segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Retrato do artista quando jovem - 6


Frank Sinatra

Karlheinz Stockhausen

Sylvia Plath

Stephen King

Roman Polanski

Pabrlo Neruda

Jodie foster

Buster Keaton

Al Pacino

O tributo


Já era hora: disco de homenagem aos The Cure. Vai ser editado apenas em Outubro deste ano, e vai ter o formato de CD duplo, com perto de 40 versões das canções da banda de Robert Smith. Temas míticos como "A Forest", "Close to Me", "Killing an Arab", "Love Cats", "In Between Days" e tantos outros, vão ser revistos à luz de novas abordagens e sonoridades. Aguardemos, portanto.
Mais informação no site da editora Manimal Vinyl Records.

Livrai-nos do Mal

O homem da imagem exerceu o sacerdócio durante quase 40 anos no estado da Califórnia. Este homem de olhar sereno e apaziguado, de humilde origem irlandesa, chama-se Oliver O'Grady e é o mais reconhecido pedófilo da Igreja Católica moderna. Como este padre, houve muitos outros acusados de abusos sexuais a menores, mas O'Grady é o caso mais mediático e, talvez, um dos mais perturbantes dos últimos anos. Sem qualquer vergonha ou qualquer sentimento de culpa, O`Grady usava o seu charme e autoridade para violar dezenas de crianças e famílias Católicas do Norte da Califórnia. Durante mais de duas décadas, as suas vítimas foram desde um bebé de 9 meses à mãe de um adolescente, que também tinha sido molestado. Apesar das queixas em várias comunidades, a Igreja foi dissimulando o caso para evitar críticas, transferindo-o de paróquia em paróquia como se isso resolvesse algum problema. Oliver O´Grady acabaria por ser preso, mas cumpriu apenas metade dos 14 anos a que foi condenado. Hoje em dia passeia-se livremente pelas ruas de Dublin.
Sobre a tumultuosa vida deste ex-padre a realizadora Amy Berg realizou um fascinante documentário em 2006 que resultou numa nomeação ao Óscar para a categoria de Melhor Documentário em 2007 (para além de ter ganho cinco outros importantes prémios). O documentário tem, apropriadamente, o título "Deliver us From Evil", com tradução portuguesa litaral "Livrai-nos do Mal". Em Portugal não estreou comercialmente em sala, mas qualquer interessado poderá conhecer o filme comprando o DVD que na Fnac custa menos de 10€. Também é recomendável entrar no site oficial do filme e visionar o excelente trailer.
"Deliver us From Evil" é um documentário extremamente bem conseguido pela forma inteligente como aborda um tema tão delicado. A colaboração do pedófilo assumido foi essencial para o bom resultado do filme, visto que, sem pejo nem mostras de arrependimento, O'Grady revela pormenores escabrosos dos abusos que perpetrou durante décadas. Não há recurso habitual à narração em off, nem efeitos visuais vistosos, não há moralismos condescendentes, nem montagem ou música para sensibilizar o espectador. Toda a informação do filme é transmitida de forma seca e crua, como secos e crus foram os factos vividos pelas vítimas. É um filme perturbante porque neste homem se espelhavam os valores religiosos, os quais foram brutalmente traídos, corrompendo premissas básicas como a verdade, a fé, a inocência, a moral, a devoção. O'Grady violou e abusou de dezenas de crianças (e não só), e a hierarquia da Igreja, hipocritamente, tentou sempre ocultar o problema com soluções de supérflua validade (como a transferência do padre para outras paróquias). As vítimas são agora adultas e não revelam medo no modo como manifestam as suas emoções no filme. Sentem profunda revolta, uma revolta que lhes custou a inocência perdida (como um jovem conta).
"Livrai-nos do Mal" é um exercício de exorcismo para com o padre pedófilo, mas é também um documento para compreendermos como o mal se encerra, muitas das vezes, sob a capa do humanismo e dos valores supostamente incorruptíveis da religião - de resto, a História é pródiga em comprovar este tese. Este homem, Oliver O'Grady, que após cada violação ia à Igreja pedir perdão a Jesus Cristo, cumpriu uma parca sentença na prisão pelos seus hediondos crimes. Agora passeia-se nas ruas de Dublin...

domingo, 10 de agosto de 2008

Díptico - 22


A música do cinema na rádio


A Rádio Universidade de Coimbra é um exemplo claro de serviço público de rádio. Como referi já neste post, a RUC é uma estação que, estando ligada a uma Universidade e a uma cidade, consegue suplantar as limitações habituais de programação com uma filosofia radiofónica de autor e de qualidade. Uma filosofia que prima pela diversidade de informação e de programas, priveligiando as correntes musicais alternativas, promovendo debates sobre cultura e artes, concertos, parcerias com outras entidades culturais, etc.
Na rica e dinâmica linha de programação da RUC existem programas temáticos concebidos por animadores não profissionais, mas com sólida preparação ao nível da comunicação e da formação cultural. Na RUC podemos ouvir programas de qualidade que divulgam as músicas do mundo, o jazz, o rock independente, a electrónica mais experimental, o heavy metal, a nova música portuguesa ou a música erudita. Daí que a rádio da cidade dos estudantes seja um caso praticamente único e de grande resistência no panorama português da rádio, mesmo após mais de 20 anos após a sua fundação.
Um dos seus programas mais peculiares é o "Cinemusicorium", de Vasco Otero. Trata-se de um programa que visa, objectivamente, divulgar as músicas (bandas sonoras) do cinema, realizando semanalmente o relato áudio e verbal descritivo de uma obra da sétima arte em cada emissão. Ouvem-se as músicas, assim como de debita informação sobre os compositores de cinema, conversas com convidados especiais, entrevistas, etc. A música para cinema é uma arte muitas vezes negligenciada, pelo que o labor de Vasco Otero é o de lembrar que a música dos filmes é tão importante quanto outras criações musicais de género mais popular. E que, por isso mesmo, faz sentido incluir uma programa deste teor na programação de uma rádio.
O programa vai para o ar semanalmente todas as segundas-feiras, entre as 20h e 21h, e pode ser ouvido através da RUC online. Para mais informação sobre o programa e os conteúdos tratados no mesmo, o melhor mesmo é abrir o blogue do Cinemusicorium.

sábado, 9 de agosto de 2008

Díptico - 22


"A Guerra do Fogo" (1981) e "O Urso" (1988) de Jean-Jacques Annaud

Uma Diva intemporal


No dia 8 de Agosto de 1985 morria, na total solidão e indiferença, uma das maiores divas do cinema mudo: Louise Brooks. Teve uma carreira curta, de pouco mais de 10 anos e participou apenas em 24 filmes, quase todos filmes menores e esquecidos. Menos um, que foi o suficiente para lhe valer o reconhecimento mundial, elevando-a ao património do imaginário cinematográfico de sempre: "A Caixa de Pandora" (1928), do realizador alemão G.W. Pabst (que já tinha lançado Greta Garbo). Neste filme, Brooks irrompe na tela como um vulcão e interpreta Lulu, uma jovem radiante que é inconscientemente responsável pela ruína dos seus amantes e é vítima da exploração daqueles que se aproveitam de sua beleza e ingenuidade. A actriz empresta à personagem Lulu uma alta carga de erotismo. Um erotismo à flor da pele, insinuante, feito de gestos e olhares. O rosto e corpo de Brooks irradiam sensualidade, enlouquecendo os homens à volta (mais do que Marlene Dietrich fez em "O Anjo Azul" de Sternberg). A beleza expressiva e rara de Louise Brooks e o seu talento para interpretar essa mulher fatal, enigmática e ingénua, sagrou-a para sempre como uma figura de culto que perdura até aos nossos dias. Tal é o culto que existem inúmeras páginas na internet de devoção incondicional a esta actriz e mulher que, após o fim do período mudo, praticamente não voltaria a trabalhar no cinema. A título de exemplo, veja-se este site brasileiro.
Em Portugal não há edição em DVD do filme "A Caixa de Pandora", mas pode ser adquirido uma edição espanhola (a que eu tenho) mesmo aqui, por um preço muito convidativo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Nico Muhly - um talento afirmado


O rapaz da fotografia tem cara de um jovem saído da adolescência, igual a tantos outros. Na verdade já tem 27 anos e, apesar da cara de miúdo, é actualmente um compositor prestigiado e reconhecido. É americano, chama-se Nico Muhly e teve formação musical clássica. Com pouco mais de 20 anos colaborou já com nomes sonantes como Philip Glass (enquanto orquestrador e organista) e com Björk. Compôs inúmeras peças eruditas (para orquestra e coro, sobretudo) e é tido como um excelente intérprete de reportório renascentista e clássico. É especialista em música renascentista, medieval e coral, mas isso não o impede de abraçar experiências contemporâneas, nomeadamente, com música pop e de cariz mais experimental. Mistura referências eruditas com elementos da linguagem pop, compõe tanto para cravo, banjo, percussão, piano, como para cordas, coro e samples electrónicos. Ou seja, um compositor que escapa a convenções e classificações, o que é um excelente e saudável sintoma de inconformismo artístico.
Pela precocidade artística e pelo talento insólito revelado, Nico Muhly tem sido alvo de todas as atenções por parte da comunicação social especializada - dos jornais mais circunspectos à vanguardista revista Wire. E compreende-se porquê. Editou há poucas semanas o seu segundo disco a solo, intitulado "Mothertongue" (imagem à direita), um disco que é uma fascinante viagem ao imaginário musical ecléctico de Nico Muhly. Podemos escutar jogos vocais em espiral (influência óbvia das peças vocais de Philip Glass), composições electro-acústicas de fino recorte musical, grande variedade de paleta tímbrica e instrumental, aproximações difusas ao formato de canção pop - mas sempre com um inebriante rasgo de inovação formal (seja pela orquestração ou pelos arranjos). Nico Muhly, apesar da sua juventude, está claramente a marcar pontos no panorama da música contemporânea, situando-se num território estético marcado pela fusão e simbiose de referências estilísticas.

Dois filmes de Espanha


São dois filmes recentes que comprovam a vitalidade do cinema espanhol. Sobretudo no que se refere à produção do cinema fantástico e de terror. Filmes multipremiados em diversos festivais (como o Fantasporto), "O Orfanato", de Juan Antonio Bayona (com produção de Guillermo Del Toro) é um prodigioso exercício de suspense com base numa inquietante história de amor maternal; "Rec", de Jaume Balegueró e Paco Plaza, revela-se uma obra de grande fulgor emocional tendo como pano de fundo o mundo do jornalismo televisivo. "O Orfanato" foi candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro na última edição dos Óscares.
Depois do fulgurante filme "Os Outros" (2001) de Alexandro Amenábar com Nicole Kidman, também ele um filme de terror extremamente bem conseguido, o cinema espanhol continua a evidenciar grandes qualidades de criação e de produção - ao nível do que de melhor de faz no mundo inteiro. Um cinema que consegue extraordinárias receita de bilheteira (os espectadores espanhóis acorrem em massa às salas para verem filmes espanhóis), da mesma forma que consegue obras de grande pujança artística e comercial sem comprometer a qualidade. Em contrapartida, o cinema português divide-se entre o cinema de autor elitista de um Pedro Costa e as alarvidades de objectos como "Corrupção" e quejandos...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Woody Allen cartoon

Há uns tempos li que o realizador Woody Allen era uma das figuras artísticas contemporâneas mais representadas graficamente. Sobretudo por caricaturistas e cartoonistas (já para não falar nos fotógrafos). Eis alguns exemplos:






King Crimson vs. Fred Frith

No melhor pano cai a nódoa. No jornal Público de quarta-feira, a propósito da reportagem sobre os concertos do festival Jazz em Agosto, o jornalista de serviço refere que Fred Frith "fez parte dos lendários King Crimson". Nada mais errado. Frith formou várias bandas ao longo das últimas décadas (como os seminais Henry Cow e Art Bears), tocou com meio mundo da música, mas nunca integrou a formação da banda liderada pelo guitarrista Robert Fripp.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Dizem que é o melhor filme de sempre.

Está a fazer-se história com o filme "Batman - Cavaleiro das Trevas" de Christopher Nolan. Não só arrebatou o record de maior receita de bilheteira de sempre com o primeiro fim-de-semana de estreia, como também entrou directamente para o primeiro lugar do top dos 250 melhores filmes de sempre do Imdb com uma média impressionante de 9,3 em 10 (o site avisa: the first film to be ranked #1 on the IMDb within two days of its theatrical release).
As votações são do público (mais de 200 mil espectadores), mas as críticas profissionais especializadas (jornais, revistas, sites...), não se coibiram de tecer rasgados elogios ao filme, considerando a melhor adaptação de sempre de um super-herói para o grande ecrã. Na minha humilde opinião, ocorre-me duvidar seriamente desta afirmação.
Vi o filme ontem e não enveredo pelo mesmo entusiasmo generalizado e praticamente unânime. Decepção. Aliás, partilho da opinião contra-corrente do blog Cataclismo Cerebral. O filme vale sobretudo pela magnífica interpretação psicótica de Heath Ledger como Joker (fala-se já em Óscar póstumo), mas uma grande interpretação não faz um grande filme. O realizador envereda por um exacerbado espectáculo visual não dando suficiente espaço narrativo para os personagens se desenvolverem. Christian Bale, o actor que encarna Batman, é demasiado contido e fechado numa expressividade quase austera (repare-se na voz gutural e monocórdica com que fala na pela do homem-morcego). A última meia hora de filme foi, para mim, um autêntico bocejo de previsibilidade e de soluções dramáticas. A banda sonora cansou-me pela forma como está omnipresente em praticamente todas as cenas, em constantes voltas e reviravoltas musicais consoante o momento do filme.
A propalada negritude estética do filme está bem representada e explorada (fotografia excelente), é verdade, mas o argumento resvala para convenções narrativas que julgava já gastas de tanto uso e exploradas em filmes anteriores bem melhores do que o de Nolan. Refiro-me à forma com o filme transpira, de forma grosseira e pueril, ambiguidade ética e moral num duelo entre o Bem e o Mal num mundo cruel e sem regras. Nenhuma ideia inovadora e ousada na forma como o filme desenvolve estas premissas. As cenas de acção são retiradas do manual "como fazer filmes de acção à Hollywood". Há mais cinema nos míticos 7 minutos de tiroteio do genial filme "Heat - Cidade sob Pressão" de Michal Mann - uma influência declarada para o realizador Christopher Nolan - do que nas sequências boçais de acção de "O Cavaleiro das Trevas".
O malogrado Heath Ledger e Aaron Eckhart ("Harvey Dent") levam o filme às costas. O resto é fogo de artifício, muita espectacularidade visual ao serviço de um argumento ambicioso e sobrevalorizado. Daí que tenha ficado boquiaberto ao constatar a entrada directa no site Imdb para primeiro lugar da lista dos 250 melhores filmes de sempre. Registe-se: para 200 e tal mil espectadores que votam livremente no site de cinema, o blockbuster de Verão "O Cavaleiro das Trevas" é simplesmente o "melhor filme de sempre". É obra.

Discos que mudam uma vida - 24


Ravi Shankar and Philip Glass: "Passages"

Jarmusch & Waits



São dois enormes artistas, duas referências absolutas. Jim Jarmusch e Tom Waits. O primeiro no cinema, o segundo na música (e, ocasionalmente, também no cinema). Já colaboraram juntos (como no sublime "Down by Law", 1986). Ambos são criadores de culto com legiões de admiradores por todo o mundo. Jarmusch com o seu cinema independente, de militância pura, outsider face ao sistema de Hollywood; realizou algumas das obras cinematográficas mais emblemáticas e com mais personalidade dos últimos 20 anos: "Stranger in the Paradise" (1984), "Dead Man" (1995), "Mistery Train" (1989), "Coffee and Cigarettes" (2003) ou o mais recente "Broken Flowers" (2005). Actualmente Jim Jarmusch filma o seu próximo filme em Espanha, com o título "The Limits of Control", com Bill Murray e Gael García Bernal.
Já Tom Waits, companheiro de Jarmusch há mais de duas décadas, é o timoneiro de uma estirpe de músicos que já não existe mais. A sua mais recente digressão - que infelizmente não passou por cá - teve reacções homéricas de entusiasmo. Genial foi o adjectivo que mais se ouviu e leu a propósito dos seus espectáculos. Interessante seria se ambos voltassem a colaborar num mesmo projecto...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

LEGO it Be


Danny Elfman news


Ainda não vi o filme nenhum destes filmes, mas já ouvi as respectivas bandas-sonoras originais. Os filmes não me interessam por aí além, tratando-se de produções "blockbusters" de grande escala de Hollywood para consumo de Verão. Mas a música é outra história. É que são os dois últimos trabalhos de Danny Elfman. E tratando-se de Danny Elfman, o interesse é sempre mantido num elevado índice. A música do filme "Wanted" é soberba, claramente inspirada no classicismo orquestral do mestre Bernard Herrmann à mistura com derivações electrónicas e percussões demenciais e intensas. Os ambientes sonoros negros e carregados, em deambulações dramáticas extremadas, fazem lembrar a composição que Elfman fez para o filme "Batman" de Tim Burton.
Já a música de "Hellboy II" deriva para outras ambiências e explorações, com mais programações electrónicas e abordagens estilísticas diversas, mantendo sempre o risco pela experimentação e inovação. Falta agora ver os filmes para comprovar a eficácia da relação entre a música e as imagens. Seja como for, pela criatividade a que nos habituou Danny Elfman, estes dois discos sobrevivem sem a necessidade de visualizar as imagens no cinema. Na música de Elfman, as imagens já estão todas incluídas na sua própria linguagem.

Pink Cigarette

"Pink Cigarette" - Mr. Bungle

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Conhecer música nova: o papel dos amigos

A revista Blitz resolveu fazer uma sondagem aos seus leitores no seu site para saber qual o melhor meio para descobrir nova música. O resultado pode ler-se aqui. O resultado não é de espantar, dado que a preferência maioritária (57%) diz preferir a internet para conhecer música nova. O curioso é que, logo a seguir à utilização da internet, está o item "recomendação de amigos" (14%), bem à frente da opção "imprensa especializada" (9%), da "rádio" (6%) e da "televisão" (4%). Ou seja, esta sondagem meramente demonstrativa, vem provar algo que já se sabia: os jovens (e menos jovens) conhecem hoje música nova quase exclusivamente pela internet, e dando mais crédito aos conselhos de amigos do que às propostas da comunicação social. Acaba por não ser muito diferente de quando eu era mais novo - à excepção da internet - que não existia ainda.
Tinha 16 anos quando comecei verdadeiramente a gostar de música e a conhecer/consumir sofregamente sonoridades novas. E uma das formas mais importantes e decisivas que eu tive para conhecer música nova estimulante (dos mais variados géneros - do jazz ao rock, da electrónica à erudita experimental) foi através da tal "recomendação de amigos", geralmente, mais velhos e conhecedores. E com mais dinheiro para comprar os discos em vinil que estavam na berra (gravei centenas de cassetes áudio à custas dos amigos). Só a seguir vinha a imprensa especializada, que à altura se resumia ao então semanário BLITZ, ao fugaz LP, ou à imprensa britânica - Melody Maker e New Musical Express (sem esquecer o papel importante dos fanzines). E, claro, a rádio. Mítica foi a importância que a figura do radialista António Sérgio teve para toda a geração dos anos 80 , com programas de autor como o seminal "Som da Frente". Dantes, lia-se uma crítica no jornal sobre um disco ou grupo que despertava a minha atenção e que queria conhecer e ouvir. Para tal, esperava que tocasse na rádio ou que o disco ficasse à venda na discoteca. Este processo entre conhecer o grupo pela imprensa (ou por um amigo) e conhecer a sua música, podia levar semanas. Actualmente, este mesmo processo leva um minuto - basta abrir o myspace do grupo que queremos conhecer e pronto, está lá a informação que pretendemos. Hoje mesmo acabei de ouvir o single (que foi lançado hoje mesmo)do novo álbum da dupla Brian Eno e David Byrne, como já tinha referido neste post.
Agora o paradigma da informação/comunicação é outro e a internet monopoliza praticamente todo o espectro de preferências ao nível de pesquisa de informação e de consumo cultural. E muitas vezes penso se a minha formação musical (enquanto consumidor e músico) teria sido muito diferente se, na altura própria, tivesse acesso à inesgotável sociedade da informação digital como hoje acontece...

A música precisa de significado?

As linguagens das várias expressões artísticas contém elementos de ordem semântica, isto é, significante: são expressões que visam o estabelecimento de um processo de comunicação entre o criador, o objecto artístico e o correspondente receptor. Ora, se todas as linguagens artísticas se apropriam da realidade quotidiana para delas retirarem uma "consciência artística" (Marcel Duchamp, por exemplo), nem todas recorrem a esse processo nem possuem a mesma característica semântica. Na música, muitas vezes coloca-se a questão de saber qual a "mensagem" ou o "significado" de dada manifestação musical. Porém, acontece que a música pode existir por ela própria, sem necessidade de ser sustentada ou avalizada por qualquer outro tipo de conteúdo, seja formal ou conceptual.

Donde, o conceito de música não se reduza ao chavão simplista de "exprimir emoções e sentimentos por intermédio dos sons". As emoções podem estar ausentes (ou muito bem dissimuladas) numa criação musical. Uma obra musical pode afirmar-se unicamente como obra intelectual. Um qualquer compositor poderá ter apenas a intenção de criar um corpo sonoro específico, sem querer, necessariamente, explanar esta ou aquela expressividade emotiva. Assim, a única criação que manifesta esta possibilidade de "assemanticidade" (ausência de significado, de comunicação, de mensagem), é a música. A partir da publicação, em 1854, do livro "O Belo Musical" de Eduard Hanslick, as reflexões filosófico-estéticas à volta da arte musical têm esclarecido que a música não é um meio de comunicação por “natureza”, como a palavra escrita ou falada, visto que os sons têm já por si uma identidade própria (como muito bem demonstrou John Cage ou o português Jorge Peixinho), sem nenhum outro atributo adicional. Se quisermos ser rigorosos, a música é, literalmente falando, a mais ancestral arte, tendo-se manifestado desde o momento da criação do Universo e da matéria: o "Big-Bang", para além de ter dado início à criação do Universo, terá sido a mais majestosa e empolgante "criação musical" de todos os tempos.

Esta teoria explica-se porque foi nesse preciso momento em que o som e o silêncio e, consequentemente a música, surgiram. Donde, somos levados a concluir que a música já existe desde o preciso instante da criação do Tempo e do Espaço. Quer o físico Stephen Hawkind, quer o compositor experimental Karlheinz Stockhausen abordaram esta questão nestes termos. Por outro lado, já Pitágoras e Platão defendiam também que a música mais não era do que a representação da harmonia do Universo, o pulsar da vivência dos astros e dos planetas. Em música não há impreterivelmente que procurar nada fora da própria música; isto é, a razão da sua existência não se deve encontrar fora dos sons (ou do silêncio) que a constituem. Seguindo este raciocínio, há que atestar que não seria com o desaparecimento da Humanidade que a música se extinguiria de forma irremediável, até porque se atendermos à categorização da música realizada pelo filósofo Boécio (a qual postulava três formas musicais: a música "Humana", a música "Instrumental" e a música "Universal"), constataremos que a expressão musical dispensa a existência dos instrumentos e do próprio homem.

Que restaria então? Restaria a magnificência do silêncio – enquanto forma musical mais primária e cristalina - e a sublime emanação sonora proveniente da Natureza e do Universo (notemos que o compositor francês Olivier Messiaen dizia que não havia música mais perfeita que a dos pássaros). De resto, tanto quanto sabemos, a Mãe Natureza não se preocupa em procurar e atribuir significados às suas manifestações sonoras; essa é uma preocupação muitas vezes frívola do homem na tentativa obsessiva de querer dar significado a tudo. A racionalização dos fenómenos artísticos (neste caso musicais) nem sempre é o melhor processo para chegar ao entendimento da sua essência. Na realidade, o que mais interessa é constatação pura dessas manifestações sonoras. Existem, e é tudo quanto baste.

(texto originalmente publicado em www.divergencias.com)

Díptico - 21


"The Birth of a Nation" (1915) e "Intolerance" (1916) - David W. Griffith

domingo, 3 de agosto de 2008

O filme que Hitchcock nunca realizou


Alfred Hitchcock quis um dia realizar o seu filme mais negro e violento de sempre, de tal forma que "Psycho" pareceria uma produção da Disney. Corria o ano de 1971. O mestre do suspense já tinha deixado ao mundo todas as suas obras-primas, mas faltava-lhe fazer "Kaleidoscope", um filme que retatava a vida de um serial killer e violador. O próprio Hitchcock, amante do humor negro e dos recantos violentos da mente humana, achava que poderia ser um filme demasiado violento para o público. "Kaleidoscope" seria um filme brutal com vários assassinatos filmados de forma inovadora (e com luz natural) - o actor Michael Caine interpretaria o papel do terrível assassino.
No entanto, "Kaleidoscope" nunca viu a luz do dia. O argumento estava escrito, a pré-produção em marcha, mas os estúdios de cinema que iriam financiar o filme - MCA Studios - abortaram o projecto. Razão? O argumento demasiado repulsivo e violento. E assim se perdeu, porventura, uma portentosa obra de Alfred Hitchcock, uma viagem aos abismos mais negros de uma mente psicótica, num filme extremo como o próprio Hitchcock nunca tinha feito.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Para compreender o mundo das imagens

Num mundo superpovoado de imagens, quais os critérios para avaliar as imagens verdadeiras das inúteis? Que valor e impacto tem uma imagem da televisão face a uma outra do cinema ou da internet? Que mecanismos devemos ter para compreender e interpretar as múltiplas configurações que a imagem contemporânea adquire na sociedade rápida da velocidade tecnológica e digital? Que dinâmicas visuais existem na cultura audiovisual e de que forma enriquecem ou empobrecem a nossa experiência social, comunicacional e estética?
Estas e muitas outras perguntas são respondidas neste esplêndido livro "Compreender o Cinema e as Imagens" das Edições Texto & Grafia. Um livro que reúne um conjunto vasto de ensaios e textos críticos de diversos especialistas mundiais na área do cinema e da comunicação audiovisual (com organização de René Gardies). O livro é de grande interesse não só pela forma como analisa os aspectos essenciais relativos à linguagem do cinema (com muito exemplos de análise e de imagens), como também pela opção de integrar, no contexto da cultura audiovisual contemporânea, a imagem produzida pelos meios tecnológicos que revolucionaram a comunicação: vídeo, Internet, televisão, publicidade, telemóveis...).
"Compreender o Cinema e as Imagens" insere-se na colecção "Mi-Mé-Sis", vocacionada para a divulgação das artes do espectáculo e suas distintas formas de expressão e de contaminação (o primeiro volume foi sobre a relação entre o cinema e a encenação). Escrito numa linguagem fluente, nada técnica ou académica, e com grande rigor formal, este livro é sem dúvida um precioso auxiliar para especialistas ou meros interessados na compreensão do fenómeno pluridimensional das imagens.

Discos que mudam uma vida - 23


Hüsker Dü: "Zen Arcade" (1984)