riley segura aquando da filmagem do videoclip "Love Will Tear Us Apart" é a mesma guitarra que Ian Curtis tocou no videoclip original.

- As letras do genérico do filme piscam (como uma lâmpada fraca a ascender aos soluços). A ideia foi criar uma analogia com os sintomas da epilepsia.

- Não se vê no filme (sente-se, porém), mas Ian Curtis teve um ataque de choro compulsivo logo após o nascimento da sua filha Natalie - acontecimento que viria a agravar a sua depressão.

- A namorada de Tony Wilson que surge no filme é Gillian Gilbert, mais tarde teclista dos New Order. No filme é interpretada pela gerente da empresa de Anton Corbijn.

- Anton Corbijn assistiu na realidade a um dos ataques de epilepsia de Ian Curtis e foi o fotógrafo que documentou o videoclip "Love Will Tear us Apart".

- O realizador refere que foi ele quem escolheu as canções dos Joy Division no filme. A mítica canção "Love Will Tear us Apart" ouve-se em "Control" quando surgem os primeiros sinais de ruptura entre Ian e Deborah. Corbijn menciona que é uma canção óbvia para essa situação, mas também o seria para qualquer outra, uma vez que o filme aborda, essencialmente, o tema do amor e da sua degenerescência (pessoalmente concordo com a opção).

- Os três músicos dos actuais New Order (Hook, Moris, Summer) praticamente não contribuíram em nada para o filme e nem se encontraram com os actores que os interpretam. No entanto, gostaram muito do resultado final.

- Apesar de ser moda no final dos ano 70 a colocação de posters e cartazes nas paredes dos quartos, a dado momento, Ian Curtis tirou todos os posters dos seus ídolos (Jim Morrison, Iggy Pop, David Bowie) e pintou as paredes com um azul celeste.

- O fumo negro a sair da chaminé do crematório do cemitério foi colocado digitalmente.

- O argumentista de "Control" encontrou-se durante um dia com a amante de Curtis, a belga Annick Honoré, para recolher informação para o filme.

- Grande parte das filmagens foram realizadas na cidade de Nottingham, uma vez que se parece mais com a Manchester do final dos anos 70 do que a Manchester actual.

- As actrizes Samantha Morton (Deborah Curtis) e Alexandra Maria Lara (Annick Honoré) foram as únicas actrizes que nunca se encontraram nas filmagens.

- Segundo Corbijn, Ian Curtis nunca revelou claramente para onde pendia a sua relação amorosa. Na verdade, quer Deborah quer Honoré, ambas reclamam a paixão que Ian nutria por elas.

- Apesar de Ian Curtis ter mantido uma relação amorosa com Annick Honoré, esta afirmou ao argumentista do filme que nunca tiveram relações sexuais.

- Apesar de ter sido um filme com baixo orçamento e sobre um músico que se suicida de um grupo como os Joy Division, Anton Corbijn revela que nunca imaginou que "Control" viria a ser um sucesso de público e de crítica.

Ian Curtis - A minha experiência


Lembro-me como se fosse hoje: o bloco de gelo que se abateu sobre mim com a audição de “Unknown Pleasures”. A minha formação de ouvinte tivera vários estágios, mas nada me tinha preparado para o embate que foi a audição do primeiro disco dos Joy Division. Quando somos adolescentes julgamos que temos o tempo todo do mundo para desfrutar das grandes descobertas musicais. E, na verdade, eu tinha esse tempo todo. Viver em casa dos pais, fechado num quarto hermético, com centenas de discos, cassetes, livros e posters, era mundo suficiente para mim. Claro, a vida de estudante também se fazia, suportada à custa de muita condescendência e resignação.

Daí que, com 15 ou 16 anos, ouvir música significava um refúgio tão revigorante e enérgico como julgo já não existir hoje. Representava marcar um território delimitado à base da militância severa do prazer estético partilhado com um círculo restrito de amigos.
A descoberta da figura de Ian Curtis, mais do que a de Jim Morrisson, Iggy Pop, Lou Reed, David Bowie ou Peter Murphy, foi uma descoberta quase de cariz religiosa. Lia aqueles artigos incensados e devotos do Miguel Esteves Cardoso sobre a intensa e criativa movida de Manchester e fiquei, automaticamente, siderado. Ansioso por conhecer, numa era em que Internet nem figurava nos livros de ficção científica.

Porém, a devoção pelo prazer da descoberta levou-me a mover mundos e fundos, até conseguir pôr os ouvidos na música de Ian Curtis. Primeiro com a banda Warsaw, ainda reminiscente da fúria punk; depois, sim, com a era estilizada, superlativamente estética, de “Unknown Pleasures” e, postumamente à morte de Curtis, com o legado “Closer”. Para um adolescente como eu, de temperamento algo sorumbático e reflexivo, a música dos Joy Division revelou-se como a suprema bênção identitária. Nenhuma outra música, nenhumas outras letras, nenhum outro disco se poderia colar melhor à minha alma do que aqueles discos.
A poesia (porque de poesia se trata) de Ian Curtis resultava numa espécie de elegia sobre a presença terrena desta vida.

E tocava-me nas mais profundas das vísceras (porque a poesia não toca apenas na alma). Via Curtis como um criador ambicioso mas permanentemente insatisfeito, um angustiado feliz que tentava libertar os seus demónios interiores. Gostava das preocupações existenciais de Ian, devedoras das suas leituras de Kerouac, Burroughs, Ballard ou Camus. Cantava o sonho e o pesadelo, o amor e a morte, o desejo de existir e o medo de existir. Comprei um livro com as letras das canções, e li-as uma e outra vez, até sugar toda a essência daquelas palavras (decorava, na íntegra, algumas letras). E ouvia repetidamente, obsessivamente, algumas das canções. A agulha do gira-discos pousava, uma e outra vez, nas mesmas faixas dos vinis: “Isolation”, “Passover”, “Heart and Soul”, “A Means to na End”, “Disorder”, “Shadowplay”, etc.
E foi “Closer”, mais do que “Unknown Pleasures”, a deixar-me incondicionalmente devoto dos Joy Division. Tamanha devoção deveu-se, igualmente, à icónica arte gráfica de Peter Saville expressa na capa e no design, na produção inovadora de Martin Hannett, que concebeu aquela sonoridade única do disco, com a voz intensa e enxuta de Curtis, a bateria marcial de Stephen Morris, o baixo-tocado-como-uma-guitarra de Peter Hook, e a guitarra assanhada de Bernard Summer. Só mais tarde conheceria os tema-hinos, “Atmosphere” e “Love Will Tear us Apart”.
Ian Curtis só podia ter-se transformado em mártir do rock. Não havia outra solução. Como dizia Albert Camus, o suicídio é o único problema filosófico importante – saber se a vida merece ou não ser vivida. Curtis viveu intensamente e sempre no fio da navalha das emoções. O seu derradeiro acto foi o consumar de um fogo que tinha dentro de si. Lembro-me de que, no dia 18 de Maio de cada ano, sentia uma espécie de respeito e reverência espiritual para com a alma dos Joy Division. Era um dia especial.
E lembro-me de comemorar, com um amigo, os dez anos desse dia fatídico (Maio de 1990). Agora assinalam-se já 30 anos, e a intensidade passional continua viva, ainda que algo indolente pela natural passagem do tempo. E os sonhos continuam vívidos, imersos numa realidade ainda por revelar, como se expressa na canção “Dead Souls”: “Someone Take These Dreams Away / That Point me To Another Day / A Duel of Personalities / That Strech all True Realities”.

30 anos: Heart and Soul


Ian Kevin Curtis (15 Julho 1956 – 18 Maio 1980)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Imagens da Steadycam


O que mostra esta imagem? A sequência da fuga na neve do filme "The Shining" de Stanley Kubrick filmada por um operador de câmara muito especial, com uma câmara pendurada à cintura. É simplesmente um dos operadores de câmara mais famosos e importantes de sempre: Garrett Brown, de seu nome.
É famoso e importante por dois motivos (entre outros): inventou a Steadycam e foi o grande responsável pela revolução na arte de filmar no filme "The Shining" (1980) de Kubrick. Já tinha havido anteriores experiências com a Steadycam, mas foi com o filme de Kubrick que a técnica de filmar com este tipo de câmara se desenvolveu e se impôs no mundo do cinema, sobretudo como um recurso estético e visual (sob a supervisão artística de Kubrick).
Basicamente, a Steadycam é um tipo de câmara que possui um sistema que se acopla ao próprio corpo (geralmente à cintura e de forma segura ou noutro sistema fixo) do operador de câmara, permitindo captar imagens em movimento e muito próximo da acção.
O resultado das imagens captadas por Garrett Brown são sequências de grande efeito visual, como são algumas cenas inesquecíveis de Danny a percorrer o Hotel Overlook no triciclo, ou a perseguição final no labirinto coberto de neve.
Depois desta obra de Kubrick, a utilização da Steadycam vulgarizou-se, mas nunca ninguém conseguiu superar a mestria técnica deste filme (tirando a experiência extrema do filme "A Arca Russa" de Sokurov, integralmente filmado recorrendo a esta câmara).

domingo, 16 de maio de 2010

Discos que mudam uma vida - 105


New Order - "Power, Corruption & Lies" (1983)

Uma capa... bestial

Na história das piores capas de discos de sempre gosto especialmente desta:

É apenas um das muitas preciosidades estéticas expostas neste site. E proponho um exercício: a partir de cada capa, tentem imaginar a que tipo de música corresponde.

sábado, 15 de maio de 2010

Woody Allen e a ditadura


Até parece que o realizador Woody Allen ouviu uma célebre declaração da então presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, quando esta disse que gostava que se suspendesse em Portugal a democracia durante 6 meses para implementar uma ditadura, de forma a levar a cabo uma série de medidas para desenvolver o país.
É que Woody Allen fez uma declaração, no festival de Cannes, muito parecida com a de Manuela Ferreira Leite: "Acho que seria bom para Barack Obama que houvesse uma ditadura durante uns quantos anos na América, para poder fazer uma grande quantidade de coisas boas rapidamente".
Só faço um comentário: nunca pensei que Woody Allen pudesse proferir uma opinião deste teor, e nem acho que tenha havido alguma conotação irónica ou cómica (como é habitual em Woody) nesta afirmação...
(Ah, Woody Allen disse outra coisa importante: que não lhe interessa filmar em 3D, porque o 3D só faz sentido se for para filmar qualquer coisa da Playboy!).

Perguntas indiscretas - 30

Qualquer cinéfilo sente o especial prazer, de quando em vez, de visionar várias vezes um filme que já viu vezes sem conta. Um filme que é da sua particular predilecção, que não se importa de rever em DVD, não o perde numa sala de cinema, nem se recusa de rever num qualquer canal televisivo por cabo.
No entanto, também existe o oposto: filmes que são vemos uma única vez e juramos que nunca mais lhe pomos a vista em cima. Por serem tão maus, por não corresponderem aos nossos gostos ou por causarem irritação espontânea.
Assim sendo, que filme nunca mais querem ver na vida, nem por um segundo?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Os veteranos em Cannes


O Festival de Cannes pode ser uma rampa de lançamento para novos valores do cinema mundial, como aconteceu com o reconhecimento do jovem João Salaviza no ano transacto. Mas Cannes continua, por assim dizer, a ser um espaço de interminável valorização dos realizadores mais veteranos e reincidentes.
Senão vejamos as idades de alguns cineastas presentes este ano em Cannes com filmes:

- Manoel de Oliveira: 101 anos
- Ridley Scott: 73 anos
- Jean-Luc Godard: 79 anos (na imagem)
- Woody Allen: 74 anos
- Abbas Kiarostami: 69 anos
- Stephen Frears: 69 anos
- Otar Iosseliani: 66 anos
- Mike Leigh: 64 anos
- Nikita Mikhalkov: 64 anos
- Oliver Stone: 63 anos

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O dinheiro para o cinema de Oliveira


O filme "O Estranho Caso de Angélica" de Manoel de Oliveira foi apresentado hoje no festival de Cannes e, pelas primeiras reacções críticas, foi muito bem recebido. Ainda bem.
A Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, esteve presente na estreia e referiu que gostou muito do filme, mas gostou ainda mais da música - Chopin interpretado pela pianista Maria João Pires. Não admira esta predilecção, considerando que Canavilhas tem formação musical académica. Mencionou, igualmente, que o Ministério que tutela apoiou o filme de Oliveira com 700 mil euros, num orçamento total que rondou os 2 milhões de euros (co-financiamento oriundo de França e Espanha).
Nesta coisa dos orçamentos para o cinema português não percebo como Pedro Costa - entre outros cineastas portugueses - conseguem fazer grandes filmes com (apenas) algumas dezenas de milhares de euros, quase sem apoios institucionais, comparativamente com Manoel de Oliveira que precisa, em média, um milhão de euros (o último custou dois) para cada novo projecto.
Tanto dinheiro que, à primeira vista, não se vislumbra onde e como é gasto. Dois milhões de euros para a produção? Para a contratação do elenco artístico e técnico? Para a publicidade? Claro que dois milhões de euros, à escala da produção cinematográfica europeia ou americana, é muito pouco. Mas considerando a pequenez do mercado de Portugal e os meios de produção existentes, acho que dois milhões de euros para um filme - mesmo tratando-se de Manoel de Oliveira - é muito dinheiro.

As últimas notas de Mozart


"Amadeus" (1984) é uma obra-prima de Milos Forman. Não é só pelo facto de ter ganho 8 Óscares. Podia não ter ganho nenhum. Porque "Amadeus" é, provavelmente, o melhor filme que já se fez sobre um compositor e a sua obra.
Forman construiu uma verdadeira sinfonia cinematográfica, com total rigor na encenação, na interpretação dos actores (espantosos Tom Hulce como Mozart e F. Murray Abraham como Salieri), na montagem, na progressão dramática da história.
Sabe-se, porém, que nem todos os acontecimentos relatados nesta visão sobre a vida de Mozart são verídicos. Alguns elementos fantasiosos foram explorados, como a natureza da própria relação entre Mozart e Salieri (não foi este que matou o famoso compositor, ao contrário perpassa no filme).
"Amadeus" contém muitas cenas de enorme brilhantismo e intensidade. A música do genial Mozart escorre pelo ecrã como cascata de puro deleite auditivo. Há uma sequência de que gosto particularmente: aquela que diz respeito aos últimos dias de vida do compositor austríaco, quando foi obrigado, por razões financeiras, a compor a sua última e derradeira obra - "Requiem".
Mozart, deitado na cama, exausto, febril e doente, dita uma secção musical importante do "Requiem" a Salieri, o "Confutatis". Tom Hulce é brilhante na forma como encarna um Mozart quase moribundo mas ainda com surpreendente energia criativa. Mozart dita, de cabeça, a melodia e a harmonia a Salieri, que a transcreve para a partitura com tocante entusiasmo. É um processo de ensino-aprendizagem, de transmissão de saberes do mestre para o aprendiz.
A forma como o realizador Milos Forman encenou todo este processo, a forma como, a partir de um determinado momento, a música surge a acompanhar o pensamento de Mozart, a forma como os dois actores (sobretudo Tom Hulce) agarram o espírito das últimas notas musicais criadas por Mozart, revelam a essência genial deste filme.

Momentos e Imagens - 64


Cena doméstica de duas estrelas de Hollywood: Humphrey Bogart a ler com o filho Stephen, enquanto a mulher e actriz Lauren Bacall observa e os três cães dormem.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Headphones all the time anytime


Há uns dias entrei num elevador com um jovem que ouvia música com auscultadores (leitor de mp3). Usava uns auscultadores do tipo iPod, brancos e pequenos, ainda que agora esteja na moda os headphones grandes e vistosos (como na imagem).
Pelo silêncio proporcionado pelo isolamento acústico do elevador, eu próprio conseguia ouvir o que o jovem ouvia. Qualquer coisa de música rock. Fosse o que fosse, apercebi-me que o volume de som estava altíssimo. Decibéis a mais, portanto. O dito jovem não conseguiria ouvir um trovão a dois metros, dado o volume exagerado. Estudos científicos recorrentes comprovam a relação entre a perda de audição progressiva (até 70%) com a utilização desproporcionada de volumes de som nos auscultadores. Os jovens (e menos jovens) só se apercebem desta perda de audição tarde demais...
Perdas de audição à parte, este é um sintoma de que cada vez mais os jovens ouvem música em todas as circunstâncias e mais alguma e a qualquer hora: na rua, a andar de bicicleta, nos consultórios médicos, nas salas de aula, na igreja, em espectáculos de música, em qualquer lugar e a qualquer momento.
Os tempos mudaram drasticamente. Já não existem grupos de jovens que se juntam no isolamento de um quarto para, em conjunto, ouvirem um disco, desfrutando do momento colectivo da descoberta musical. Muito menos existe o culto da iconografia relacionada com o formato CD ou vinil (capas, contracapas, conteúdo informativo, imagens...).
O que existe agora é o consumo musical cada vez mais individualista e imediatista, ao ponto de vários jovens poderem estar na mesma sala a ouvir músicas diferentes, sem comunicação. É mais democrático e acessível, é mais fashion e mais de acordo com as regras da cultura pop, mas neste fenómeno de fruição perdem-se vivências e perde-se o prazer da partilha em comum. Para cada nova geração, novas fórmulas de fruição musical. Até ao dia em que essas gerações só conheçam o mundo virtual onde a desmaterialização da música impera. Para o bem e para o mal.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O sagrado nos Monty Python

Um católico explica às dezenas dos seus filhos porque é forçado a doá-los para experiências científicas... Como o Vaticano proíbe os métodos anticoncepcionais, o pai ficou sem dinheiro para sustentar a interminável prole. E Deus fica irado por todo e qualquer esperma desperdiçado...

Vestir Joy Division

Propostas de t-shirts para lembrar, durante este mês, o 30º aniversário do desaparecimento de Ian Curtis.




Vinho ao sabor da música


Nunca fui um grande apreciador de vinhos, mas esta notícia não deixa de me interessar: um grupo de psicólogos da Universidade Heriot Watt, em Edimburgo, realizou uma pesquisa, envolvendo 250 estudantes, que demonstra uma ligação entre a música que se está a ouvir e o sabor do vinho que se está a beber.
De acordo com o estudo desenvolvido, os especialistas concluíram que um copo de "cabernet" saboreado ao som de música mais pesada, fazia o consumidor descrevê-lo como mais "poderoso, rico e robusto", em 60 por cento das ocasiões, do que se o provasse em silêncio. Os mesmos investigadores chegaram a outra conclusão curiosa: o sabor do vinho tipo "cabernet" é mais afectado por músicas pesadas, enquanto o vinho "chardonnay" tem a percepção modificada por "batidas energéticos ritmadas".
Durante um dos testes, foram tocadas quatro músicas diferentes para os mesmos vinhos: "Carmina Burana" de Carl Orff ("poderosa e pesada"); "Valsa das Flores", de Tchaikovsky ("subtil e refinada"); "Just Can`t Get Enough", dos Nouvelle Vague ("energética e refrescante") e, por fim, "Slow Breakdown", de Michael Brook ("melosa e leve"). Ao som de "Just Can`t Get Enough", dos Nouvelle Vague, o vinho branco foi considerado, em mais de 40 por cento, "energético e refrescante". Já ao som de "Slow Breakdown", de Michael Brook, apenas 26 por cento o considerou "meloso e leve". Por seu lado, o vinho tinto teve uma variação de 60 por cento do sabor quando acompanhado por Carmina Burana.
Adrian North foi o professor que liderou o estudo e, depois destes resultados, acredita que os produtores de vinhos podem e devem começar a imprimir recomendações musicais nos rótulos dos vinhos.
Agora só faltam estudos que comprovem a relação entre o consumo de tremoços e a música de Quim Barreiros.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Happy Birthday Adolf Hitler!"


Ontem assinalou-se a data da derrota oficial da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial. 65 anos depois, parece que a memória histórica se esvai na sociedade actual. Supostamente, o nazismo foi um dos piores pesadelos da Humanidade, mas ainda há quem se esforce para o manter bem vivo...
Veja-se este caso: um jovem casal holandês, Heath e Deborah Campbell, tem três filhos. Tudo de normal até agora. O elemento que distorce esta aparente anormalidade é o facto de Heath Campbell ser um acérrimo... neo-nazi. Ora, como bom neo-nazi que é, Heath nega a existência do Holocausto, odeia de morte os Judeus e venera o fascismo alemão até às últimas consequências. Para provar o seu amor pela causa, resolveu baptizar os seus três filhos com nomes de acordo com a ideologia que idolatra. Então é assim: uma filha chama-se JoyceLynn Aryan Nation Campbell; a outra, Honszlynn Himler Campbell. E, crème de la crème, o filho mais novo, que acaba de fazer três anos, dá pelo singelo nome de Adolf Hitler Campbell! E logo com uma carinha de anjo (na imagem com os pais).
Ao que parece, o diligente neo-nazi ficou indignado pelo facto de uma pastelaria se ter recusado a confeccionar um bolo de aniversário para o filho por causa do infame nome. Convenhamos que não é todos os dias que se pode ver escrito, com creme de chocolate num bolo de aniversário, a dedicatória "Happy Birthday Adolf Hilter!". O pudor, a dignidade intelectual e o respeito pela memória de 6 milhões de judeus mortos no Holocausto terão pesado na consciência do pasteleiro e, consequentemente, na nega ao pedido.
Há estigmas e estigmas na vida. Mas o estigma que esta pobre criança, Adolf Hitler Campbell, vai carregar às costas até morrer, é daqueles estigmas que nem Jesus Cristo conseguiria suportar. Ele há coisas...
Heath Campbell com a filha JoyceLynn Aryan Nation Campbell.

Woody Allen em Cannes

"You Will Meet a Tall Dark Stranger" é o curioso título do novíssimo filme de Woody Allen. Depois do brilhante regresso de Allen à comédia dramática com "Whatever Works", o realizador de Nova Iorque apresenta no Festival de Cannes este filme com um elenco de luxo: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Brolin, Antonio Banderas e Freida Pinto. O argumento, ideia original de Woody Allen, gira à volta de peripécias e problemas familiares que são resolvidos num registo de humor a que já nos habituou Woody Allen.
Eis algumas imagens do cineasta a dirigir os actores:

"Chloe" ou os mistérios da sedução


Catherine (Julianne Moore) desconfia que o seu marido, David (Liam Neeson), lhe é infiel. Para testar a sua fidelidade, Catherine contrata Chloe (Amanda Seyfried), uma "call girl" de luxo para o seduzir...
Este é o ponto de partida - aparentemente simples e banal - de "Chloe", o último filme de Atom Egoyan. Um filme complexo sobre as teias da obsessão sexual, do desejo, da traição, da confiança, da transgressão, do amor e das angústias de um casal para sobreviver à rotina. A história revela tensão emocional e dramatismo, num "jogo de espelhos" narrativos que exigem a atenção do espectador.
Atom Egoyan revela-se seguro na realização, com magníficas e convincentes interpretações de Julianne Moore, Liam Neeson e da jovem e sedutora Amanda Seyfried. É um título que ainda não estreou em Portugal (nem sei se vai estrear tão cedo).
Trailer:

domingo, 9 de maio de 2010

A verdade sobre Joaquin Phoenix


Em Agosto de 2009 escrevia neste post que o actor Joaquin Phoenix estava a transformar-se num enigma devido ao seu comportamento anormal no programa de David Letterman (assim como noutras circunstâncias). Foi por essa altura que o actor de "Two Lovers" avisou que iria deixar Hollywood para se dedicar a uma carreira no mundo da música hip-hop. O mundo do espectáculo dividiu-se em dois: os que acreditavam na aparente loucura do actor, e os que achavam que se tudo se tratava de uma engenhosa encenação.
A este propósito, o jornal espanhol El País publica hoje um artigo no qual defende a tese segundo a qual Joaquin Phoenix encenou, durante um ano, o seu comportamento para um "mockumentary", isto é, um falso documentário realizado pelo seu cunhado Casey Affleck (também ele actor). O documentário dá pelo título "I'm Still Here: The Last Year of Joaquin Phoenix", e pretende retratar um ano de aventuras (sobretudo desventuras) do actor agora barbudo e com ar alienado.
A ser verdade esta encenação, há que dar o mérito a Joaquin Phoenix pela convincente interpretação ao longo de todo um ano de comportamentos bizarros e provocadores. Depois da estreia deste falso documentário, aguarda-se que Phoenix venha a público revelar toda a verdade.

sábado, 8 de maio de 2010

Tesouros da música de vanguarda


Tal como o nome indica, "Avant Garde Project" é um projecto de divulgação da música vanguardista do século XX. Por música de vanguarda entende-se uma forma musical que rompeu convenções estéticas e inovou na linguagem artística (sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial): electro-acústica, experimental, concreta, minimalismo, electrónica, free-style, entre outras derivações estilísticas difíceis de catalogar.
O grande contributo de "Avang Garde Project" é que permite conhecer e ter acesso a dezenas de raras composições de vanguarda da música erudita contemporânea, de compositores conhecidos como Stravinsky, Schoenberg, Bruno Maderna, John Cage, Luciano Berio, Mauricio Kagel, Pierre Henry, Xenakis, Toru Takemitsu, Harry Partch e muitos outros desconhecidos. Grande parte das gravações disponíveis de composições de referência nunca tiveram edições em CD, pelo que as obras musicais foram directamente convertidas de vinil para mp3. Os downloads são gratuitos e ilimitados.
Um verdadeiro tesouro musical a descobrir. Link.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um Eisenstein menos conhecido


“Que Viva México!”, filme pouco conhecido e citado do realizador russo Sergei Eisenstein, centra-se nos costumes culturais mais representativos do estilo de vida mexicano, destacando-se por uma riqueza expressiva e até perturbadora.
Como se sabe, Eisenstein foi um esteta irrepreensível e exigente, um criador de algumas das mais importantes e originais imagens do cinema mundial. O realizador russo foi o autor de obras tão marcantes como “O Couraçado Potemkine”, “A Greve”, “Outubro”, “Alexandre Nevsky” ou “Ivan, o Terrível”.
Para além de realizador, Eisenstein foi também um notável teórico e intelectual que influenciou grande parte dos cineastas mundiais que lhe seguiram. É célebre a sua teoria revolucionária da montagem e da utilização das cores no cinema (consta-se que o realizador morreu vítima de um ataque cardíaco quando estava a escrever um texto sobre a cor no cinema).
Na sua riquíssima filmografia, consta um filme que se achava perdido até 1979, “Que Viva México!”, precisamente. No auge na crise económica, em 1929, Eisenstein foi para Hollywood testar a sua capacidade na Indústria Cinematográfica. No entanto, o realizador russo optou por visitar o México no intuito de realizar um documentário sobre a etnia, a geografia e a diversidade cultural mexicana. Devido a problemas financeiros Eisenstein não conseguiu montar o filme. Criou-se então o mito que o filme “Que Viva México!” teria sido perdido para sempre. Nada mais errado.
Em 1979, o assistente de realização de Eisenstein, Grigori Aleksandrov, conseguiu restaurar e montar definitivamente o filme, respeitando ao máximo as longas anotações, desenhos (storyboard) e a rigorosa orientação do mestre Eisenstein, alcançando a definitiva versão e a mais próxima possível do projecto inicial. “Que Viva México!”, filme em quatro episódios temáticos, foi então revelado ao mundo como mais uma obra-prima do realizador russo, num trabalho minucioso que combina brilhantemente elementos etnográficos, políticos, artísticos, dramáticos e surrealistas, influenciando toda uma geração de realizadores de documentários (especial destaque para a forma como o cineasta mostra os rituais associados ao culto da morte praticados no México).
Filme de uma grande beleza formal, em que os planos são escrupulosamente pensados para desencadear um determinado efeito psicológico no espectador. Uma obra esplendorosa.

Pop Dell'Arte: o regresso


Uma das maiores notícias do ano da música nacional é o regresso dos Pop Dell'Arte. A banda de João Peste (na imagem) é responsável por alguns dos mais originais e inovadores discos de toda a música portuguesa (sobretudo com o álbum "Free Pop"), num abordagem criativa que ousou fundir estéticas e romper preconceitos estilísticos.
Os Pop Dell'Arte têm agendado o lançamento do novo disco, com o título "Contra Mundum" (que assinala 25 anos de carreira), para o próximo dia 14 de Junho, e o single de antecipação já está aí: "Ritual Transdisco”.
O álbum é uma edição de luxo, limitada e numerada, já que inclui um booklet de 24 páginas ilustradas e um poster de face dupla. Enquanto não chega o disco, aconselho vivamente a ouvir o excelente single "Ritual Transdisco". João Peste no seu melhor.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Tati e a "coreografia de acidentes"

É um filme mal-amado de Jacques Tati. Considerada uma obra menor, "Trafic" (1971) foi o filme realizado cinco anos após o fracasso comercial (mas não artístico) de "Playtime", que levou à ruína económica o actor e realizador francês.
"Trafic" é o filme no qual surge pela última vez o inimitável personagem Sr. Hulot em todo o seu esplendor cómico, com gags visuais extraordinariamente bem filmados, como nesta sublime "coreografia de acidentes" (que materializa, na perfeição, a visão crítica mordaz de Tati face à sociedade moderna e seus "objectos de adoração"):

Contos da vida


Há um livro ao qual recorro com frequência: "Tertúlia de Mentirosos - Contos Filosóficos do Mundo Inteiro" (Teorema) do francês Jean-Claude Carrière (na imagem o livro que deu continuidade).
Este escritor e argumentista de cinema foi famoso por ter adaptado obras literárias para o grande ecrã e por ter escrito alguns dos melhores guiões do realizador espanhol Luís Buñuel. Neste livro, Carrière reúne centenas de pequenas histórias e contos do mundo inteiro e de todas as culturas e religiões - judaica, cristã, islâmica, indiana, sufi, aborígene, budista, etc. Alguns contos têm milhares de anos, outros são contemporâneos.
Ler "Tertúlia de Mentirosos" é um exercício fascinante. O conhecimento, o saber, os ditos de espírito compilados neste livro são verdadeiros manuais de vida e dariam para muitas teses de filosofia.

Deixo apenas aqui um exemplo num conto intitulado "A solução" (oriundo da tradição judaica mas com um toque zen):

Um estudante dirige-se a um velho sábio rabino e diz-lhe:
- Reflecti muito e tomei uma decisão. Decidi morrer.
- Não é uma solução - diz o rabino. O jovem vai-se embora e volta uma semana depois, dizendo:
- Tinhas razão, mestre. Reflecti muito e decidi viver com mais energia.
- Não é uma solução - diz o rabino.
- Mas disseste-me que morrer não era solução! Agora dizes-me que viver não é solução. Então qual é a solução?
- Porque pensas tu que há uma solução? - afirmou o rabino.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Discos que mudam uma vida - 104


Prefab Sprout - "Steve McQueen" (1985)
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Sempre considerei como bandas de referências pop dos anos 80 quatro nomes: XTC, The Go-Betweens, The Smiths e Prefab Sprout. Apesar da capa duvidosa, este é um dos discos pop mais perfeitos e influentes da década de 80. Que digo eu? Da década de 80 e 90.
O álbum "Steve McQueen" dos Prefab Sprout foi editado em 1985 e ainda me lembro da primeira vez que ouvi uma das canções mais belas do disco, "Appetite". Foi no saudoso programa "Som da Frente" do António Sérgio (programa alternativo da Rádio Comercial, que emitia todos os dias às 16h, hoje impensável) e durante semanas esteve no top de preferências dos ouvintes. Depois comprei o vinil e foi o fascínio. Paddy McAloon, líder e vocalista do grupo, era um notável letrista e cantor e este disco - com nome de actor - está recheado de canções povoadas por melodias pop sublimes e letras desencantadas.
Lembrei-me deste disco porque, ao entrar hoje no carro e sintonizar a Antena 3, ouvi o belíssimo tema "When Loves Breaks Down", que faz parte do alinhamento de "Steve McQueen". Há que anos que não ouvi esta pérola...

Momentos e Imagens - 63


O actor Dennis Hopper e o realizador Nicholas Ray

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cultura vinda do Brasil



Eu nunca fui ao Brasil mas amigos meus que já foram dizem-me quão grandioso e diversificado é aquele país. E por ser um país com uma população tão grande, a oferta cultural é proporcional à sua dimensão.
Por exemplo, não há comparação possível entre o mercado editorial brasileiro e o português. E basta uma breve navegação pelos sites brasileiros que vendem produtos culturais para perceber que diversidade, qualidade e quantidade é com o país da Bossa Nova. Repare-se apenas neste site mais vocacionado para o cinema: 2001video.com
Aqui encontramos imensas edições em DVD de filmes raros que não se encontram em Portugal. Com os livros dedicados ao cinema é a mesma coisa. Dezenas de títulos curiosíssimos e interessantes, desde história do cinema, estética, biografias, e assuntos menos comuns como a relação entre escola e cinema; a diversidade cultural no cinema, ou a psicanálise e o cinema (ver os títulos das imagens). E a maior parte não são traduções de livros estrangeiros, mas sim de escritores e ensaístas do Brasil, o que faz uma grande diferença (a da afirmação de uma cultura mais forte e dinâmica).
Outro grande momento musical de Jerry Lewis.
Não, Jerry Lewis não lava a loiça. A cozinha serve apenas de cenário para mais uma maravilhosa actuação musical... imaginária. Jerry é mesmo um instrumentista excepcional. Se não acreditam, reparem na sua majestosa forma de tocar flauta.

O primeiro "Alice" no cinema


Muitos anos antes da adaptação de Tim Burton em 3D de "Alice no País das Maravilhas", houve aquele que foi considerado o primeiro filme com base no livro de Lewis Carroll. Datado de 1903 e restaurado pelo conceituado British Film Institute, "Alice in Wonderland" foi realizado pela dupla Cecil Hepworth e Percy Stow, numa adaptação ao grande ecrã apenas 37 anos depois da edição original do livro e 8 depois do... nascimento do próprio cinema.
O filme tinha apenas 12 minutos de duração, mas somente sobreviveram estes 8. Uma relíquia histórica, portanto.

domingo, 2 de maio de 2010

A máquina de escrever musical de Jerry

Esta é uma célebre cena do filme "Who's Minding The Store?" (1963) realizado por Frank Tashlin e interpretado pelo grande Jerry Lewis. Jerry estava no auge da sua carreira como comediante dotado de um estilo muito próprio, em que a mímica e o gesto eram elementos fundamentais na construção dos gags. Nesta cena, Jerry toca numa imaginária máquina de escrever (musical), fazendo coincidir cada gesto a cada nota e cada som.
As novas gerações talvez não percebam muito bem o significado deste "sketch", uma vez que não tiveram contacto com as máquinas de escrever, possuidoras daqueles sons tão característicos no teclar, no fim de página e no virar da mesma.
Anos mais tarde, nos anos 70, Jerry Lewis voltou a interpretar a cena num programa de televisão e o resultado voltou a deslumbrar a plateia. Parece fácil fazer isto, mas não é. No trabalho de mímica, Jerry Lewis não falha uma única nota nem um som. Magnífica demonstração da arte expressiva deste actor/realizador esquecido, revelada em menos de dois minutos.

sábado, 1 de maio de 2010

Perguntas indiscretas - 29


O cinema tem o poder de emocionar, de potenciar o imaginário, de criar ilusões, sonhos, pesadelos e sensações que só a sétima arte pode fomentar.
Quase todos os espectadores já terão tido, em alguma altura das suas vidas, pesadelos fruto do visionamento de um determinado filme ou de uma determinada cena. Imagens de terror e de sofrimento que causaram considerável impressão no subconsciente, ao ponto de se acordar com suores frios ou, em alternativa, motivar noites inteiras de insónia.
Assim sendo, que filmes já vos proporcionaram tamanhas reacções?
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Na imagem: "The Nightmare" (1782) de Henry Fuseli